Não conseguia entender por que motivo os deuses quereriam levar Jon e Bannen e deixá-lo aqui, covarde e desajeitado como era. Devia ter morrido no Punho, onde se mijara três vezes e além disso perdera a espada. E teria morrido na floresta, se o Paul Pequeno não tivesse vindo carregá-lo. Gostaria que tudo isso fosse um sonho. Então poderia acordar. Como seria bom acordar no Punho dos Primeiros Homens com todos os irmãos ainda ao seu redor, até mesmo Jon e o Fantasma. Ou, melhor ainda, acordar em Castelo Negro, atrás da Muralha, e ir até a sala comum para comer uma tigela do espesso mingau de trigo do Hobb Três-Dedos, com uma grande colherada de manteiga derretendo no meio e um bocado de mel. Só de pensar nisso, seu estômago vazio ressoou.
“Neve.”
Sam olhou para cima ao ouvir o som. O corvo do Senhor Comandante Mormont circundava a fogueira, batendo o ar com grandes asas negras.
“Neve”, crocitou a ave. “Neve, neve.”
Onde quer que o corvo fosse, Mormont surgiria pouco depois. O Senhor Comandante emergiu de entre as árvores, montado em seu garrano, entre o velho Dywen e o patrulheiro com cara de raposa chamado Ronnel Harclay, que tinha sido promovido ao lugar de Thoren Smallwood. Os lanceiros ao portão gritaram um desafio, e o Velho Urso respondeu com um resmungo de impaciência:
– Quem, nos sete infernos, vocês acham que vem lá? Os Outros levaram seus olhos? – passou a cavalo entre os postes do portão, um dos quais exibia um crânio de carneiro e o outro um de urso, e em seguida puxou as rédeas ao animal, ergueu um punho e assobiou. O corvo desceu ao seu chamado.
– Senhor – ouviu Ronnel Harclay dizer –, temos só vinte e duas montarias, e duvido que metade delas chegue à Muralha.
– Eu sei – resmungou Mormont. – Mas temos de ir mesmo assim. Craster deixou isso claro. – Lançou um relance de olhos para oeste, onde um grupo de nuvens escuras escondia o sol. – Os deuses deram-nos uma folga, mas durante quanto tempo? – Mormont saltou da sela, sobressaltando o corvo, que voltou a levantar voo. Então viu Sam e berrou: – Tarly!
– Eu? – Sam pôs-se desajeitadamente em pé.
“Eu?” O corvo pousou na cabeça do velho. “Eu?”
– Seu nome é Tarly? Tem algum irmão nas redondezas? Sim, você. Feche a boca e venha comigo.
– Com o senhor? – as palavras jorraram num guincho.
O Senhor Comandante Mormont fulminou-o com o olhar.
– É um homem da Patrulha da Noite. Tente não sujar a roupa de baixo sempre que olho para você. Venha, disse eu. – As botas de Mormont faziam sons úmidos na lama e Sam teve de se apressar para acompanhá-lo. – Tenho pensado nesse seu vidro de dragão.
– Não é meu – disse Sam.
– Está bem, no vidro de dragão de Jon Snow. Se punhais de vidro de dragão são aquilo de que necessitamos, por que é que só temos dois? Cada homem na Muralha devia ser armado com um no dia em que profere suas palavras.
– Não sabíamos...
– Não sabíamos! Mas um dia devemos ter sabido. A Patrulha da Noite esqueceu a sua verdadeira função, Tarly. Não se constrói uma muralha com duzentos metros de altura para evitar que selvagens vestidos de peles raptem mulheres. A Muralha foi feita para defender os reinos dos homens... e não contra outros homens, que é o que os selvagens são, se olharmos bem as coisas. Demasiados anos, Tarly, demasiadas centenas e milhares de anos. Perdemos de vista o verdadeiro inimigo. E agora ele está aqui, mas não sabemos como lutar contra ele. O vidro de dragão é feito por dragões, como o povo gosta de dizer?
