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– Alguns de nós éramos guardadores de porcos – disse um homem baixo que Arya não conhecia. – E alguns éramos curtidores, cantores ou pedreiros. Mas isso foi antes de vir a guerra.

– Quando partimos de Porto Real, éramos homens de Winterfell, homens de Darry e homens de Portonegro, homens dos Mallery e homens dos Wylde. Éramos cavaleiros, escudeiros e homens de armas, senhores e plebeus, unidos apenas pelo nosso objetivo. – A voz vinha do homem sentado entre as raízes de represeiro a meia altura da parede. – Seis vintenas de nós partiram para levar a justiça do rei ao seu irmão. – O orador vinha descendo o emaranhado de degraus em direção ao chão. – Seis vintenas de homens bravos e leais, liderados por um tolo com um manto estrelado. – Um homem que mais parecia um espantalho, ele usava um manto negro em farrapos salpicado de estrelas e uma placa de peito de ferro amassada por uma centena de batalhas. Um matagal de pelos ruivo-alourados escondia a maior parte de seu rosto, exceto numa zona calva por cima de sua orelha esquerda, onde um golpe havia aberto uma concavidade na cabeça. – Mais de oitenta membros da nossa companhia estão agora mortos, mas outros pegaram as espadas que caíram de suas mãos. – Quando chegou ao chão, os fora da lei afastaram-se para deixá-lo passar. Arya viu que ele tinha perdido um dos olhos, e a pele em volta da órbita estava pregueada e cheia de cicatrizes, e ostentava um anel negro em volta do pescoço. – Com a ajuda deles, continuamos a lutar o melhor que podemos, por Robert e pelo reino.

– Robert? – arranhou Sandor Clegane, incrédulo.

– Ned Stark enviou-nos – disse Jack Sortudo com seu elmo redondo –, mas ele estava sentado no Trono de Ferro quando nos deu as ordens, portanto nunca fomos realmente homens dele, e sim de Robert.

– Robert agora é o rei dos vermes. É por isso que estão debaixo da terra, para serem a sua corte?

– O rei está morto – admitiu o cavaleiro-espantalho –, mas continuamos a ser homens do rei, embora o estandarte real que trazíamos tenha sido perdido no Vau do Saltimbanco quando os carniceiros de seu irmão caíram sobre nós. – Tocou o peito com um punho. – Robert foi morto, mas sua terra perdura. E nós a defendemos.

– Defendem-na? – Cão de Caça resfolegou. – Ela é a sua mãe, Dondarrion? Ou a sua puta?

Dondarrion? Beric Dondarrion tinha sido belo; Jeyne, a amiga de Sansa, apaixonara-se por ele. Nem mesmo Jeyne Poole era tão cega para achar aquele homem bonito. Mas quando Arya voltou a olhar para ele, viu os restos de um relâmpago bifurcado de cor púrpura, no esmalte rachado de sua placa de peito.

– Sua terra é feita de pedras, árvores e rios – Cão de Caça estava dizendo. – As pedras precisam de quem as defenda? Robert acharia que não. Qualquer coisa que não pudesse foder, combater ou beber aborrecia-o, assim como vocês, os... bravos companheiros.

O ultraje varreu o monte oco.

– Volte a nos chamar por esse nome, cão, e engolirá a língua. – Limo puxou a espada.

Cão de Caça fitou a arma com desprezo.

– Ora, aqui está um homem corajoso, mostrando aço a um prisioneiro amarrado. Por que é que não me desata? Veremos então como anda essa coragem. – Lançou um olhar ao Caçador Louco que se encontrava atrás dele. – E você? Ou será que deixou toda a sua coragem nos canis?

– Não, mas devia tê-lo deixado numa gaiola para corvos. – Caçador puxou uma faca. – E ainda posso fazer isso.

Cão de Caça riu na cara dele.

– Aqui somos irmãos – declarou Thoros de Myr. – Irmãos sagrados juramentados ao reino, ao nosso deus e uns aos outros.

– A irmandade sem estandartes. – Tom Sete-Cordas fez soar uma corda. – Os cavaleiros do monte oco.

Cavaleiros? – Clegane transformou a palavra em chacota. – Dondarrion é um cavaleiro, mas o resto de vocês é o mais lamentável bando de fora da lei e homens quebrados que eu já vi. Cago homens melhores do que vocês.

