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– Sim – disse Jaime. – Deve gostar.

Tyrion

Nada restava para lá do Portão do Rei além de lama, cinzas e pedaços de osso queimado, mas já havia pessoas vivendo à sombra das muralhas da cidade, e outras vendendo peixe em cima de carrinhos de mão e barris. Tyrion sentiu os olhos deles postos em si quando passou; olhos frios, zangados e sem compaixão. Ninguém se atrevia a falar com ele, ou a tentar barrar seu caminho; pelo menos enquanto tivesse Bronn ao seu lado, vestindo cota de malha negra oleada. Mas se estivesse sozinho, arrancariam-me do cavalo e esmagariam minha cara com uma pedra da calçada, como fizeram com Preston Greenfield.

– Voltam mais depressa do que ratazanas – queixou-se. – Queimamos tudo que tinham uma vez, era de esperar que pudessem ver nisso uma lição.

– Dê-me umas dúzias de mantos dourados, e mato todos – disse Bronn. – Depois de mortos, não voltam.

– Não, mas vêm outros para o lugar deles. Deixe-os estar... mas se começarem outra vez a encostar barracas na muralha, derrube-as imediatamente. A guerra ainda não acabou, não importa o que esses idiotas pensem. – Olhou o Portão da Lama, mais adiante. – Já vi o suficiente por ora. Voltamos amanhã com os mestres da guilda, para rever seus planos. – Suspirou. Bem, queimei a maior parte disso, suponho que seja apenas justo que o reconstrua.

Essa tarefa devia ter sido do tio, mas o sólido, firme e incansável Sor Kevan Lannister não era o mesmo desde que o corvo chegara de Correrrio com a notícia do assassinato do filho. O gêmeo de Willem, Martyn, também fora capturado por Robb Stark, e o irmão mais velho de ambos, Lancel, continuava preso ao leito, atormentado por uma ferida ulcerada que não queria cicatrizar. Com um filho morto e outros dois em perigo mortal, Sor Kevan andava consumido pelo pesar e pelo medo. Lorde Tywin sempre dependera do irmão, mas agora não tinha opção exceto virar-se de novo para o filho anão.

O custo da reconstrução ia ser a ruína, mas não havia alternativa. Porto Real era o principal porto do reino, equiparado apenas por Vilavelha. O rio tinha de ser reaberto, e quanto mais depressa melhor. E onde vou encontrar o maldito dinheiro? Isso era quase suficiente para levá-lo a sentir falta do Mindinho, que tinha zarpado para o norte havia uma quinzena. Enquanto ele dorme com Lysa Arryn e governa o Vale ao seu lado, eu tenho de limpar a confusão que deixou para trás. Se bem que, pelo menos, o pai estava dando um trabalho significativo para ele fazer. Não quer me nomear herdeiro de Rochedo Casterly, mas me usa sempre que pode, pensou Tyrion, enquanto o capitão dos homens de manto dourado lhes fazia sinal para atravessarem o Portão da Lama.

As Três Rameiras ainda dominavam a praça do mercado junto ao portão, mas agora encontravam-se ociosas, e os pedregulhos e barris de piche tinham sido guardados. Havia crianças escalando as grandes estruturas de madeira, subindo como macacos vestidos de tecido grosseiro, para irem se empoleirar nos braços lançadores e gritar uns aos outros.

– Lembre-me de dizer a Sor Addam para colocar aqui alguns de seus homens – disse Tyrion a Bronn enquanto avançavam entre dois dos trabucos. – Um garoto imbecil qualquer é capaz de cair e quebrar a espinha. – Ouviu-se um grito vindo de cima, e um torrão de estrume explodiu no chão, meio metro à frente deles. A égua de Tyrion empinou-se e quase o derrubou. – Pensando bem – disse, depois de controlar o cavalo –, que os fedelhos piolhentos se esmaguem nas pedras como melões passados.

Estava de péssimo humor, e não era só porque um punhado de garotos de rua queriam cobri-lo de bosta. O casamento era uma agonia diária. Sansa Stark mantinha-se donzela, e metade do castelo parecia saber disso. Enquanto selavam os cavalos naquela manhã, ouviu atrás de si dois cavalariços aos risinhos abafados. Quase tinha imaginado que os cavalos também soltavam gargalhadinhas. Arriscara a pele para evitar o ritual nupcial, na esperança de preservar a privacidade de seu quarto, mas essa esperança tinha sido desfeita bem depressa. Ou Sansa fora suficientemente burra para fazer confidências a uma de suas aias, todas elas espiãs de Cersei, ou os responsáveis eram Varys e seus passarinhos.

