A febre tornara Jaime tão destemido quanto tolo.
– Poderá ser este o senhor do Forte do Pavor? Segundo as últimas notícias que tive, meu pai tinha posto o senhor para correr com o rabo entre as pernas. Quando foi que parou de fugir, senhor?
O silêncio de Bolton era cem vezes mais ameaçador do que a malevolência babosa de Vargo Hoat. Claros como a névoa da manhã, seus olhos escondiam mais do que revelavam. Jaime não gostou daqueles olhos. Faziam-lhe lembrar do dia, em Porto Real, em que Ned Stark o encontrara sentado no Trono de Ferro. O senhor do Forte do Pavor finalmente enrugou os lábios e disse:
– Perdeu uma mão.
– Não – disse Jaime –, ela está aqui, pendurada no pescoço.
Roose Bolton estendeu uma mão para baixo, rompeu o cordão e atirou a mão a Hoat.
– Leve isto daqui. Esta coisa ofende minha vista.
– Vou mandá-la ao fenhor feu pai. Vou difer-lhe que tem de pagar fem mil dragõef, fenão devolvemof-lhe o Regifida pedafo por pedafo. E quando refebermof o ouro dele, mandamof o For Jaime ao Karftark e arranjamof também uma donfela! – um rugido de gargalhadas ergueu-se entre os Bravos Companheiros.
– Um belo plano – disse Roose Bolton, com o mesmo tom com que poderia ter dito “Um belo vinho” a um companheiro de jantar –, embora Lorde Karstark não possa lhe dar a filha dele. Rei Robb deixou-o uma cabeça menor, por traição e assassinato. Quanto ao Lorde Tywin, ele continua em Porto Real, e lá ficará até o ano novo, quando o neto recebe como esposa uma filha de Jardim de Cima.
– Winterfell – disse Brienne. – Quer dizer Winterfell. Rei Joffrey está prometido a Sansa Stark.
– Já não está mais. A Batalha da Água Negra mudou tudo. A rosa e o leão uniram-se lá, para desbaratar a tropa de Stannis Baratheon e reduzir sua frota a cinzas.
Eu avisei, Urswyck, pensou Jaime, e a você também, bode. Quando apostaram contra os leões, perderam mais do que a sua bolsa.
– Há notícias de minha irmã? – perguntou.
– Ela está bem. Assim como o seu... sobrinho. – Bolton fez uma pausa antes de dizer sobrinho, uma pausa que significava eu sei. – Seu irmão também está vivo, embora tenha sido ferido na batalha. – Fez um sinal para um severo nortenho vestido com uma brigantina tachonada. – Leve Sor Jaime a Qyburn. E desamarre as mãos desta mulher. – Quando a corda entre os pulsos de Brienne foi cortada em duas, disse: – Peço as suas desculpas, senhora. Em tempos conturbados assim, é difícil distinguir os amigos dos inimigos.
Brienne esfregou a parte de dentro do pulso, onde o cânhamo esfolara sua pele.
– Senhor, estes homens tentaram me estuprar.
– Ah, é? – Lorde Bolton virou os olhos claros para Vargo Hoat. – Estou descontente. Por isso, e por esse assunto da mão de Sor Jaime.
No pátio havia cinco nortenhos e outros tantos Frey para cada Bravo Companheiro. O bode podia não ser tão inteligente como alguns, mas pelo menos sabia contar até cinco. Manteve-se em silêncio.
– Eles ficaram com a minha espada – disse Brienne –, a minha armadura...
– Não precisará de armadura aqui, senhora – disse-lhe Lorde Bolton. – Em Harrenhal, está sob a minha proteção. Amabel, arranje quartos adequados para a Senhora Brienne. Walton, você vai cuidar imediatamente de Sor Jaime. – Não esperou resposta, virou-se e subiu os degraus, fazendo o manto debruado de peles rodopiar. Jaime teve apenas tempo suficiente para trocar um rápido olhar com Brienne antes de serem levados dali, cada um para seu lado.
Nos aposentos do meistre, por baixo da colônia de corvos, um homem grisalho de ar paternal chamado Qyburn prendeu a respiração quando retirou o linho do toco da mão de Jaime.
– Está assim tão ruim? Vou morrer?
Qyburn enfiou um dedo no ferimento, e torceu o nariz com o jorro de pus.
– Não. Se bem que mais alguns dias... – Cortou a manga de Jaime. – A putrefação espalhou-se. Vê como a carne está mole? Tenho de cortar isto tudo. A coisa mais certa a fazer seria cortar o braço inteiro.
