Jaime soltou uma risadinha.
– Ora, aí está um bobo engraçado. Tenho uma charada para você, Shagwell. Por que você se importa que ela grite? Ah, espere, eu sei. – E gritou o mais alto que pôde: – SAFIRAS.
Praguejando, Rorge voltou a chutar seu coto. Jaime soltou um uivo. Não fazia ideia de que havia no mundo uma agonia tão grande, foi a última coisa que se lembrava de ter pensado. Era difícil saber quanto tempo esteve desacordado, mas quando a dor o cuspiu, Urswyck estava lá, e o próprio Vargo Hoat também.
– Ela não deve fer tocada – gritou o bode, enchendo Zollo de perdigotos. – Ela tem de fer donfela, feuf idiotaf! Ela vale um faco de fafiraf! – E daí em diante, Hoat colocou guardas junto a eles todas as noites, para protegê-los de seus próprios homens.
Duas noites passaram em silêncio antes de a garota finalmente encontrar coragem para murmurar:
– Jaime? Por que gritou?
– Por que foi que gritei “safiras”, é isso que quer perguntar? Use a cabeça, garota. Acha que esses tipos teriam se importado se eu tivesse gritado “estupro”?
– Não precisava ter gritado nada.
– Já é suficientemente difícil olhar para você com nariz. Além disso, quis obrigar o bode a dizer “fafiraf”. – Soltou uma gargalhadinha. – Para você é bom que eu seja um grande mentiroso. Um homem honroso teria dito a verdade sobre a Ilha Safira.
– Seja como for – disse ela. – Agradeço-lhe, sor.
A mão dele estava latejando de novo. Apertou os dentes e disse:
– Um Lannister paga as suas dívidas. Aquilo foi pelo rio, e por aquelas pedras que despejou em cima de Robin Ryger.
O bode quis fazer de sua entrada em Harrenhal um espetáculo, então Jaime foi obrigado a desmontar a um quilômetro e meio dos portões do castelo. Uma corda foi amarrada em volta de sua cintura, e uma segunda em torno dos pulsos de Brienne; as extremidades foram atadas ao arção da sela de Vargo Hoat. Avançaram aos tropeções, lado a lado, atrás do zebralo listrado do qohorik.
A raiva de Jaime manteve-o em movimento. O linho que cobria seu coto estava cinzento e fedia a pus. Seus dedos fantasmas gritavam a cada passo. Eu sou mais forte do que eles pensam, disse a si mesmo. Ainda sou um Lannister. Ainda sou um cavaleiro da Guarda Real. Chegaria a Harrenhal, e depois a Porto Real. Sobreviveria. E vou pagar esta dívida com juros.
Ao se aproximarem das muralhas semelhantes a falésias do monstruoso castelo de Harren, o Negro, Brienne apertou seu braço.
– Lorde Bolton controla este castelo. Os Bolton são vassalos dos Stark.
– Os Bolton esfolam os inimigos. – Isso era tudo que Jaime recordava do nortenho. Tyrion conheceria tudo que havia para saber sobre o senhor do Forte do Pavor, mas encontrava-se a mil léguas de distância, com Cersei. Não posso morrer enquanto Cersei for viva, disse a si mesmo. Morreremos juntos, assim como nascemos juntos.
A aldeia junto às muralhas tinha sido reduzida a cinzas e pedras enegrecidas, e muitos homens e cavalos tinham acampado recentemente junto à margem do lago, no local onde Lorde Whent havia organizado seu grande torneio no ano da falsa primavera. Um sorriso amargo tocou os lábios de Jaime ao atravessarem aquele terreno revolvido. Alguém tinha escavado uma fossa sanitária no exato local onde ele ajoelhara um dia para proferir seus votos. Nunca sonhei que o doce podia amargar tão depressa. Aerys nem sequer me deixou saborear aquela noite. Honrou-me, e em seguida cuspiu em mim.
– Os estandartes – observou Brienne. – Homem esfolado e torres gêmeas, veja. Homens juramentados ao Rei Robb. Ali, por cima da guarita, cinza sobre fundo branco. Eles exibem o lobo gigante.
Jaime torceu a cabeça para cima, para dar uma olhada.
– É o seu maldito lobo, é verdade – reconheceu. – E aquilo são cabeças que estão ao seu lado.