– Qualquer cavaleiro pode armar cavaleiros – disse o espantalho que era Beric Dondarrion – e todos os homens que vê na sua frente sentiram uma espada no ombro. Somos a companhia esquecida.

– Mande-me embora e também os esqueço – rouquejou Clegane. – Mas se pretende me assassinar, então trate disso de uma vez. Roubou minha espada, meu cavalo e meu ouro, portanto roube minha vida e acabou-se... mas poupe-me desses balidos devotados.

– Morrerá em breve, cão – prometeu Thoros –, mas não será assassinato, e sim justiça.

– Sim – disse o Caçador Louco –, e um destino mais bondoso do que merece por tudo aquilo que a sua laia tem feito. Leões, vocês chamam a si mesmos. Em Sherrer e no Vau do Saltimbanco foram estupradas meninas de seis e sete anos, e bebês de peito foram cortados em dois enquanto as mães eram obrigadas a ver. Nenhum leão jamais matou tão cruelmente.

– Não estive em Sherrer nem no Vau do Saltimbanco – disse-lhe Cão de Caça. – Deposite suas crianças mortas em outra porta qualquer.

Foi Thoros quem respondeu.

– Nega que a Casa Clegane foi construída sobre os ossos de crianças mortas? Vi-os depositando o Príncipe Aegon e a Princesa Rhaenys perante o Trono de Ferro. O certo seria suas armas terem dois bebês ensanguentados em vez daqueles cães feios.

A boca de Cão de Caça retorceu-se.

– Toma-me por meu irmão? Agora é crime nascer Clegane?

– O assassinato é um crime.

– Quem foi que eu assassinei?

– Lorde Lothar Mallery e Sor Gladden Wylde – disse Harwin.

– Meus irmãos Lister e Lennocks – declarou Jack Sortudo.

– O pai de família Beck e Mudge, o filho do moleiro, de Bosque de Donnel – gritou uma velha das sombras.

– A viúva de Merriman, que amava tão bem – acrescentou Barba-Verde.

– Aqueles septões no Charco Lamacento.

– Sor Andrey Charlton. O seu escudeiro, Lucas Roote. Todos os homens, mulheres e crianças em Campopedra e no Moinho do Rato.

– O Senhor e a Senhora Deddings, que eram tão ricos.

Tom Sete-Cordas começou a enumerar.

– Alyn de Winterfell, Joth Arco-Ligeiro, Matt Pequeno e a irmã, Randa, Anvil Ryn. Sor Ormond. Sor Dudley. Pate de Mory, Pate de Bosquelança, Velho Pate e Pate de Bosque de Shermer. Wyl Cego, o entalhador. Patroa Maerie. Maerie, a Prostituta. Becca Padeira. Sor Raymun Darry, Lorde Darry, o jovem Lorde Darry. Bastardo de Bracken. Fletcher Will. Harsley. Patroa Nolla...

Basta. – O rosto de Cão de Caça estava comprimido de fúria. – Está fazendo barulho. Esses nomes não significam nada. Quem eram eles?

– Pessoas – disse Lorde Beric. – Pessoas grandes e pequenas, jovens e velhas. Pessoas boas e pessoas más, que morreram na ponta de lanças Lannister ou viram a barriga aberta por espadas Lannister.

– Não era a minha espada na barriga deles. Quem disser isso é um mentiroso.

– Serve aos Lannister de Rochedo Casterly – disse Thoros.

– Servi, antigamente. Eu e mais milhares. Será cada um de nós culpado pelos crimes dos outros? – Clegane escarrou. – Pode ser que sejam cavaleiros, afinal. Mentem como cavaleiros, pode ser que assassinem como cavaleiros.

Limo e Jack Sortudo começaram a gritar com ele, mas Dondarrion levantou uma mão para pedir silêncio.

– Conte-nos o que quer dizer com isso, Clegane.

– Um cavaleiro é uma espada com um cavalo. O resto, os votos e os óleos sagrados e os favores das senhoras, são fitas de seda atadas em volta da espada. A espada talvez seja mais bonita com fitas penduradas nela, mas mata igualmente bem sem elas. Bem, que se fodam as suas fitas, e que enfiem as suas espadas no cu. Eu sou igual a vocês. A única diferença é que não minto a respeito do que sou. Portanto matem-me, mas não me chamem de assassino enquanto ficam aí dizendo uns aos outros que a sua merda não fede. Estão me ouvindo?

Arya espremeu-se tão depressa para a frente de Barba-Verde que ele nem a viu.