– Você é um assassino! – gritou. – Matou o Mycah, e não diga que não matou. Assassinou-o!
Cão de Caça fitou-a sem sequer um lampejo de reconhecimento.
– E quem era esse Mycah, menino?
– Não sou um menino! Mas o Mycah era. Era filho de um açougueiro e você o matou. Jory disse que você quase o cortou ao meio, e ele sequer tinha uma espada. – Agora, conseguia sentir os olhos deles sobre si, as mulheres, as crianças e os homens que se denominavam cavaleiros do monte oco.
– Quem é essa agora? – perguntou alguém.
Cão de Caça respondeu.
– Sete infernos. A irmã mais nova. A fedelha que atirou a linda espada de Joffrey ao rio. – Soltou um latido de riso. – Não sabe que está morta?
– Não, você é que está morto – disparou ela de volta.
Harwin pegou o braço de Arya e puxou-a para trás enquanto Lorde Beric dizia:
– A garota chamou-o de assassino. Nega ter matado esse filho de açougueiro, Mycah?
O grandalhão encolheu os ombros.
– Eu era defensor juramentado de Joffrey. O filho do açougueiro atacou um príncipe de sangue.
– Isso é uma mentira! – Arya sacudiu-se entre as mãos de Harwin. – Fui eu. Eu é que bati no Joffrey e joguei o dente de leão no rio. Mycah só fugiu, como eu lhe disse para fazer.
– Viu o rapaz atacar o Príncipe Joffrey? – perguntou Lorde Beric Dondarrion ao Cão de Caça.
– Ouvi a história dos lábios reais. Não me cabe questionar príncipes. – Clegane sacudiu as mãos na direção de Arya. – A própria irmã desta contou a mesma história diante de seu precioso Robert.
– A Sansa é só uma mentirosa – disse Arya, de novo furiosa com a irmã. – Não foi como ela disse. Não foi.
Thoros puxou Lorde Beric de lado. Os dois homens conversaram em murmúrios enquanto Arya fervia. Eles têm de matá-lo. Rezei para ele morrer, centenas e centenas de vezes.
Beric Dondarrion virou-se de novo para Cão de Caça.
– Foi acusado de assassinato, mas ninguém aqui conhece a verdade ou a falsidade da acusação, portanto não cabe a nós julgá-lo. Agora só o Senhor da Luz pode fazer isso. Condeno-o a ser julgado por batalha.
Cão de Caça franziu a testa, desconfiado, como se não acreditasse em seus próprios ouvidos.
– Você é tolo ou é louco?
– Nem uma coisa nem outra. Sou um senhor justo. Prove a sua inocência com uma arma, e ficará livre para partir.
– Não – gritou Arya, antes de Harwin cobrir sua boca. Não, eles não podem fazer isso, ele ficará livre. Cão de Caça era mortífero com uma espada, todos sabiam disso. Ele vai rir deles, pensou.
E foi o que ele fez, uma longa gargalhada áspera que ecoou nas paredes da caverna, uma gargalhada sufocada de desprezo.
– Então, quem vai ser? – olhou para o Limo Manto Limão. – O corajoso com o manto cor de mijo? Não? E que tal você, Caçador? Já chutou alguns cães, experimente comigo. – Viu Barba-Verde. – Você é suficientemente grande, Tyrosh, avance. Ou será que espera que seja a garotinha a lutar comigo? – Voltou a rir. – Venha, quem quer morrer?
– Serei eu quem você enfrentará – disse Lorde Beric Dondarrion.
Arya recordou todas as histórias. Ele não pode ser morto, pensou, esperando com um último fio de esperança. Caçador Louco cortou as cordas que prendiam as mãos de Sandor Clegane.
– Vou precisar de espada e armadura. – Cão de Caça esfregou um pulso ferido.
– Terá a sua espada – declarou Lorde Beric –, mas a armadura terá de ser a sua inocência.
A boca de Clegane torceu-se.
– Minha inocência contra a sua placa de peito, é assim que funciona?
– Ned, ajude-me a tirar a placa de peito.
