– Muito bem, senhor. – Symon podia ter deixado as coisas assim, mas, transbordante de triunfo, acrescentou: – Eu vou cantar na noite da boda do Rei Joffrey. Se por acaso for chamado à corte, ora, vou querer oferecer ao rei as minhas melhores composições, canções que cantei mil vezes e que certamente agradarão. Mas se der por mim cantando em alguma triste taberna... bem, essa seria uma ocasião adequada para experimentar a minha nova canção. Porque mãos de ouro são sempre frias, mas há calor em mãos de mulher.
– Isso não será necessário – disse Tyrion. – Tem a minha palavra de Lannister de que Bronn o visitará em breve.
– Muito bem, senhor. – O cantor barrigudo e perdendo cabelos voltou a pegar a harpa.
Bronn esperava junto dos cavalos, na entrada da viela. Ajudou Tyrion a subir para a sela.
– Quando é que levo o homem para Valdocaso?
– Não leva. – Tyrion virou o cavalo. – Dê-lhe três dias, e depois informe-o de que Hamish, o Harpista, quebrou o braço. Diga-lhe que suas roupas nunca servirão para a corte, e que tem de imediatamente arranjar um traje novo. Ele virá com você a toda velocidade. – Fez uma careta. – Pode querer ficar com a língua dele, ouvi dizer que é de prata. O resto dele nunca deverá ser encontrado.
Bronn deu um sorriso.
– Conheço uma casa de pasto na Baixada das Pulgas que faz uma saborosa panela de castanho. Ouvi dizer que tem todos os tipos de carne.
– Certifique-se de que eu nunca coma lá. – Tyrion pôs o cavalo a trote. Gostaria de um banho, e quanto mais quente melhor.
Mas até esse modesto prazer lhe foi negado, pois assim que voltou aos seus aposentos, Podrick Payne informou-o de que tinha sido convocado à Torre da Mão.
– Sua senhoria deseja vê-lo. A Mão. Lorde Tywin.
– Eu me lembro de quem é Mão, Pod – disse Tyrion. – Perdi o nariz, não os miolos.
Bronn soltou uma gargalhada.
– Não arranque a cabeça do rapaz a dentadas.
– E por que não? Ele nunca a usa. – Tyrion perguntava a si mesmo o que teria feito agora. Ou o que não fiz, mais provavelmente. Uma convocatória de Lorde Tywin trazia sempre preocupação; o pai nunca mandava buscá-lo só para dividir uma refeição ou uma taça de vinho, isso era certo.
Quando entrou no aposento privado do pai, alguns momentos mais tarde, ouviu uma voz dizendo:
– ... cerejeira para as bainhas, ligadas com couro vermelho e ornamentadas com uma fileira de tachões em forma de cabeça de leão e de ouro puro. Talvez com granadas para os olhos...
– Rubis – disse Lorde Tywin. – Às granadas falta o fogo.
Tyrion pigarreou.
– Senhor. Mandou me chamar?
O pai olhou para cima.
– Chamei. Venha aqui ver isso. – Uma trouxa de oleado encontrava-se sobre a mesa, entre eles, e Lorde Tywin tinha uma espada longa na mão. – Um presente de casamento para Joffrey – disse a Tyrion. A luz que entrava pelas vidraças em forma de diamante fazia a lâmina tremeluzir de negro e vermelho quando Lorde Tywin a virou para inspecionar o gume, enquanto o botão e a guarda flamejavam de ouro. – Com este falatório besta a respeito de Stannis e sua espada mágica, pareceu-me melhor que déssemos também a Joffrey algo de extraordinário. Um rei deve usar uma espada régia.
– Isso é espada demais para Joff – disse Tyrion.
– Ele ainda vai crescer. Tome, sinta o peso. – Ofereceu-lhe a arma, pelo cabo.
A espada era muito mais leve do que esperava. Ao virá-la na mão, compreendeu o porquê. Só um metal podia ter se tornado tão fino e manter força suficiente para a batalha, e não era possível confundir aquelas ondulações, os sinais de um aço que havia sido dobrado sobre si próprio muitos milhares de vezes.
– Aço valiriano?
– Sim – disse Lorde Tywin num tom de profunda satisfação.
