– Porque é um homem reto – disse Melisandre.
– Um homem reto. – Stannis tocou com um dedo a bandeja de prata tampada. – Com sanguessugas.
– Sim – falou Melisandre –, mas tenho de lhe dizer de novo, esta não é a maneira certa.
– Jurou que daria certo. – O rei parecia zangado.
– Dará... e não dará.
– Ou uma coisa ou a outra.
– Ambas.
– Fale com sentido comigo, mulher.
– Quando os fogos falarem mais claramente, o mesmo farei eu. Há verdade nas chamas, mas nem sempre é fácil ver. – O grande rubi em sua garganta bebia fogo do clarão do braseiro. – Dê-me o garoto, Vossa Graça. É a maneira mais segura. A melhor maneira. Dê-me o garoto e acordarei o dragão de pedra.
– Já lhe disse que não.
– Ele é apenas um garoto ilegítimo, contra todos os garotos de Westeros e todas as garotas também. Contra todas as crianças que podem nunca chegar a nascer, em todos os reinos do mundo.
– O garoto é inocente.
– O garoto conspurcou sua cama nupcial e, se assim não fosse, certamente teria filhos seus. Ele envergonhou-o.
– Quem fez isso foi Robert. Não o garoto. Minha filha tornou-se amiga dele. E ele é do meu próprio sangue.
– É do sangue de seu irmão – disse Melisandre. – Do sangue de um rei. Só o sangue de um rei pode acordar o dragão de pedra.
Stannis rangeu os dentes.
– Não quero ouvir mais nada sobre isso. Os dragões acabaram-se. Os Targaryen tentaram trazê-los de volta meia dúzia de vezes. E fizeram papel de bobos, ou de cadáveres. Cara-Malhada é o único bobo de que precisamos neste rochedo esquecido por deus. Você tem as sanguessugas. Faça o seu trabalho.
Melisandre inclinou rigidamente a cabeça e disse:
– Às ordens de meu rei. – Enfiou a mão direita na manga esquerda e atirou um punhado de pó dentro do braseiro. Os carvões rugiram. Enquanto chamas pálidas se contorciam por cima deles, a mulher vermelha pegou o prato de prata e levou-o ao rei. Davos viu-a levantar a tampa. Por baixo dela encontravam-se três grandes sanguessugas negras, inchadas com sangue.
O sangue do garoto, soube Davos. Sangue de um rei.
Stannis estendeu uma mão, e seus dedos fecharam-se em volta de uma das sanguessugas.
– Diga o nome – ordenou Melisandre.
A sanguessuga retorcia-se na mão do rei, tentando se prender a um de seus dedos.
– O usurpador – disse ele. – Joffrey Baratheon. – Quando atirou a sanguessuga no fogo, ela enrolou-se entre os carvões como uma folha de outono e incendiou-se.
Stannis agarrou a segunda.
– O usurpador – declarou, dessa vez mais alto. – Balon Greyjoy. – Deu-lhe um piparote ligeiro para dentro do braseiro, e o corpo do animal abriu-se e crepitou. O sangue jorrou de seu interior, silvando e fumegando.
A última sanguessuga estava na mão do rei. Estudou aquela por um momento, enquanto se contorcia entre seus dedos.
– O usurpador – disse por fim. – Robb Stark. – E atirou-a para as chamas.
Jaime
A casa de banhos de Harrenhal era uma sala sombria, repleta de vapor e com teto baixo, cheia de grandes banheiras de pedra. Quando fizeram Jaime entrar, foram encontrar Brienne sentada numa delas, esfregando o braço quase furiosamente.
– Com menos força, garota – gritou ele. – Assim faz sair a pele. – Ela deixou cair a escova e cobriu os peitos com mãos tão grandes quanto as de Gregor Clegane. Os pequenos botões pontiagudos que estava tão decidida a esconder teriam parecido mais naturais em qualquer garotinha de dez anos do que em seu peito amplo e musculoso.
– O que está fazendo aqui? – exigiu saber.
