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A espada flamejante saltou para parar a fria, com longas flâmulas de fogo a segui-la como as fitas de que Cão de Caça falara. Aço ressoou em aço. Assim que o seu primeiro golpe foi parado, Clegane lançou um segundo, mas daquela vez o escudo de Lorde Beric colocou-se no caminho da espada, e voaram lascas de madeira com a força da pancada. As estocadas vieram duras e rápidas, de baixo e de cima, da direita e da esquerda, e todas elas foram bloqueadas por Dondarrion. As chamas rodopiavam em volta de sua espada e deixavam para trás fantasmas vermelhos e amarelos marcando sua passagem. Cada movimento de Lorde Beric atiçava-as e fazia-as arder mais fortemente até parecer que o senhor do relâmpago se encontrava no interior de uma jaula de fogo.

– É fogovivo? – perguntou Arya a Gendry.

– Não. Isso é diferente. Isso é...

– ... magia? – concluiu ela no momento em que Cão de Caça recuava.

Agora era Lorde Beric que atacava, enchendo o ar com cordões de fogo, fazendo o homem maior apoiar-se nos calcanhares. Clegane parou um golpe elevado com o escudo, e um cão pintado perdeu uma cabeça. Contra-atacou, e Dondarrion interpôs o seu escudo e atirou um golpe incendiário para trás. A irmandade fora da lei incitava seu chefe aos gritos. “É seu!”, ouviu Arya, e “Vai nele! Vai nele! Vai nele!”. Cão de Caça parou um golpe dirigido à sua cabeça, fazendo uma careta quando o calor das chamas colidiu com seu rosto. Soltou um grunhido e uma praga e cambaleou para trás.

Lorde Beric não lhe deu descanso. Pressionou duramente o homem maior, sem parar um momento de movimentar o braço. As espadas colidiram, saltaram para longe e voltaram a colidir, voaram lascas do escudo do relâmpago enquanto chamas rodopiantes beijavam os cães uma, duas, três vezes. Cão de Caça moveu-se para a direita, mas Dondarrion bloqueou-o com um rápido passo para o lado e empurrou-o para o outro ... na direção do soturno clarão vermelho da fogueira. Clegane cedeu terreno até sentir o calor em suas costas. Um rápido relance de olhos sobre o ombro mostrou-lhe o que havia atrás de si, e quase lhe custou a cabeça quando Lorde Beric atacou novamente.

Arya viu o branco nos olhos de Sandor Clegane quando voltou a arremeter para a frente. Três passos adiante e dois para trás, um movimento para a esquerda que Lorde Beric bloqueou, mais dois passos para a frente e um para trás, clang e clang, e os grandes escudos de carvalho recebiam um golpe após outro, após outro. Os cabelos escuros e escorridos de Cão de Caça colavam-se à sua testa, num brilho de suor. Suor de vinho, pensou Arya, lembrando-se de que ele fora capturado bêbado. Julgou ver o início do medo despertando em seus olhos. Ele vai perder, disse a si mesma, exultante, enquanto a espada flamejante de Lorde Beric rodopiava e golpeava. Numa violenta saraivada, o senhor do relâmpago recuperou todo o terreno que Cão de Caça ganhara, voltando a deixar Clegane cambaleando à beira da fogueira. Ele vai morrer, vai, vai. Ficou nas pontas dos pés para ver melhor.

Maldito bastardo! – gritou Cão de Caça ao sentir o fogo lamber a parte de trás de suas coxas. Avançou, brandindo a pesada espada cada vez com mais violência, tentando esmagar o homem menor com força bruta, tentando quebrar lâmina, escudo ou braço. Mas as chamas das defesas de Dondarrion tentaram morder seus olhos, e quando Cão de Caça se afastou delas com uma sacudida, perdeu o apoio e caiu sobre um joelho. Lorde Beric aproximou-se de imediato, com um golpe para baixo que gritou pelo ar e foi seguido por flâmulas de fogo. Ofegando de exaustão, Clegane pôs o escudo por cima da cabeça bem a tempo, e a gruta ressoou com o sonoro crac do carvalho lascado.

– O escudo dele pegou fogo – disse Gendry numa voz abafada. Arya viu isso no mesmo instante. As chamas espalharam-se pela rachada tinta amarela, e os três cães negros foram engolidos.