Soldados, criados e seguidoras de acampamentos reuniram-se para gritar para eles. Uma cadela malhada seguiu-os, latindo e rosnando, pelo acampamento afora, até que um dos lisenos a empalou numa lança e galopou até a cabeça da coluna.
– Transporto o estandarte do Regicida – gritou, sacudindo a cadela morta por cima da cabeça de Jaime.
As muralhas de Harrenhal eram tão espessas que passar por baixo delas era como passar através de um túnel de pedra. Vargo Hoat enviara na frente dois de seus dothraki, a fim de avisar Lorde Bolton de sua chegada, então o pátio exterior estava cheio de curiosos. Afastavam-se para Jaime passar cambaleando, com a corda que trazia enrolada na cintura a puxá-lo sempre que desacelerava.
– Aprefento-lhef o Regifida – proclamou Vargo Hoat naquela sua voz densa e babosa. Uma lança golpeou a parte de baixo das costas de Jaime, fazendo-o estatelar-se.
O instinto levou-o a levantar as mãos para amparar a queda. Quando o coto colidiu com o chão, a dor o deixou cego, e Jaime ficou sem saber como conseguiu apoiar-se num joelho. À sua frente, um lance de largos degraus de pedra levava à entrada de uma das colossais torres redondas de Harrenhal. Cinco cavaleiros e um nortenho encontravam-se lá em cima, olhando-o; este de olhos claros e vestido de lã e peles, os cinco com um aspecto feroz, em armaduras e cotas de malha, ostentando o símbolo das torres gêmeas nos sobretudos.
– Um bando de Freys – declarou Jaime. – Sor Danwell, Sor Aenys, Sor Hosteen. – Conhecia os filhos de Lorde Walder de vista; afinal de contas, a tia casara-se com um deles. – Aceitem as minhas condolências.
– Por quê, sor? – perguntou Sor Danwell Frey.
– Pelo filho de seu irmão, Sor Cleos – disse Jaime. – Acompanhou-nos até que os fora da lei o encheram de flechas. Urswyck e os homens dele tiraram suas coisas e deixaram-no para os lobos.
– Senhores! – Brienne libertou-se e avançou. – Vi seus estandartes. Escutem-me em nome de seus juramentos!
– Quem fala? – quis saber Sor Aenys Frey.
– A ama de leite do Lanifter.
– Sou Brienne de Tarth, filha de Lorde Selwyn, a Estrela da Tarde, e sob juramento para com a Casa Stark, assim como vocês.
Sor Aenys cuspiu aos pés dela.
– Isso é para os seus votos. Confiamos na palavra de Robb Stark, e ele pagou nosssa fidelidade com traição.
Ora, aqui temos algo interessante. Jaime torceu-se para ver como Brienne receberia a acusação, mas a garota era obstinada como uma mula com o freio nos dentes.
– Não sei de traição alguma. – Sacudiu, irritada, as cordas que envolviam seus pulsos. – A Senhora Catelyn ordenou-me que entregasse o Lannister ao irmão, em Porto Real...
– Ela estava tentando afogá-lo quando os encontramos – disse Urswyck, o Fiel.
A moça corou.
– Na ira, descontrolei-me, mas nunca o teria matado. Se ele morrer, os Lannister passarão na espada as filhas de minha senhora.
Sor Aenys não pareceu tocado.
– Por que é que devemos nos importar com isso?
– Peçamos um resgate por ele a Correrrio – sugeriu Sor Danwell.
– Rochedo Casterly tem mais ouro – retrucou um dos irmãos.
– Matemo-lo! – disse outro. – A cabeça dele pela de Ned Stark!
Shagwell, o Bobo, com seu traje de losangos cinza e rosa, deu uma cambalhota para os degraus mais baixos e começou a cantar.
– Houve um dia um leão que c’um urso dançou, o-oh, o-oh...
– Filênfio, bobo. – Vargo Hoat deu-lhe uma bofetada. – O Regifida não é para o urfo. Ele é meu.
– Se morrer, não é de ninguém. – Roose Bolton falava tão baixo que os homens se silenciavam para ouvi-lo. – E peço-lhe que recorde, senhor, que não é senhor de Harrenhal até que eu marche para o norte.