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– Disse que me ajudaria – lembrou-lhe Goiva.

– Eu disse que Jon a ajudaria. Jon é corajoso, e um bom guerreiro, mas acho que deve estar morto. Eu sou um covarde. E gordo. Olhe só como sou gordo. Além disso, Lorde Mormont está ferido. Não vê? Não poderia abandonar o Senhor Comandante.

– Filho – disse a outra velha –, esse velho corvo foi embora na sua frente. Olhe.

A cabeça de Mormont continuava no seu colo, mas os olhos estavam abertos e fixos e os lábios já não se moviam. O corvo inclinou a cabeça e crocitou, e depois olhou para cima, para Sam. “Grão?

– Não há grão. Ele não tem grão. – Sam fechou os olhos do Velho Urso e tentou pensar numa prece, mas tudo que lhe veio à cabeça foi: – Mãe, tenha piedade. Mãe, tenha piedade. Mãe, tenha piedade.

– Sua mãe não pode ajudar em nada – disse a velha da esquerda. – Esse velho morto também não. Pegue sua espada e leve aquele grande manto quente de peles dele e leve o cavalo dele se conseguir encontrá-lo. E vá embora.

– A garota não mente – disse a velha da direita. – Ela é minha filha, e arranquei a mentira dela na marra há um bom tempo. Disse que a ajudaria. Faça o que a Ferny diz, rapaz. Leva a garota e depressa.

Depressa”, disse o corvo. “Depressa depressa depressa.”

– Para onde? – perguntou Sam, confuso. – Para onde devo levá-la?

– Para algum lugar quente – disseram as duas velhas em uníssono.

Goiva estava chorando.

– Eu e o bebê. Por favor. Serei sua mulher como fui de Craster. Por favor, sor corvo. Ele é um menino, exatamente como Nella disse que seria. Se não o levar, eles levam.

– Eles? – disse Sam, e o corvo ergueu a cabeça negra e repetiu, num eco: “Eles. Eles. Eles.

– Os irmãos do garoto – disse a velha da esquerda. – Os filhos de Craster. O frio branco está se erguendo lá fora, corvo. Sinto nos meus ossos. Estes pobres ossos velhos não mentem. Eles estarão aqui em breve, os filhos.

Arya

Seus olhos tinham se acostumado ao negrume. Quando Harwin puxou o capuz da cabeça dela, o clarão avermelhado dentro do monte oco fez Arya piscar como uma coruja estúpida.

Uma enorme cova para fogueiras tinha sido escavada no centro do chão de terra, e as chamas que ali ardiam subiam rodopiando e crepitando para o teto manchado de fumaça. As paredes eram de pedra e terra em partes iguais, com enormes raízes brancas que se retorciam por elas como se fossem um milhar de lentas serpentes pálidas. Enquanto observava, pessoas emergiram de entre essas raízes; saindo das sombras para lançar um olhar sobre os cativos, aparecendo nas aberturas de túneis negros como breu, saltando de fendas e frestas por todos os lados. Num ponto, do outro lado da fogueira, as raízes formavam uma espécie de escadaria que levava a um vão na terra onde um homem se encontrava sentado, quase perdido no emaranhado do represeiro.

Limo tirou o capuz de Gendry.

– Que lugar é este? – perguntou o Touro.

– É um lugar antigo, profundo e secreto. Um refúgio onde nem lobos nem leões vêm zanzar.

Nem lobos nem leões. Arya ficou arrepiada. Lembrou-se do sonho que tivera, e do sabor de sangue de quando tinha arrancado do ombro o braço do homem.

Embora a fogueira fosse grande, a gruta era maior; tornando difícil dizer onde começava e onde terminava. As aberturas de túneis podiam ter meio metro de profundidade ou prolongar-se por três quilômetros. Arya viu homens, mulheres e crianças, todos a observá-la cautelosamente.

Barba-Verde disse:

– Aqui está o feiticeiro, esquilo magricela. Agora vai ter as suas respostas. – Apontou para a fogueira, onde Tom Sete-Cordas conversava com um homem alto e magro com peças desencontradas de velhas armaduras afiveladas por cima de uma maltrapilha veste cor-de-rosa. Este não pode ser Thoros de Myr. Nas lembranças que Arya guardava, o sacerdote vermelho era um homem gordo de rosto liso e uma brilhante cabeça calva. Aquele homem tinha uma cara seca e a cabeça repleta de cabelos grisalhos armados. Algo que Tom disse fez com que ele a olhasse, e Arya pensou que o homem estivesse prestes a ir até ela. Mas então surgiu o Caçador Louco, empurrando seu cativo para a luz, e ela e Gendry foram esquecidos.