– Lorde Bolton insiste que eu jante com ele, mas esqueceu de convidar as minhas pulgas. – Jaime puxou o guarda com a mão esquerda. – Ajude-me a tirar estes farrapos fedorentos. – Com apenas uma mão nem sequer era capaz de desatar os calções. O homem obedeceu de má vontade, mas obedeceu. – Agora deixe-nos – disse Jaime quando sua roupa já jazia numa pilha no chão úmido de pedra. – A Senhora de Tarth não quer ralé como você olhando de boca aberta para os peitos dela. – Apontou com o coto para a mulher com rosto de machadinha que prestava assistência a Brienne. – Você também. Espere lá fora. Só há essa porta, e a garota é grande demais para tentar subir por uma chaminé.
O hábito de obediência estava profundamente entranhado. A mulher seguiu o guarda para fora, deixando a casa de banhos para os dois. As banheiras tinham tamanho suficiente para seis ou sete pessoas, à moda das Cidades Livres, e Jaime entrou na da moça, desajeitado e lento. Tinha ambos os olhos abertos, embora o direito ainda estivesse um pouco inchado, apesar das sanguessugas de Qyburn. Jaime sentia-se com cento e nove anos, o que era bastante melhor do que se sentia quando tinha chegado a Harrenhal.
Brienne encolheu-se para longe dele.
– Há outras banheiras.
– Esta está bastante boa para mim. – Imergiu-se na água fumegante, com cautela, até o queixo. – Não tenha medo, garota. Suas coxas estão roxas e verdes e não estou interessado no que tem entre elas. – Teve de apoiar o braço direito na borda da banheira, pois Qyburn prevenira-o para manter o linho seco. Conseguia sentir a tensão desaparecendo de suas pernas, mas a cabeça começou a girar. – Se eu desmaiar, puxe-me para fora. Nunca nenhum Lannister se afogou no banho, e não pretendo ser o primeiro.
– Por que me importaria se morresse?
– Prestou um voto solene. – Sorriu quando um rubor subiu pela grossa coluna branca que era o pescoço da garota. Ela virou as costas para ele. – Continua se fazendo de donzela recatada? O que é que você acha que eu ainda não vi? – procurou às apalpadelas a escova que ela tinha deixado cair, encontrou-a com os dedos e começou a se esfregar sem método. Até isso era difícil e incômodo. Minha mão esquerda não presta para nada.
Apesar de tudo, a água escureceu à medida que a sujeira incrustada que tinha na pele foi se dissolvendo. A garota manteve as costas voltadas para ele, com os músculos de seus grandes ombros corcovados e duros.
– Ver o meu coto aflige-a assim tanto? – perguntou Jaime. – Deveria estar satisfeita. Perdi a mão com que matei o rei. A mão que atirou o pequeno Stark daquela torre. A mão que enfiava entre as coxas de minha irmã para deixá-la molhada. – Pôs o coto diante do rosto dela. – Não admira que Renly tenha morrido, com você a guardá-lo.
Brienne ficou em pé de um salto, como se Jaime tivesse batido nela, fazendo com que uma onda de água quente percorresse a banheira. Jaime obteve um vislumbre do espesso matagal louro que a garota tinha entre as coxas quando ela saiu da banheira. Era muito mais peluda do que sua irmã. Absurdamente, sentiu o pau se agitar dentro da água. Agora sei que estou há tempo demais longe de Cersei. Desviou os olhos, perturbado pela resposta de seu corpo.
– Isso foi indigno – murmurou. – Fui estropiado e estou amargo. Perdoe-me, garota. Protegeu-me tão bem quanto qualquer homem poderia proteger, e melhor do que a maioria.
Ela enrolou sua nudez numa toalha.
– Está zombando de mim?
Aquilo voltou a enfurecê-lo.
– Terá uma cabeça tão dura como a muralha de um castelo? Isso foi um pedido de desculpas. Estou farto de lutar com você. O que diz de fazermos uma trégua?
– As tréguas constroem-se com base na confiança. Quer que eu confie...
– No Regicida, sim. O perjuro que assassinou o pobrezinho do Aerys Targaryen. – Jaime fungou. – Não é de Aerys que me arrependo, é de Robert. “Ouvi dizer que chamam você de Regicida”, disse-me no banquete de sua coroação. “Que não pense em fazer disso um hábito.” E riu. Por que é que ninguém chama Robert de perjuro? Ele despedaçou o reino, e no entanto eu é que tenho merda no lugar da honra.