– Os m... meistres pensam que não – gaguejou Sam. – Os meistres dizem que vem dos fogos da terra. Chamam de obsidiana.
Mormont fungou.
– Podiam chamar de torta de limão, que eu não me importaria. Se mata como você diz, quero mais.
Sam tropeçou.
– O Jon encontrou mais, no Punho. Centenas de pontas de flecha, e também pontas de lança...
– Você já tinha dito. De pouco nos vale aqui. Para chegarmos de novo ao Punho teríamos de estar armados com as armas que não teremos até chegarmos ao maldito Punho. E ainda temos de lidar com os selvagens. Precisamos encontrar vidro de dragão em outro lugar qualquer.
Sam quase tinha se esquecido dos selvagens, com tudo que acontecera nos últimos tempos.
– Os filhos da floresta usavam lâminas de vidro de dragão – disse. – Deviam saber onde encontrar obsidiana.
– Os filhos da floresta estão todos mortos – disse Mormont. – Os Primeiros Homens mataram metade deles com lâminas de bronze, e os Ândalos concluíram o serviço com ferro. Por que um punhal de vidro deveria ...
O Velho Urso interrompeu-se quando Craster surgiu de entre as abas de pele de veado de sua porta. O selvagem sorria, revelando uma boca cheia de dentes marrons e estragados.
– Tenho um filho.
“Filho”, crocitou o corvo de Mormont. “Filho, filho, filho.”
O rosto do Senhor Comandante ficou rígido.
– Fico contente por você.
– Ah, fica? Quanto a mim, ficarei contente quando você e seus homens forem embora. Já é mais que tempo, tô achando.
– Assim que nossos feridos estejam suficientemente fortes...
– Eles estão tão fortes quanto poderiam ficar, velho corvo, e ambos sabemos disso. Quanto àqueles que tão morrendo, e também sabe quem são, corte suas malditas goelas e acabe com o problema. Ou então deixe-os, se não tiver estômago, e eu tratarei deles.
O Senhor Comandante Mormont irritou-se.
– Thoren Smallwood dizia que era amigo da Patrulha...
– Sim – disse Craster. – Dei-lhes tudo aquilo que podia dispensar, mas o Inverno vem aí, e agora a garota me empatou com mais uma boca chorona para sustentar.
– Podíamos levá-lo – guinchou alguém.
A cabeça de Craster virou-se. Seus olhos estreitaram-se. Cuspiu aos pés de Sam.
– O que foi que disse, Matador?
Sam abriu e fechou a boca.
– Eu... eu... eu só quis dizer... se não o quisesse... a sua boca para sustentar... com o Inverno vindo aí, nós... nós podíamos levá-lo, e...
– O meu filho. O meu sangue. Acha que iria dá-lo a corvos?
– Só pensei... – Você não tem filhos, você os abandona, foi o que Goiva disse, você os deixa na floresta, é por isso que só tem esposas, e filhas que crescem para se transformarem em esposas.
– Cale-se, Sam – disse o Senhor Comandante. – Já disse o bastante. Mais do que o suficiente. Vá para dentro.
– S-senhor...
– Vá para dentro!
Corado, Sam atravessou as peles de veado, voltando à escuridão do salão. Mormont seguiu-o.
– Que espécie de idiota você é? – disse o velho lá dentro, com a voz estrangulada e zangada. – Mesmo se Craster nos desse a criança, estaria morta antes de chegarmos à Muralha. Precisamos tanto de um recém-nascido para cuidar como de mais neve. Tem leite para lhe dar nessas suas grandes tetas? Ou pensava em levar também a mãe?
– Ela quer vir – disse Sam. – Suplicou-me...
Mormont ergueu uma mão.
– Não ouvirei nem mais uma palavra sobre isso, Tarly. Foi-lhe dito e redito para se manter bem longe das esposas de Craster.