– Devia ter trocado o Regicida por Sansa quando me pediu – disse Robb no momento em que entraram na galeria. – Se tivesse proposto casá-la com o Cavaleiro das Flores, os Tyrell poderiam ser nossos e não de Joffrey. Devia ter pensado nisso.
– Sua cabeça estava nas suas batalhas, e com razão. Nem mesmo um rei pode pensar em tudo.
– Batalhas – resmungou Robb enquanto seguiam sob as árvores. – Ganhei todas as batalhas mas, sem saber como, estou perdendo a guerra. – Olhou para cima, como se a resposta pudesse estar escrita no céu. – Os homens de ferro controlam Winterfell e também Fosso Cailin. O pai está morto, Bran e Rickon também, e talvez até Arya. E agora também o seu pai.
Não podia permitir que ele se desesperasse. Conhecia bem demais o sabor dessa bebida.
– Meu pai esteve moribundo durante muito tempo. Você não podia ter mudado isso. Cometeu erros, Robb, mas que rei não os comete? Ned estaria orgulhoso de você.
– Mãe, há uma coisa que precisa saber.
O coração de Catelyn parou por um instante. Isso é algo que ele detesta. Algo que tem medo de me contar. Tudo em que conseguiu pensar foi em Brienne e na sua missão.
– É o Regicida?
– Não. É Sansa.
Está morta, pensou imediatamente Catelyn. Brienne falhou, Jaime está morto, e Cersei matou a minha querida menina por vingança. Por um momento quase não conseguiu falar.
– Ela… ela partiu, Robb?
– Partiu? – ele pareceu sobressaltado. – Morta? Ah, mãe, não, isso não, não lhe fizeram mal, dessa forma não, só... chegou uma ave ontem à noite, mas não consegui arranjar coragem de lhe contar até que seu pai fosse enviado para o descanso dele. – Robb pegou na mão dela. – Casaram-na com Tyrion Lannister.
Os dedos de Catelyn agarraram-se aos dele.
– O Duende.
– Sim.
– Ele jurou trocá-la pelo irmão – disse, entorpecida. – Sansa e Arya. Teríamos as duas de volta se devolvêssemos o seu precioso Jaime, ele jurou perante toda a corte. Como pôde se casar com ela depois de dizer aquilo à vista dos deuses e dos homens?
– É irmão do Regicida. A quebra de promessas corre no sangue deles. – Os dedos de Robb rasparam o botão de sua espada. – Se pudesse, cortaria aquela cabeça feia dele. Sansa seria então viúva, e livre. Não há outra maneira, que eu veja. Obrigaram-na a pronunciar os votos perante um septão e a vestir um manto carmesim.
Catelyn recordou o homenzinho retorcido que tinha capturado na estalagem do entroncamento e levado até o Ninho da Águia.
– Devia ter deixado que Lysa o atirasse por sua Porta da Lua. Minha pobre, querida, Sansa... por que alguém faria isso com ela?
– Por Winterfell – disse Robb de imediato. – Com Bran e Rickon mortos, Sansa é minha herdeira. Se algo acontecer comigo...
Catelyn agarrou com força a mão dele.
– Nada acontecerá a você. Nada. Eu não suportaria. Eles roubaram-me Ned e os seus irmãos. Sansa está casada, Arya, perdida, meu pai, morto... se algo de mal acontecer com você, eu enlouqueço, Robb. É tudo que me resta. É tudo que resta ao norte.
– Ainda não estou morto, mãe.
De repente, Catelyn sentiu-se repleta de terror.
– As guerras não têm de ser travadas até a última gota de sangue. – Até ela conseguia ouvir o desespero em sua voz. – Não seria o primeiro rei a dobrar o joelho, nem sequer o primeiro Stark.
A boca dele apertou-se.
– Não. Nunca.
– Não há vergonha nisso. Balon Greyjoy dobrou o joelho a Robert quando sua rebelião falhou. Torrhen Stark preferiu dobrar o joelho diante de Aegon, o Conquistador, a obrigar seu exército a enfrentar os incêndios.
– Aegon matou o pai do Rei Torrhen? – ele puxou suas mãos de entre as dela. – Nunca, já disse.