O Caçador revelou-se um homem atarracado, vestido de couro remendado castanho-amarelado, com os cabelos a rarear e um queixo recuado, além de briguento. No Septo de Pedra, ela achara que Limo e Barba-Verde ficariam em pedaços quando o enfrentaram ao pé das gaiolas para corvos, para reclamar o seu prisioneiro em nome do senhor do relâmpago. Os cães tinham-nos rodeado, farejando e rosnando. Mas Tom das Sete acalmou-os com sua música, Tanásia atravessou a praça com o avental cheio de ossos e carneiro gordo, e Limo apontou para Anguy, à janela do bordel, em pé com uma flecha preparada. O Caçador Louco amaldiçoou-os todos, chamando-os de lambe-botas, mas acabou concordando em levar o homem que tinha capturado ao Lorde Beric para ser julgado.

Tinham amarrado os pulsos dele com corda de cânhamo, posto um laço em volta do pescoço e enfiado um saco na cabeça, mesmo assim o homem era perigoso. Arya podia senti-lo pairando na gruta. Thoros – se é que aquele era Thoros – foi encontrar captor e cativo a meio caminho da fogueira.

– Como foi que o capturou? – perguntou o sacerdote.

– Os cães apanharam o cheiro. Estava se recuperando de uma bebedeira debaixo de um salgueiro, por incrível que pareça.

– Traído por sua própria espécie. – Thoros virou-se para o prisioneiro e arrancou seu capuz. – Bem-vindo ao nosso humilde salão, cão. Não é tão grandioso quanto a sala de trono de Robert, mas a companhia é melhor.

As chamas oscilantes pintaram o rosto queimado de Sandor Clegane com sombras cor de laranja, deixando-o com um aspecto ainda mais terrível do que à luz do dia. Quando puxou a corda que lhe atava os pulsos, lascas de sangue seco caíram no chão. A boca do Cão de Caça torceu-se.

– Conheço você – disse ele a Thoros.

– Conheceu. Em lutas corpo a corpo costumava amaldiçoar a minha espada flamejante, embora por três vezes eu o tenha derrotado com ela.

– Thoros de Myr. Costumava raspar a cabeça.

– Para denotar um coração humilde, embora na realidade meu coração fosse vaidoso. Além disso, perdi a navalha na floresta. – O sacerdote deu um tapinha na barriga. – Sou menos do que era, mas sou mais. Um ano no meio da natureza derrete a carne do corpo de um homem. Bem que gostaria de encontrar um alfaiate que me apertasse a pele. Poderia voltar a parecer jovem, e belas donzelas iriam me banhar com beijos.

– Só as cegas, sacerdote.

Os fora da lei riram, nenhum tão alto quanto Thoros.

– Exatamente. Mas não sou o falso sacerdote que conhecia. O Senhor da Luz despertou no meu coração. Muitos poderes há muito adormecidos estão despertando, e há forças em movimento sobre a terra. Vi-as nas minhas chamas.

Cão de Caça não se mostrou impressionado.

– Que se fodam as suas chamas. E que se foda você também. – Passou o olhar pelos outros. – Anda em estranha companhia para um homem santo.

– Estes são meus irmãos – disse Thoros simplesmente.

Limo Manto Limão abriu caminho entre os outros. Ele e Barba-Verde eram os únicos homens com altura suficiente para olhar Cão de Caça nos olhos.

– Tenha cuidado com a maneira como late, cão. Temos a sua vida nas mãos.

– Então é melhor que você limpe a merda dos dedos. – Cão de Caça soltou uma gargalhada. – Há quanto tempo estão escondidos neste buraco?

Anguy, o Arqueiro, irritou-se com a sugestão de covardia.

– Pergunte ao bode se temos estado escondidos, Cão de Caça. Pergunte ao seu irmão. Pergunte ao senhor das sanguessugas. Tiramos sangue de todos eles.

– Vocês? Não me façam rir. Parecem mais guardadores de porcos do que soldados.