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Encaixou uma flecha e puxou a corda, todo ele suave como seda de verão, e então deixou-a voar. A flecha atingiu o alvo dois centímetros e meio mais perto do centro do que a de Donnel Hill.

– É suficiente, moço? – disse, dando um passo para trás.

– É mais do que suficiente – disse o homem mais novo, de má vontade. – O vento cruzado ajudou você. Soprava com mais força quando eu disparei.

– Nesse caso, devia tê-lo considerado. Tem um bom olho e uma mão firme, mas vai precisar de bem mais do que isso para ganhar de um homem da mata de rei. Quem me ensinou a dobrar o arco foi o Fletcher Dick, e nunca existiu melhor arqueiro. Já lhe contei a história do Fletcher Dick?

– Só trezentas vezes. – Todos os homens de Castelo Negro tinham ouvido as histórias de Ulmer sobre o grande bando de fora da lei de outros tempos; sobre Simon Toyne e o Cavaleiro Sorridente, sobre Oswyn Pescoço-Comprido, o Três Vezes Enforcado, sobre Wenda, o Corço Branco, sobre Fletcher Dick, sobre o Bem Barrigudo e todos os outros. Em busca de uma escapatória, o Doce Donnell olhou em volta e viu Sam no meio da lama. – Matador – chamou. – Venha, mostre-nos como matou o Outro. – E estendeu o grande arco de teixo.

Sam corou.

– Não foi com uma flecha, foi com um punhal, vidro de dragão... – Sabia o que aconteceria se pegasse o arco. Erraria o alvo e enviaria a flecha por cima do dique até as árvores. E então ouviria os risos.

– Não importa – disse Alan de Rosby, outro bom arqueiro. – Estamos todos com vontade de ver o Matador disparar o arco. Não estamos, rapazes?

Não conseguia encará-los; os sorrisos de escárnio, as pequenas brincadeiras maldosas, o desprezo em seus olhos. Sam virou-se para ir embora por onde tinha vindo, mas o pé direito afundou-se profundamente na lama, e quando tentou puxá-lo, a bota saiu. Teve de ajoelhar para soltá-la, com as gargalhadas ressoando em seus ouvidos. Apesar de todas as meias que tinha calçadas, quando conseguiu fugir, a neve que derretia já as tinha empapado até os dedos do pé. Imprestável, pensou, infeliz. Meu pai conhecia-me bem. Não tenho o direito de estar vivo quando tantos homens corajosos morreram.

Grenn estava cuidando da fogueira ao sul do portão do complexo, como dorso nu enquanto rachava a madeira. Tinha o rosto vermelho do esforço e o suor evaporava-se da sua pele em nuvenzinhas de vapor. Mas sorriu quando Sam se aproximou, bufando.

– Os Outros ficaram com a sua bota, Matador?

Ele também?

– Foi a lama. Não me chame disso, por favor.

– Por que não? – Grenn parecia honestamente surpreso. – É um bom nome, e arranjou-o com justiça.

Pyp costumava provocar Grenn por ter a cabeça dura como a muralha de um castelo, portanto Sam explicou pacientemente.

– É só uma maneira diferente de me chamarem de covarde – disse, apoiado na perna esquerda e esforçando-se para enfiar o pé direito novamente na bota lamacenta. – Estão caçoando de mim, da mesma maneira que caçoam do Bedwyck quando o chamam de Gigante.

– Mas ele não é um gigante – disse Grenn – e o Paul nunca foi pequeno. Bem, talvez fosse quando era bebê de peito, mas depois disso não. Mas você matou mesmo o Outro, portanto não é a mesma coisa.

– Eu só... eu nunca... eu estava assustado!

– Não mais do que eu. É só o Pyp que diz que eu sou burro demais para me assustar. Fico tão assustado quanto qualquer um. – Grenn dobrou-se para apanhar uma tora partida e atirou-a na fogueira. – Costumava ter medo do Jon, sempre que tinha de lutar com ele. Ele era muito rápido e lutava como se quisesse me matar. – A madeira verde e úmida caiu nas chamas, fumegando antes de pegar fogo. – Mas nunca contei. Às vezes acho que todo mundo anda só fingindo ter coragem, e nenhum de nós a temos de verdade. Vai ver é fingindo que arranjamos coragem, não sei. Deixe que chamem você de Matador, e daí?

– Nunca gostou que Sor Alliser o chamasse de Auroque.

– Ele estava dizendo que eu sou grande e estúpido. – Grenn coçou a barba. – Mas se o Pyp quisesse me chamar de Auroque, poderia. Ou você, ou o Jon. Um auroque é um animal feroz e forte, por isso não é assim tão ruim, e eu sou grande, e estou ficando maior. Você não gostaria mais de ser Sam, o Matador, do que o Sor Porquinho?

