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– Quer tanto assim que eu morra? Então vá, menina-lobo. Enfie em mim. É mais limpo do que o fogo. – Clegane tentou ficar em pé, mas quando se moveu, um pedaço de carne queimada desprendeu-se de seu braço e os joelhos perderam a força. Tom segurou-o pelo braço bom e manteve-o em pé.

O braço dele, pensou Arya, e o rosto. Mas ele era o Cão de Caça. Merecia queimar num inferno ardente. Sentiu a faca pesada na mão. Apertou-a com mais força.

– Você matou Mycah – voltou a dizer, desafiando-o a negar. – Conte a eles. Matou. Matou.

– Matei. – Todo o seu rosto se torceu. – Persegui-o a cavalo, cortei-o ao meio e ri. Também os vi espancarem sua irmã até sair sangue, e vi-os cortar a cabeça de seu pai.

Limo agarrou o pulso de Arya e torceu-o, tirando o punhal dela. Ela chutou-o, mas ele não retrucou.

– Vá para o inferno, Cão de Caça – gritou para Sandor Clegane numa fúria impotente de mãos vazias. – Você vai para o inferno!

– Ele já foi – disse uma voz, pouco mais forte do que um murmúrio.

Quando Arya se virou, Lorde Beric Dondarrion estava em pé atrás dela, agarrando o ombro de Thoros com a mão ensanguentada.

Catelyn

Que os reis do Inverno fiquem com a sua cripta fria debaixo da terra, pensou Catelyn. Os Tully tiravam a sua força do rio, e era ao rio que retornavam depois de suas vidas terem cumprido seus percursos.

Deitaram Lorde Hoster num esguio barco de madeira, revestido por uma brilhante armadura de prata, com placa e cota de malha. O manto estava aberto por baixo dele, em ondas de azul e vermelho. O sobretudo também era azul e vermelho. Uma truta, com escamas de prata e bronze, coroava o grande elmo que colocaram ao lado de sua cabeça. Sobre o peito, pousaram uma espada de madeira pintada e fecharam seus dedos sobre o cabo. Manoplas de cota de malha escondiam suas mãos enfraquecidas e faziam com que quase parecesse forte de novo. Seu pesado escudo de carvalho e ferro estava apoiado junto ao seu flanco esquerdo, e o berrante à direita. O resto do barco fora enchido de madeira trazida pelo rio, gravetos, pedaços de pergaminho e pedras, para torná-lo pesado na água. Seu estandarte flutuava à proa, a truta saltante de Correrrio.

Foram escolhidos sete homens para empurrar o barco funerário para dentro da água, em honra às sete faces de deus. Robb era um deles, na qualidade de suserano de Lorde Hoster. Acompanhavam-no os lordes Bracken, Blackwood, Vance e Mallister, Sor Marq Piper... e o Coxo Lothar Frey, que chegara das Gêmeas com a resposta que aguardavam. Em sua escolta vieram quarenta soldados, comandados por Walder Rivers, o mais velho dos bastardos de Lorde Walder, um homem severo e grisalho com uma formidável reputação como guerreiro. Sua chegada, apenas horas após o falecimento de Lorde Hoster, tinha deixado Edmure em fúria.

– Walder Frey devia ser esfolado e esquartejado – gritou. – Manda um aleijado e um bastardo para negociar conosco, não me diga que não pretende nos insultar com isso.

– Não tenho qualquer dúvida de que Lorde Walder escolheu seus enviados com cuidado – replicou Catelyn. – Foi um ato impertinente, uma forma mesquinha de vingança, mas lembre-se de quem é o homem com quem estamos lidando. O pai costumava chamá-lo de Atrasado Lorde Frey. O homem tem um gênio ruim, e é acima de tudo orgulhoso.

Abençoadamente, o filho mostrara mais bom senso do que o irmão. Robb cumprimentou os Frey com toda a cortesia, encontrou lugar nas casernas para a escolta e pediu calmamente a Sor Desmond Grell que se afastasse para que Lothar pudesse ter a honra de ajudar a enviar Lorde Hoster para sua última viagem. Meu filho ganhou noções de sabedoria que estão para além de sua idade. A Casa Frey podia ter abandonado o Rei no Norte, mas o Senhor da Travessia ainda era o mais poderoso dos vassalos de Correrrio, e Lothar encontrava-se ali em seu nome.

