Выбрать главу

– Stannis não era mais amigo do que Lorde Tywin.

– Você não compreende. Jardim de Cima declarou apoio a Joffrey. Dorne também. Todo o sul. – Apertou os lábios. – E você acha adequado libertar o Regicida. Não tinha o direito.

– Tinha o direito de uma mãe. – A voz dela estava calma, embora a notícia sobre Jardim de Cima constituísse um fortíssimo golpe nas esperanças de Robb. Mas agora não podia pensar nisso.

– Não tinha o direito – repetiu Edmure. – Ele era prisioneiro de Robb, prisioneiro de seu rei, e Robb encarregou-me de mantê-lo a salvo.

– Brienne vai mantê-lo a salvo. Jurou-o pela espada dela.

– Aquela mulher?

– Ela entregará Jaime a Porto Real, e vai nos trazer Arya e Sansa em segurança.

– Cersei nunca abrirá mão delas.

– Cersei, não. Tyrion. Ele jurou fazê-lo, numa audiência aberta. E o Regicida também jurou.

– A palavra de Jaime não vale nada. E quanto ao Duende, dizem que levou uma machadada na cabeça durante a batalha. Estará morto antes de sua Brienne chegar a Porto Real, se é que ela vai chegar.

– Morto? – poderiam os deuses ser assim tão impiedosos? Tinha obrigado Jaime a prestar uma centena de juramentos, mas era à promessa do irmão dele que havia prendido suas esperanças.

Edmure mostrou-se cego para sua aflição.

– Jaime estava a meu cargo, e pretendo tê-lo de volta. Enviei corvos...

– Corvos a quem? Quantos?

– Três – disse ele –, para garantir que a mensagem chegue ao Lorde Bolton. Por rio ou por estrada, o caminho de Correrrio a Porto Real vai levá-los a passar perto de Harrenhal.

– Harrenhal. – A própria palavra parecia escurecer a sala. O horror tornou a sua voz pesada quando disse: – Edmure, você sabe o que fez?

– Não tenha medo, omiti seu papel. Escrevi que Jaime fugiu, e ofereci mil dragões por sua recaptura.

Pior e pior, pensou Catelyn, desesperada. Meu irmão é um tolo. Sem serem convidadas, indesejadas lágrimas encheram seus olhos.

– Se isso fosse uma fuga – disse ela em voz baixa –, e não uma troca de reféns, por que os Lannister entregariam as minhas filhas a Brienne?

– Nunca chegará a esse ponto. O Regicida vai ser devolvido a nós, assegurei-me disso.

– Tudo de que se assegurou foi que eu não volte a ver minhas filhas. Brienne podia tê-lo levado em segurança até Porto Real... desde que ninguém os perseguisse. Mas agora... – Catelyn não conseguiu continuar. – Deixe-me, Edmure. – Não tinha qualquer direito de lhe dar ordens, ali no castelo que em breve seria do irmão, mas o tom que empregou não admitia discussões. – Deixe-me com o pai e a minha dor, não tenho mais nada a dizer a você. Vá. . – Tudo que desejava era deitar, fechar os olhos e dormir, e rezar para que nenhum sonho viesse.

Arya

O céu estava tão negro quanto as muralhas de Harrenhal atrás deles, e a chuva caía suave e constante, abafando o som dos cascos dos cavalos e escorrendo por seus rostos.

Avançaram para o norte, para longe do lago, seguindo uma estrada rural cheia de sulcos, através de campos destroçados e atravessando bosques e riachos. Arya tomou a dianteira, incitando o cavalo roubado a um imprudente trote rápido até as árvores se fecharem à sua volta. Torta Quente e Gendry seguiram-na o melhor que conseguiram. Lobos uivavam a distância, e ela conseguia ouvir a respiração pesada de Torta Quente. Ninguém falou. De tempos em tempos, Arya lançava um olhar, de relance, por sobre o ombro, para se certificar de que os dois rapazes não tinham ficado muito para trás, e para ver se eram perseguidos.