Arya ficou arrepiada quando Lorde Beric disse o nome do pai, mas este Ned era só um garoto, um escudeiro de cabelos claros que não teria mais de dez ou doze anos. Aproximou-se rapidamente para abrir as fivelas que prendiam o aço amassado em volta do senhor da Marcha. O almofadado por baixo estava podre de velhice e suor, e caiu quando o metal foi desprendido. Gendry prendeu a respiração.
– Mãe, misericórdia.
As costelas de Lorde Beric delineavam-se vivamente por baixo de sua pele. Uma cratera enrugada marcava seu peito imediatamente acima do mamilo esquerdo, e quando se virou para pedir uma espada e um escudo, Arya viu uma cicatriz condizente em suas costas. A lança atravessou-o. Cão de Caça tinha visto também. Estará assustado? Arya queria-o assustado antes de morrer, tão assustado como Mycah deve ter se sentido.
Ned trouxe ao Lorde Beric o cinto da espada e um longo sobretudo negro. Destinava-se a ser usado sobre a armadura, e por isso envolvia seu corpo com folga, mas nele crepitava o relâmpago púrpura bifurcado da sua Casa. Desembainhou a espada e devolveu o cinto ao escudeiro.
Thoros trouxe ao Cão de Caça seu cinto da espada.
– Um cão tem honra? – perguntou o sacerdote. – Caso pense em tentar abrir caminho para a liberdade com a espada ou tomar alguma criança como refém... Anguy, Dennet, Kyle, encham-no de penas ao primeiro sinal de traição. – Só depois de os três arqueiros prepararem suas flechas é que Thoros entregou a Clegane o cinto.
Cão de Caça libertou a espada com um movimento brusco e jogou fora a bainha. Caçador Louco entregou-lhe seu escudo de carvalho, cheio de tachões de ferro e pintado de amarelo, exibindo os três cães negros de Clegane. O pequeno Ned ajudou Lorde Beric com seu escudo, tão desgastado e cheio de marcas de golpes que o relâmpago púrpura e as estrelas esparramadas tinham sido quase obliterados.
Mas quando Cão de Caça ameaçou se aproximar do adversário, Thoros de Myr impediu-o.
– Primeiro oramos. – Virou-se para o fogo e ergueu os braços. – Senhor da Luz, olhe para nós.
Por toda a gruta, a irmandade sem estandartes ergueu as vozes em resposta.
– Senhor da Luz, defenda-nos.
– Senhor da Luz, proteja-nos na escuridão.
– Senhor da Luz, brilhe sobre nós.
– Acenda a sua chama entre nós, R’hllor – disse o sacerdote vermelho. – Mostre-nos a verdade ou a falsidade deste homem. Abata-o se for culpado, e empreste força à sua espada se for inocente. Senhor da Luz, dê-nos sabedoria.
– Pois a noite é escura – entoaram os outros, com a voz de Harwin e a de Anguy soando mais altas que a dos demais – e cheia de terrores.
– Esta gruta também é escura – disse Cão de Caça –, mas aqui o terror sou eu. Espero que seu deus seja bom, Dondarrion. Vai encontrá-lo em breve.
Sem sorrir, Lorde Beric apoiou o gume da espada na palma da mão esquerda e puxou-a lentamente para baixo. O sangue correu, escuro, do golpe que ele fez, e espalhou-se pelo aço.
E então a espada incendiou-se.
Arya ouviu Gendry sussurrar uma prece.
– Que queime nos sete infernos – praguejou Cão de Caça. – Você e Thoros também. – Lançou um olhar de relance ao sacerdote vermelho. – Quando acabar com ele, você é o próximo, Myr.
– Cada palavra que pronuncia proclama a sua culpa, cão – respondeu Thoros, enquanto Limo, Barba-Verde e Jack Sortudo gritavam ameaças e pragas. O próprio Lorde Beric esperava em silêncio, calmo como águas paradas, com o escudo no braço esquerdo e a espada ardendo na mão direita. Mate-o, pensou Arya, por favor, tem de matá-lo. Iluminado de baixo, seu rosto era uma máscara de morte, o olho em falta, um ferimento vermelho e revolto. A espada estava em chamas da ponta ao copo, mas Dondarrion parecia não sentir o calor. Estava tão imóvel que podia ter sido esculpido em pedra.
Mas quando Cão de Caça avançou sobre ele, moveu-se bastante depressa.