Que diferença fazia? Riam dele do mesmo jeito. A única pessoa na Fortaleza Vermelha que não parecia achar seu casamento uma fonte de divertimento era a senhora sua esposa.

A infelicidade de Sansa aprofundava-se a cada dia. Tyrion teria de bom grado aberto caminho através de sua cortesia para lhe dar o conforto que pudesse, mas não servia de nada. Nenhuma palavra conseguiria algum dia torná-lo belo aos olhos dela. Ou menos Lannister. Era aquela a esposa que lhe tinham dado, pelo resto de sua vida, e odiava isso.

E as noites que passavam juntos na grande cama eram outra fonte de tormento. Já não conseguia suportar dormir nu, como era seu costume. A esposa estava bem treinada demais para soltar uma palavra pouco amável, mas a repugnância nos olhos dela sempre que olhava seu corpo era mais do que conseguia suportar. Tyrion ordenara a Sansa que também usasse uma camisa de dormir. Desejo-a, percebeu. Desejo Winterfell, sim, mas também desejo Sansa, seja criança, seja mulher, seja o que for. Quero confortá-la. Quero ouvi-la rir. Quero que venha até mim por vontade própria, que me traga as suas alegrias, as suas mágoas e o seu desejo. Sua boca torceu-se num sorriso amargo. Sim, e também quero ser alto como Jaime e forte como Sor Gregor, a Montanha, por todo o bem que isso traz.

Involuntariamente, seus pensamentos saltaram para Shae. Tyrion não queria que ela ouvisse a novidade de outros lábios que não os seus, então tinha ordenado a Varys que a trouxesse até ele na noite anterior ao casamento. Voltaram a se encontrar nos aposentos do eunuco, e quando Shae tinha começado a desatar os nós do seu gibão, ele pegou-a pelo pulso e a afastou.

– Espere – disse –, há uma coisa que tenho de lhe dizer. Amanhã deverei me casar...

– ... com Sansa Stark. Eu sei.

Tinha perdido a fala por um instante. A essa altura nem mesmo Sansa sabia.

– Como pode saber? Varys contou?

– Um pajem qualquer estava contando a história a Sor Tallad quando levei Lollys ao septo. Ouvira-a de uma criada que ouviu Sor Kevan falar com seu pai. – Desembaraçou-se das mãos de Tyrion e despiu o vestido pela cabeça. Como sempre, por baixo estava nua. – Não me importa. Ela é só uma garotinha. Vai deixá-la com uma barrigona e voltar para mim.

Uma parte dele tinha esperado menos indiferença. Tinha esperado, escarneceu amargamente, mas agora sabe como é, anão. Shae é todo o amor que provavelmente terá.

A Rua da Lama estava cheia de gente, mas tanto os soldados como os habitantes da cidade abriam caminho para deixar passar o Duende e sua escolta. Crianças de olhos encovados fervilhavam pelo chão, algumas olhando para cima num apelo silencioso, enquanto outras mendigavam ruidosamente. Tyrion tirou um grande punhado de moedas de cobre de sua bolsa e atirou-as ao ar, e as crianças desataram a correr atrás delas, aos empurrões e aos gritos. As mais afortunadas talvez conseguissem comprar uma fatia de pão bolorento naquela noite. Nunca vira mercados tão cheios de gente, e apesar de toda a comida que os Tyrell vinham trazendo, os preços mantinham-se absurdamente elevados. Seis cobres por um melão, um veado de prata por oito galões de milho, um dragão por um quarto de vaca ou seis leitões magricelas. E, apesar disso, não parecia faltar compradores. Homens doentiamente descarnados e mulheres de aspecto desvairado aglomeravam-se em volta de todas as carroças e bancadas, enquanto pessoas ainda mais esfarrapadas as olhavam, mal-humoradas, das vielas.

– Por aqui – disse Bronn quando chegaram ao princípio do Gancho. – Ainda quer...?