Finalmente, pai? Lâminas de aço valiriano eram raras e caras, mas ainda havia milhares no mundo, talvez duzentas só nos Sete Reinos. Sempre aborrecera o pai que nenhuma pertencesse à Casa Lannister. Os antigos reis do Rochedo tinham possuído uma arma dessas, mas a espada longa Brilhante Rugido perdeu-se quando o segundo Rei Tommen a levou de volta a Valíria em sua estúpida demanda. Nunca havia regressado; e o tio Gery também não, o mais novo e mais imprudente dos irmãos do pai, que partira em busca da espada perdida cerca de oito anos antes.
Lorde Tywin oferecera-se pelo menos três vezes para comprar espadas valirianas de casas menores e empobrecidas, mas suas propostas foram sempre firmemente rejeitadas. Os fidalgotes separavam-se de bom grado de suas filhas, se um Lannister viesse pedi-las, mas estimavam as velhas espadas de família.
Tyrion perguntou a si mesmo de onde teria vindo o metal para aquela. Alguns mestres armeiros podiam voltar a trabalhar aço valiriano, mas os segredos de sua manufatura tinham sido perdidos quando a Perdição chegou à antiga Valíria.
– As cores são estranhas – comentou enquanto virava a lâmina à luz do sol. A maior parte do aço valiriano era de um cinza tão escuro que parecia quase negro, como era o caso daquela espada. Mas misturado nas dobras encontrava-se um vermelho tão profundo quanto o cinza. As duas cores enrolavam-se uma sobre a outra, sem chegarem a se tocar, com cada ondulação distinta, como ondas de noite e sangue em algum litoral de aço. – Como obteve este padrão? Nunca vi nada parecido.
– Nem eu, senhor – disse o armeiro. – Confesso que estas cores não eram o que eu pretendia, e não sei se sou capaz de duplicá-las. O senhor seu pai pediu-me o carmesim de sua Casa, e foi essa a cor que tentei infundir no metal. Mas o aço valiriano é obstinado. Estas velhas espadas têm memória, dizem, e não mudam facilmente. Usei meia centena de feitiços e clareei o vermelho algumas vezes, mas a cor escurecia sempre, como se a lâmina estivesse bebendo o sol dela. E algumas dobras não quiseram aceitar o vermelho de jeito nenhum, como pode ver. Se os senhores de Lannister estiverem insatisfeitos, voltarei, naturalmente, a tentar, tantas vezes quanto desejarem, mas...
– Não é necessário – disse Lorde Tywin. – Isto servirá.
– Uma espada carmesim pode brilhar agradavelmente ao sol, mas a bem da verdade gosto mais destas cores – disse Tyrion. – Têm uma beleza ameaçadora... e tornam esta lâmina única. Não há outra espada como ela no mundo inteiro, creio eu.
– Há uma. – O armeiro debruçou-se sobre a mesa e desenrolou a trouxa de oleado, revelando uma segunda espada longa.
Tyrion pousou a espada de Joffrey e pegou a outra. Ainda que não fossem irmãs gêmeas, as duas eram certamente primas próximas. Esta era mais grossa e mais pesada, pouco mais de um centímetro mais larga e sete centímetros mais longa, mas partilhavam as mesmas linhas belas e limpas e a mesma cor única, as ondulações de sangue e noite. Três sulcos, profundamente incisos, corriam na segunda lâmina, do cabo à ponta; a espada do rei tinha apenas dois. O cabo da arma de Joff era bastante mais ornamentado, os braços da guarda esculpidos em forma de patas de leão com garras de rubi projetadas, mas ambas as espadas tinham punhos de couro vermelho finamente trabalhado e cabeças de leão em ouro como botões.
– Magnífico. – Mesmo em mãos tão inábeis como as de Tyrion, a lâmina parecia viva. – Nunca senti melhor balanço.
– Destina-se ao meu filho.
Não vale a pena perguntar qual deles. Tyrion colocou a espada de Jaime de volta na mesa, ao lado da de Joffrey, perguntando a si mesmo se Robb Stark deixaria o irmão viver tempo suficiente para empunhá-la. Nosso pai certamente deve pensar que sim; caso contrário, para que mandar forjar esta lâmina?
– Fez um bom trabalho, Mestre Mott – disse Lorde Tywin ao armeiro. – Meu intendente tratará do seu pagamento. E lembre-se: rubis para as bainhas.
– Lembrarei, senhor. É muito generoso. – O homem voltou a enrolar as espadas no oleado, enfiou a trouxa debaixo de um braço e ajoelhou-se. – É uma honra servir a Mão do Rei. Entregarei as espadas um dia antes do casamento.