Os sete lançaram Lorde Hoster da escada de água, descendo os degraus enquanto a porta levadiça era içada. Lothar Frey, um homem corpulento e pouco musculoso, respirava pesadamente enquanto empurravam o barco para a corrente. Jason Mallister e Tytos Blackwood, à proa, entraram no rio até o peito, para pôr o barco no curso certo.

Catelyn observou das ameias, esperando e vigiando, como esperara e vigiara tantas vezes antes. Embaixo, o rápido e turbulento Pedregoso mergulhava como uma lança no flanco do largo Ramo Vermelho, agitando as lamacentas águas turvas do rio maior com sua corrente azul-esbranquiçada. Uma névoa matinal pairava sobre a água, fina como gaze e como os filamentos da memória.

Bran e Rickon estarão à espera dele, pensou tristemente Catelyn, tal como eu costumava esperar antigamente.

A esguia embarcação saiu, à deriva, sob a arcada de pedra vermelha do Portão da Água, ganhando velocidade ao ser apanhada pela impetuosa corrente do Pedregoso e empurrada na direção da zona turbulenta onde as águas se encontravam. No momento em que o barco emergiu de sob o abrigo das grandes muralhas do castelo, sua vela quadrada encheu-se de vento, e Catelyn viu a luz do sol relampejar no elmo do pai. O leme de Lorde Holter Tully manteve-se firme, e ele velejou serenamente pelo centro do canal, na direção do sol nascente.

– Agora – disse o tio. Ao lado dele, o irmão Edmure (agora Lorde Edmure de fato, e quanto tempo levaria para se habituar a isso?) encaixou uma flecha na corda do arco. O escudeiro aproximou um tição da ponta. Edmure esperou até a chama pegar, e então ergueu o grande arco, puxou a corda até a orelha e soltou. Com um profundo trum, a flecha ergueu-se no ar. Catelyn seguiu seu voo com os olhos e o coração, até que mergulhasse na água com um silvo suave, bem à popa do barco de Lorde Hoster.

Edmure soltou uma praga em voz baixa.

– O vento – disse, pegando uma segunda flecha. – Outra vez. – O tição beijou o trapo ensopado em óleo atrás da ponta da flecha, as chamas subiram, Edmure ergueu o arco, puxou e soltou. A flecha voou alto e longe. Longe demais. Desapareceu no rio uma dúzia de metros para lá do barco, e o fogo tremeluziu e apagou-se num instante. Um rubor estava subindo pelo pescoço de Edmure, tão vermelho quanto sua barba. – De novo – ordenou, tirando uma terceira flecha da aljava. Está tão tenso quanto a corda de seu arco, pensou Catelyn.

Sor Brynden deve ter visto o mesmo.

– Permita-me, senhor – ofereceu.

– Eu consigo – insistiu Edmure. Deixou-os acender a flecha, levantou bruscamente o arco, respirou fundo, puxou a corda. Por um longo momento pareceu hesitar enquanto o fogo subia lentamente a haste, crepitando. Por fim soltou. A flecha subiu como um relâmpago, e por fim voltou a curvar para baixo, caindo, caindo... e passando com um silvo pela vela enfunada.

Um erro por pouco, não mais do que uma mão, mas mesmo assim um erro.

– Que os Outros levem isto! – praguejou o irmão de Catelyn. O barco estava quase fora de alcance, deslizando rio abaixo, penetrando e saindo das névoas fluviais. Sem uma palavra, Edmure entregou o arco ao tio.

– Depressa – disse Sor Brynden. Encaixou uma flecha, manteve-a firme para receber o tição, puxou e soltou antes de Catelyn ter certeza de que o fogo tinha pegado, ... mas quando a flecha subiu, viu as chamas a segui-la pelo ar, uma flâmula laranja-clara. O barco tinha desaparecido na névoa. Caindo, a flecha em chamas foi também engolida... mas só por um segundo. Então viram o vermelho desabrochar em flor, súbito como a esperança. A vela incendiou-se, e o nevoeiro incandesceu, cor-de-rosa e laranja. Por um momento, Catelyn viu claramente a silhueta do barco, decorada pela grinalda de chamas saltitantes.

Espere-me, gatinha, ouviu-o murmurar.

Catelyn estendeu cegamente a mão, tateando em busca da do irmão, mas Edmure afastara-se, para ficar só, no ponto mais elevado das ameias. Foi o tio Brynden quem pegou na sua mão em vez do irmão, entrelaçando seus fortes dedos aos dela. Juntos, observaram o pequeno incêndio diminuir à medida que o barco em chamas se afastava na distância.