– Se fizer isso, quem morre é você – prometeu Jaime. – Limpe o coto e dê os pontos. Eu corro os meus riscos.
Qyburn franziu a testa.
– Posso deixar o braço superior, cortar pelo cotovelo, mas...
– Se me cortar algum pedaço do braço é melhor que corte o outro também, senão estrangulo-o com ele mais tarde.
Qyburn olhou-o nos olhos. O que quer que tenha visto neles fez com que refletisse cuidadosamente.
– Muito bem. Vou cortar a carne apodrecida, nada mais. Tentarei afastar a putrefação com vinho fervente e um cataplasma de urtigas, sementes de mostarda e bolor de pão. Isso talvez seja suficiente. É sobre a sua cabeça que pesa. Vai querer leite de papoula...
– Não. – Jaime não se atrevia a deixar que o adormecessem; podia ter um braço a menos quando acordasse, não importa o que o homem dissesse.
Qyburn ficou surpreso.
– Vai doer.
– Gritarei.
– Doer muito.
– Gritarei muito alto.
– Vai beber algum vinho, ao menos?
– O Alto Septão reza?
– Quanto a isso, não tenho certeza. Trarei o vinho. Deite-se, que tenho de amarrar seu braço.
Com uma bacia e uma lâmina afiada, Qyburn limpou o coto enquanto Jaime emborcava vinho-forte, babando-se todo enquanto ingeria. A mão esquerda não parecia saber como encontrar sua boca, mas havia uma vantagem nisso. O cheiro de vinho na barba encharcada ajudava a disfarçar o fedor do pus.
Nada ajudou quando chegou o momento de desbastar a carne apodrecida. Jaime gritou e esmurrou a mesa com o punho bom, uma vez e mais outra. Voltou a gritar quando Qyburn despejou vinho fervendo sobre o que restava do coto. Apesar de todas as suas promessas e de todos os seus temores, perdeu os sentidos durante algum tempo. Quando acordou, o meistre estava costurando seu braço com uma agulha e tripa de gato.
– Deixei uma dobra de pele para tapar o pulso.
– Você já fez isso antes – murmurou Jaime numa voz fraca. Sentia o gosto do sangue na boca, onde havia mordido a língua.
– Cotos não são estranhos a nenhum homem que sirva com Vargo Hoat. Ele cria cotos onde quer que vá.
Jaime pensou que Qyburn não parecia um monstro. Era gentil, falava suavemente e tinha uns olhos castanhos calorosos.
– Como é que um meistre acaba na companhia dos Bravos Companheiros?
– A Cidadela tirou a corrente de mim. – Qyburn pôs a agulha de lado. – Também devia fazer alguma coisa com essa ferida acima do olho. A carne está muito inflamada.
Jaime fechou os olhos e deixou que o vinho e Qyburn fizessem seu trabalho.
– Fale-me da batalha. – Na qualidade de cuidador dos corvos de Harrenhal, Qyburn teria sido o primeiro a saber das novidades.
– Lorde Stannis foi pego entre o seu pai e o fogo. Dizem que o Duende incendiou o rio.
Jaime imaginou chamas verdes subindo ao céu, mais altas do que as torres mais altas, enquanto homens em chamas gritavam nas ruas. Já tinha sonhado esse sonho. Era quase engraçado, mas não havia ninguém com quem dividir a piada.
– Abra o olho. – Qyburn ensopou um pano em água morna e limpou com pequenas pancadas a crosta de sangue seco. A pálpebra estava inchada, mas Jaime descobriu que conseguia forçá-la a abrir até a metade. O rosto de Qyburn erguia-se por cima dele. – Como foi que arranjou esta? – perguntou o meistre.
– Presente de uma garota.
– Namoro violento, senhor?
– Essa garota é maior do que eu e mais feia do que você. Também devia tratar dela. Ainda manca da perna que eu feri quando lutamos.
– Perguntarei por ela. O que essa mulher é de você?
– A minha protetora. – Jaime teve de rir, por mais que doesse.
– Vou triturar umas ervas que poderá misturar com o vinho para baixar sua febre. Volte amanhã, e colocarei uma sanguessuga na sua pálpebra para drenar o sangue ruim.
– Uma sanguessuga. Lindo.
– Lorde Bolton gosta muito de sanguessugas – disse Qyburn com um ar afetado.