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– Vossa Graça – disse Sor Axell –, segundo as suas ordens, trouxe o Cavaleiro das Cebolas.

– Estou vendo que sim. – Stannis usava uma túnica de lã cinza, um manto vermelho-escuro e um cinto simples de couro negro, de onde pendiam a espada e o punhal. Uma coroa de ouro vermelho com pontas em forma de chama rodeava sua testa. Sua aparência foi um choque. Parecia dez anos mais velho do que o homem que Davos tinha deixado em Ponta Tempestade quando zarpou para a Água Negra e para a batalha que seria a ruína deles. A barba do rei, aparada rente, incluía vários pelos grisalhos, e ele tinha perdido quinze quilos ou mais. Nunca foi um homem carnudo, mas, agora, os ossos moviam-se sob a sua pele como lanças, lutando para atravessá-la. Até a coroa parecia grande demais para a sua cabeça. Os olhos eram poços azuis perdidos em profundas covas, e conseguia-se ver a forma do crânio sob o rosto.

Mas quando viu Davos, um tênue sorriso roçou seus lábios.

– Então o mar devolveu-me meu cavaleiro do peixe e das cebolas.

– Devolveu, Vossa Graça. – Será que sabe que me tinha numa masmorra? Davos ajoelhou-se.

– Levante-se, Sor Davos – ordenou Stannis. – Senti sua falta, sor. Tenho necessidade de bons conselhos, e você nunca me deu outra coisa. Portanto, diga-me a verdade: qual é a pena por traição?

A palavra pairou no ar. Uma palavra medonha, pensou Davos. Estaria sendo pedido a ele que condenasse o companheiro de cela? Ou talvez a si próprio? Os reis conhecem melhor do que qualquer outro homem a pena por traição.

– Traição? – conseguiu enfim dizer, em voz fraca.

– De que mais chamaria renegar o rei e tentar roubar o trono que é dele por direito? Volto a perguntar: qual é a pena por traição, segundo a lei?

Davos não tinha alternativa exceto responder.

– A morte – disse. – A pena é a morte, Vossa Graça.

– Sempre foi assim. Eu não sou... um homem cruel, Sor Davos. Conhece-me. Conhece-me há muito tempo. Este decreto não é meu. Sempre foi assim, desde os tempos de Aegon, e mesmo antes. Daemon Blackfyre, os irmãos Toyne, o Rei Abutre, o Grande Meistre Hareth... traidores sempre pagaram com a vida... até Rhaenyra Targaryen. Era filha de um rei e mãe de mais dois, e no entanto teve uma morte de traidora por tentar usurpar a coroa do irmão. É a lei. Lei, Davos. Não crueldade.

– Sim, Vossa Graça. – Ele não fala de mim. Davos sentiu um momento de compaixão por seu companheiro de cela, lá embaixo, no escuro. Sabia que deveria manter silêncio, mas estava cansado e doente até o âmago, e ouviu-se dizer: – Senhor, Lorde Florent não pretendeu trair.

– Os contrabandistas têm outro nome para o ato? Fiz dele Mão, e ele teria vendido meus direitos por uma tigela de creme de ervilhas. Até lhes teria dado Shireen. Minha única filha, que ele teria casado com um bastardo nascido do incesto. – A voz do rei estava carregada de fúria. – Meu irmão tinha um dom para inspirar lealdade. Até nos adversários. Em Solarestival ganhou três batalhas num só dia, e trouxe Lorde Grandison e Lorde Cafferen para Ponta Tempestade como prisioneiros. Pendurou seus estandartes como troféus no salão. Os corços brancos de Cafferen estavam manchados de sangue, e o leão adormecido de Grandison encontrava-se quase rasgado em dois. E, no entanto, eles passavam noites sentados por baixo desses estandartes, bebendo e festejando com Robert. Até os levou à caça. “Esses homens queriam entregá-lo a Aerys para ser queimado”, eu disse-lhe depois de vê-los arremessando machados no pátio. “Não devia pôr machados em suas mãos.” Robert limitou-se a rir. Eu teria atirado Grandison e Cafferen numa masmorra, mas ele transformou-os em amigos. Lorde Cafferen morreu no Castelo de Vaufreixo, abatido por Randyll Tarly enquanto lutava por Robert. Lorde Grandison foi ferido no Tridente e morreu em decorrência disso um ano mais tarde. Meu irmão fez com que o amassem, mas, ao que parece, eu só inspiro traição. Até no meu próprio sangue e família. Irmão, avô, primos, tio da esposa...