Sandor Clegane tinha conseguido ficar em pé novamente com um contra-ataque temerário. Só depois de Lorde Beric ter recuado um passo é que Cão de Caça pareceu notar que o fogo que rugia tão perto de seu rosto era seu próprio escudo queimando. Com um grito de repugnância, golpeou violentamente o carvalho partido, completando sua destruição. O escudo estilhaçou-se, e uma parte voou, rodopiando, ainda em chamas, enquanto a outra se agarrava teimosamente ao antebraço de Clegane. Seus esforços para se libertar só conseguiram atiçar as chamas. A manga pegou fogo, e agora era todo o seu braço esquerdo que queimava.

Acabe com ele! – gritou Barba-Verde ao Lorde Beric, e outras vozes uniram-se num cântico de “Culpado!”. Arya gritou com os demais. “Culpado, culpado, mate-o, culpado!

Suave como seda de verão, Lorde Beric deslizou para perto, com o propósito de dar cabo do homem à sua frente. Cão de Caça soltou um grito áspero, levantou a espada com ambas as mãos e fez com que caísse com todas as suas forças. Lorde Beric bloqueou facilmente o golpe...

– Nããããããããããão – gritou Arya.

... mas a espada flamejante partiu-se em duas, e o aço frio do Cão de Caça lavrou a carne de Lorde Beric onde o ombro se juntava ao pescoço, e abriu um golpe limpo dali até o esterno. O sangue irrompeu num jorro quente e negro.

Sandor Clegane deu um salto para trás, ainda ardendo. Arrancou os restos do escudo e atirou-os para longe com uma praga, depois rolou na terra para abafar o fogo que corria por seu braço.

Os joelhos de Lorde Beric dobraram-se lentamente, como que para rezar. Quando sua boca se abriu, só sangue saiu dela. A espada de Cão de Caça ainda estava em seu corpo quando tombou para a frente. A terra bebeu seu sangue. Sob o monte oco não se ouviu um som além do suave crepitar das chamas e do ganido que Cão de Caça soltou quando tentou se levantar. Arya só conseguia pensar em Mycah e em todas as estúpidas preces que rezara para que Cão de Caça morresse. Se existem deuses, por que Lorde Beric não ganhou? Ela sabia que Cão de Caça era culpado.

– Por favor – rouquejou Sandor Clegane, agarrado ao braço. – Estou queimado. Ajudem-me. Alguém. Ajudem-me. – Estava chorando. – Por favor.

Arya olhou-o com espanto. Ele está chorando como um bebezinho, pensou.

– Melly, cuide dos ferimentos dele – disse Thoros. – Limo, Jack, ajudem-me com Lorde Beric. Ned, é melhor que venha também. – O sacerdote vermelho arrancou a espada de Cão de Caça do corpo caído de seu senhor e espetou-a na terra empapada de sangue. Limo deslizou suas grandes mãos sob os braços de Dondarrion, enquanto Jack Sortudo o pegava pelos pés. Levaram-no ao redor da fogueira, para a escuridão de um dos túneis. Thoros e o pequeno Ned seguiram-nos.

Caçador Louco cuspiu.

– Acho que devíamos levá-lo de volta para o Septo de Pedra e enfiá-lo numa gaiola para corvos.

– Sim – disse Arya. – Ele assassinou Mycah. Assassinou mesmo.

– Que esquilo mais zangado – murmurou Barba-Verde.

Harwin suspirou.

– R’hllor considerou-o inocente.

– Quem é o Rulore? – Arya nem conseguia pronunciar o nome.

– Senhor da Luz. Thoros ensinou-nos...

Arya não queria saber o que Thoros tinha ensinado a eles. Puxou o punhal de Barba-Verde de sua bainha e girou para longe antes de ele conseguir agarrá-la. Gendry também tentou apanhá-la, mas sempre tinha sido rápida demais para ele.

Tom Sete-Cordas e uma mulher qualquer estavam ajudando Cão de Caça a ficar em pé. O aspecto do braço dele chocou-a de tal modo que a deixou sem fala. Havia uma faixa cor-de-rosa no local onde a correia de couro estava presa, mas, por cima e por baixo, a pele encontrava-se rachada, vermelha e sangrando desde o cotovelo até o pulso. Quando seus olhos se encontraram com os dela, sua boca retorceu-se.