Sabia que o seriam. Tinha roubado três cavalos dos estábulos e um punhal e um mapa do próprio aposento privado de Roose Bolton, e matado um guarda na poterna, rasgando sua garganta quando ele se ajoelhou para pegar a gasta moeda de ferro que Jaqen H’ghar lhe dera. Alguém iria encontrá-lo jazendo morto numa poça do próprio sangue, e então soaria o alarme. Acordariam Lorde Bolton, e vasculhariam Harrenhal das ameias às adegas, e quando o fizessem, descobririam o desaparecimento do mapa e do punhal, além de algumas espadas do arsenal, pão e queijo da cozinha, um ajudante de padeiro, um aprendiz de ferreiro e uma copeira chamada Nan... ou Doninha, ou Arry, dependendo de quem respondesse.

O Senhor do Forte do Pavor não viria atrás deles pessoalmente. Roose Bolton ficaria na cama, com a pele pálida salpicada de sanguessugas, dando ordens com sua voz sussurrante. Seu subordinado Walton, aquele que chamavam de Pernas de Aço devido às grevas que sempre usava nas longas pernas, poderia comandar a perseguição. Ou talvez fosse o babento Vargo Hoat e seus mercenários, que se chamavam de Bravos Companheiros. Os outros chamavam-nos de Saltimbancos Sangrentos (embora nunca na frente deles) e, às vezes, de Homens dos Pés, devido ao hábito que Lorde Vargo tinha de cortar as mãos e os pés dos homens que lhe desagradavam.

Se nos pegarem, vão cortar nossas mãos e nossos pés, pensou Arya, e depois Roose Bolton vai nos esfolar. Ainda vestia o traje de pajem, e no peito, sobre o coração, tinha cosido o símbolo de Lorde Bolton, o homem esfolado do Forte do Pavor.

Toda vez que olhava para trás quase esperava ver um clarão de archotes reluzindo pelos distantes portões de Harrenhal, ou correndo ao longo do topo das enormes muralhas do castelo, mas nada se via. Harrenhal continuou dormindo, até se perder na escuridão e ficar escondido atrás das árvores.

Quando cruzaram o primeiro riacho, Arya virou o cavalo para o lado e levou-os para fora da estrada, seguindo o sinuoso curso de água ao longo de um quarto de milha até, por fim, subir uma margem pedregosa. Esperava que, se os perseguidores trouxessem cães, isso talvez os fizesse perder o rastro. Não podiam ficar na estrada. Há morte na estrada, disse a si mesma, em todas as estradas.

Gendry e Torta Quente não questionaram sua escolha. Afinal de contas, ela tinha o mapa, e Torta Quente parecia quase tão aterrorizado por ela quanto pelos homens que podiam vir atrás deles. Ele vira o guarda que ela matara. É melhor que tenha medo de mim, disse a si mesma. Assim vai fazer o que eu disser, e não alguma coisa estúpida.

Sabia que devia estar mais assustada do que estava. Tinha só dez anos, uma garotinha magricela num cavalo roubado com uma floresta escura à sua frente e atrás dela homens que, de bom grado, cortariam seus pés. Mas, sem saber por quê, sentia-se mais calma do que jamais se sentira em Harrenhal. A chuva tinha lavado de seus dedos o sangue do guarda, trazia uma espada a tiracolo, havia lobos percorrendo as trevas como esguias sombras cinzentas, e Arya Stark não tinha medo. O medo corta mais profundamente do que as espadas, sussurrou bem baixinho as palavras que Syrio Forel havia lhe ensinado, e também as palavras de Jaqen, valar morghulis.

A chuva parou, recomeçou e voltou a parar e a recomeçar, mas tinham bons mantos para deixar a água afastada. Arya manteve-os em movimento a um ritmo lento e regular. Estava escuro demais sob as árvores para avançar mais depressa; os rapazes não eram cavaleiros, nenhum dos dois, e o terreno fofo e acidentado era traiçoeiro, cheio de raízes semienterradas e pedras escondidas. Atravessaram outra estrada, cujos profundos sulcos estavam cheios de água, mas Arya evitou-a. Levou-os para cima e para baixo ao longo das colinas arredondadas, através de arbustos, espinheiros e emaranhados de vegetação rasteira, pelo fundo de barrancos estreitos, onde galhos pesados de folhas úmidas estapeavam seus rostos quando passavam.