– Vossa Graça – disse Sor Axell –, eu imploro, dê-me a oportunidade de lhe provar que nem todos os Florent são assim tão fracos.

– Sor Axell gostaria de me levar a retomar a guerra – disse o Rei Stannis a Davos. – Os Lannister acham que estou acabado e derrotado, e os senhores meus vassalos abandonaram-me, quase todos. Até Lorde Estermont, pai de minha própria mãe, dobrou o joelho a Joffrey. Os poucos homens leais que me restam vão perdendo o ânimo. Desperdiçam seus dias bebendo e jogando e lambem as feridas como vira-latas enxotados.

– A batalha voltará a incendiar seus corações, Vossa Graça – disse Sor Axell. – A derrota é uma doença, e a vitória é a cura.

– Vitória. – A boca do rei retorceu-se. – Há vitórias e vitórias, sor. Mas conte o seu plano a Sor Davos. Quero ouvir o que ele pensa do que você propõe.

Sor Axell virou-se para Davos, com uma expressão no rosto bem próxima à expressão que o orgulhoso Lorde Belgrave deve ter feito no dia em que o Rei Baelor, o Abençoado, lhe ordenou que lavasse os pés ulcerados do pedinte. Apesar disso, obedeceu.

O plano que Sor Axell concebera com Salladhor Saan era simples. A algumas horas de viagem de Pedra do Dragão estava a Ilha da Garra, sede marítima ancestral da Casa Celtigar. Lorde Ardrian Celtigar lutara sob o coração flamejante na Água Negra, mas, depois de capturado, não perdeu tempo até passar para o lado de Joffrey. Ainda permanecia em Porto Real.

– Com medo demais da fúria de Sua Graça para se aproximar de Pedra do Dragão, sem dúvida – declarou Sor Axell. – E sensatamente. O homem traiu seu legítimo rei.

Sor Axell propunha usar a frota de Salladhor Saan e os homens que escaparam da Água Negra – Stannis ainda tinha cerca de mil e quinhentos homens em Pedra do Dragão, mais de metade dos quais pertenciam aos Florent – a fim de exigir compensação pela deserção de Lorde Celtigar. A Ilha da Garra tinha uma guarnição leve, e dizia-se que o castelo estava recheado de tapetes de Myr, vidro volanteno, baixelas de ouro e prata, taças cravejadas de joias, magníficos falcões, um machado de aço valiriano, um berrante que era capaz de invocar monstros vindos das profundezas, baús de rubis, e mais vinho do que um homem conseguiria beber em cem anos. Embora o Celtigar tivesse mostrado ao mundo um rosto avarento, nunca impusera limites ao seu próprio conforto.

– Sugiro que imponha a tocha ao seu castelo e a espada ao seu povo – concluiu Sor Axell. – Que deixe a Ilha da Garra numa desolação de cinzas e ossos, adequada apenas para gralhas pretas, para que o reino veja o destino que aguarda aqueles que se deitam na cama dos Lannister.

Stannis ouviu em silêncio a récita de Sor Axell, mexendo lentamente o maxilar de um lado para o outro. Quando terminou de ouvir, disse:

– Creio que pode ser realizado. O risco é pequeno. Joffrey não tem força no mar até que Lorde Redwyne zarpe da Árvore. O saque pode servir para manter leal esse pirata liseno do Salladhor Saan durante algum tempo. A Ilha da Garra em si não tem valor algum, mas sua queda pode servir de aviso ao Lorde Tywin que a minha causa ainda não está acabada. – O rei virou-se de novo para Davos. – Fale a verdade, sor. O que acha da proposta de Sor Axell?

Fale a verdade, sor. Davos lembrou-se da cela escura que dividira com Lorde Alester, lembrou-se de Lampreia e de Mingau. Pensou nas promessas que Sor Axell havia feito na ponte por cima do pátio. Um navio ou um empurrão, o que será? Mas aquele que perguntava era Stannis.

– Vossa Graça – disse lentamente –, acho uma loucura... sim, e uma covardia.

Covardia? – Sor Axell quase gritou. – Ninguém me chama de covarde perante meu rei!

– Silêncio – ordenou Stannis. – Sor Davos, prossiga, quero ouvir suas razões.