– Por que não posso ser só o Samwell Tarly? – sentou-se pesadamente em uma tora úmida que Grenn ainda não tinha cortado. – Foi o vidro de dragão que o matou. Não fui eu, foi o vidro de dragão.

Sam tinha contado a eles, tinha contado a todos. Sabia que alguns não acreditavam nele. O Adaga havia mostrado a Sam a sua adaga e dito:

– Tenho ferro, pra que quero vidro? – Bernarr Negro e os três Garths deixaram claro que duvidavam de toda a história, e Rolley de Vilirmãs chegou a ponto de dizer:

– O mais certo é que tenha apunhalado uns arbustos que se mexiam e tenha descoberto depois que era o Paul Pequeno dando uma cagada, por isso inventou uma mentira.

Mas Dywen tinha escutado, assim como Edd Doloroso, e obrigaram Sam e Grenn a contar ao Senhor Comandante. Mormont passou toda a história com a testa franzida e colocou questões contundentes, mas era um homem cauteloso demais para rejeitar qualquer possibilidade de obter proveito. Pediu a Sam todo o vidro de dragão que trazia na mochila, embora fosse bem pouco. Sempre que Sam pensava no tesouro que Jon encontrara enterrado sob o Punho sentia vontade de chorar. Havia lâminas de punhal e pontas de lança, e pelo menos duzentas ou trezentas pontas de flecha. Jon tinha feito punhais para si, para Sam e para o Senhor Comandante Mormont, e deu a Sam uma ponta de lança, um velho chifre quebrado e algumas pontas de flecha. Grenn também ficou com um punhado de pontas de flecha, mas era tudo.

Portanto, tudo que tinham agora era o punhal de Mormont e aquele que Sam dera a Grenn, mais dezenove flechas e uma grande lança de madeira dura, com uma ponta negra de vidro de dragão. As sentinelas entregavam a lança umas às outras quando o turno mudava, e Mormont tinha distribuído as flechas entre seus melhores arqueiros. Bill Resmungão, Garth Pena-Cinza, Ronnel Harcley, Doce Donnel Hill e Alan de Rosby tinham três cada um, e Ulmer quatro. Mas mesmo se acertassem todos os disparos, logo ficariam reduzidos a flechas incendiárias, como todos os outros. Tinham disparado centenas de flechas incendiárias no Punho, mas as criaturas continuaram a vir.

Não será suficiente, pensou Sam. As paliçadas inclinadas de lama e neve em derretimento de Craster pouco segurariam o passo das criaturas, que tinham escalado as encostas muito mais íngremes do Punho e saltado em grande número a muralha anelar. E em vez de trezentos homens alinhados em fileiras organizadas, as criaturas encontrariam quarenta e um sobreviventes esfarrapados para combatê-las, nove dos quais feridos demais para lutar. Quarenta e quatro tinham entrado aos tropeções no reduto de Craster, dos sessenta e tantos que conseguiram fugir do Punho, mas três morreram em decorrência dos ferimentos, e Bannen em breve seria o quarto.

– Acha que as criaturas foram embora? – perguntou Sam a Grenn. – Por que é que não vêm acabar conosco?

– Elas só vêm quando está frio.

– Sim – disse Sam –, mas é o frio que traz as criaturas, ou são as criaturas que trazem o frio?

– Que importa? – o machado de Grenn fez voar lascas de madeira. – Vêm juntos, e é isso que interessa. E agora que a gente sabe que o vidro de dragão as mata, talvez nem sequer venham. Talvez agora tenham medo de nós!

Sam quis poder acreditar naquilo, mas parecia-lhe que quando se estava morto, o medo não tinha mais significado do que a dor, o amor ou o dever. Envolveu as pernas com os braços, suando sob as camadas de lã, couro e peles que o cobriam. O punhal de pedra de dragão tinha derretido a coisa pálida na floresta, é verdade... mas Grenn estava falando como se ele fizesse o mesmo às criaturas. Não sabemos se é assim, pensou. Na verdade, não sabemos nada. Gostaria que Jon estivesse aqui. Sam gostava de Grenn, mas não podia falar com ele da mesma forma. Eu sei que Jon não me chamaria de Matador. E poderia conversar com ele a respeito do bebê de Goiva. Mas Jon partira com Qhorin Meia-Mão, e não tinham recebido notícias dele desde então. Ele também tinha um punhal de vidro de dragão, mas terá pensado em usá-lo? Estará morto e deitado congelado em algum desfiladeiro... ou, pior, estará morto e caminhando?