Agora está brincando de rapaz, não de rei.
– Os Lannister não precisam do Norte. Irão exigir homenagens e reféns, nada mais... e o Duende ficará com Sansa, façamos o que fizermos, portanto, já têm o seu refém. Os homens de ferro serão um inimigo mais implacável, garanto. Para ter alguma esperança de manter o Norte, os Greyjoy não podem deixar vivo nem um rebento da Casa Stark, para não terem quem dispute o direito ao trono com eles. Theon assassinou Bran e Rickon, agora basta-lhes matar você... sim, e Jeyne. Acha que Lorde Balon pode se dar ao luxo de deixá-la viver para lhe dar herdeiros?
O rosto de Robb estava frio.
– Foi por isso que libertou o Regicida? Para fazer a paz com os Lannister?
– Libertei Jaime por Sansa... e por Arya, se ainda estiver viva. Sabe disso. Mas se nutria alguma esperança de comprar também a paz, seria isso assim tão ruim?
– Sim – disse ele. – Os Lannister mataram meu pai.
– Acha que me esqueci disso?
– Não sei. Esqueceu?
Catelyn nunca batera nos filhos quando em fúria, mas naquele momento quase bateu em Robb. Precisou de um grande esforço para lembrar-se de como ele devia sentir-se assustado e só.
– Você é Rei no Norte, a escolha é sua. Só peço que pense no que eu disse. Os cantores põem nas alturas os reis que morrem valentemente em batalha, mas a sua vida vale mais do que uma canção. Pelo menos para mim, que fui quem a deu. – Baixou a cabeça. – Tenho licença para ir embora?
– Sim. – Ele virou as costas a ela e puxou a espada. Catelyn não saberia dizer o que o filho pretendia fazer com ela. Ali não havia inimigos, não havia ninguém com quem lutar. Só estavam lá os dois, por entre árvores altas e folhas caídas. Há batalhas que nenhuma espada pode ganhar, quis lhe dizer, mas temia que o rei estivesse surdo para palavras assim.
Horas mais tarde, estava costurando em seu quarto quando o jovem Rollam Westerling veio correndo chamá-la para o jantar. Ótimo, pensou Catelyn, aliviada. Não tinha certeza de que o filho a quereria lá, depois da discussão que tinham tido.
– Um escudeiro cumpridor – disse a Rollam com um ar grave. Bran teria sido igual.
Se Robb parecia frio à mesa e Edmure mal-humorado, o Coxo Lothar compensava a ambos. Era um modelo de cortesia, recordando calorosamente Lorde Hoster, dando a Catelyn amáveis condolências pela perda de Bran e Rickon, elogiando Edmure pela vitória no Moinho de Pedra, e agradecendo a Robb pela “justiça rápida e segura” que fizera com Rickard Karstark. O irmão bastardo de Lothar, Walder Rivers, era bem diferente; um homem amargo e ríspido, com o rosto suspeito do velho Lorde Walder, falava raramente e dedicava a maior parte de sua atenção aos alimentos e às bebidas que eram colocados na sua frente.
Depois de proferidas todas as palavras vazias, a rainha e os demais Westerling pediram licença, os restos da refeição foram levados, e Lothar Frey pigarreou.
– Antes de passarmos ao assunto que nos trouxe aqui, há outra questão – disse com solenidade. – Uma questão grave, temo. Esperei que não coubesse a mim trazer essas notícias a vocês, mas aparentemente tem de ser assim. O senhor meu pai recebeu uma carta dos netos.
Catelyn tinha estado tão perdida em desgosto pelos seus que quase havia se esquecido dos dois Frey que aceitara criar. Mais, não, pensou. Pela misericórdia da Mãe, quantos golpes mais poderemos suportar? De algum modo sabia que as palavras que ouviria em seguida iriam mergulhar mais uma lâmina no seu coração.
– Os netos em Winterfell? – obrigou-se a perguntar. – Os meus protegidos?
– Walder e Walder, sim. Mas, no momento, eles encontram-se no Forte do Pavor, senhora. Dói-me contar-lhe isso, mas houve uma batalha. Winterfell foi incendiado.
– Incendiado? – a voz de Robb estava incrédula.