– Vermes, mijo e vômito cinzento – informou Jaime.
– Pão duro, água e mingau de aveia – insistiu o guarda. – Mas ele quase não come. O que devemos fazer com ele?
– Esfreguem-no, vistam-no e carreguem-no até a Pira do Rei, se for preciso – disse Qyburn. – Lorde Bolton insiste em jantar com ele esta noite. Começamos a ficar sem tempo.
– Tragam roupas limpas para ele – disse Brienne –, vou me certificar de que se lave e se vista.
Os outros ficaram mais do que satisfeitos por ceder a tarefa à garota. Puseram-no de pé e sentaram-no num banco de pedra junto da parede. Brienne afastou-se para recuperar a toalha, e voltou com uma escova rija para acabar de esfregá-lo. Um dos guardas deu-lhe uma navalha para aparar a barba de Jaime. Qyburn retornou com roupas de baixo de tecido grosseiro, uns calções limpos de lã negra, uma túnica larga e verde, e um gibão de couro amarrado na frente. Jaime já se sentia menos tonto a essa altura, embora igualmente desajeitado. Com a ajuda da garota conseguiu se vestir.
– Agora só preciso de um espelho de prata.
Meistre Sangrento também trouxera roupa lavada para Brienne; um vestido de cetim cor-de-rosa manchado e uma túnica de linho.
– Lamento, senhora. Estes são os únicos trajes de mulher que temos em Harrenhal grandes o suficiente para você.
Tornou-se evidente de imediato que o vestido fora cortado para alguém com braços mais esbeltos, pernas mais curtas e seios muito mais cheios. A fina renda de Myr pouco fazia para ocultar os hematomas que manchavam a pele de Brienne. Juntando tudo, o vestido fazia a garota parecer ridícula. Ela tem ombros mais largos do que os meus e um pescoço maior, pensou Jaime. Pouco admira que prefira vestir cota de malha. E o rosa também não era cor que a favorecesse. Uma dúzia de piadas cruéis vieram-lhe à cabeça, mas, por uma vez, manteve-as lá dentro. Era melhor não irritá-la; Jaime não tinha chance contra ela, com uma mão apenas.
Qyburn também tinha trazido um frasco.
– O que é isso? – perguntou Jaime quando o meistre sem colar insistiu para que bebesse.
– Alcaçuz macerado em vinagre, com mel e cravo. Vai dar alguma força e limpar a sua cabeça.
– Traga-me a poção que faz nascer novas mãos – disse Jaime. – É essa que eu desejo.
– Beba – disse Brienne, sem sorrir, e ele bebeu.
Passou-se meia hora até que se sentisse suficientemente forte para ficar em pé. Depois do calor sombrio e úmido da casa de banhos, o ar lá fora foi como um tapa na cara.
– A esta hora, o senhor deve andar à procura dele – disse um guarda a Qyburn. – E dela também. Tenho de carregá-lo?
– Ainda consigo andar. Brienne, dê-me o braço.
Agarrando-se a ela, Jaime permitiu que o pastoreassem através do pátio e para o interior de um grande salão cheio de correntes de ar, que era maior até do que a sala do trono em Porto Real. Enormes lareiras abriam-se nas paredes, uma a cada três metros, mais ou menos, em maior número do que ele era capaz de contar, mas nenhum fogo fora aceso, e o frio entre as paredes chegava aos ossos. Uma dúzia de lanceiros com manto de peles guardava as portas e os degraus que levavam às duas galerias superiores. E, no centro daquele imenso vazio, em uma mesa de montar rodeada por aquilo que parecia ser acres de assoalho liso de ardósia, o Senhor do Forte do Pavor aguardava, servido apenas por um copeiro.
– Senhor – disse Brienne, quando se aproximaram dele.
Os olhos de Roose Bolton eram mais claros do que pedra, mais escuros do que leite, e sua voz tinha a suavidade das aranhas.
– Agrada-me vê-lo suficientemente forte para me fazer companhia, sor. Senhora, sente-se. – Fez um gesto para o queijo, o pão, as carnes frias e as frutas que cobriam a mesa. – Preferem branco ou tinto? Receio que sejam de uma colheita banal. Sor Amory deixou a adega da Senhora Whent quase seca.
– Confio que o tenha mandado matar por isso. – Jaime deslizou rapidamente para a cadeira que lhe foi oferecida, de modo que Bolton não pudesse ver quão fraco se encontrava. – Branco é para os Stark. Bebo do tinto, como um bom Lannister.
– Eu preferiria água – disse Brienne.
– Elmar, o tinto para Sor Jaime, água para a Senhora Brienne e hipocraz para mim. – Bolton sacudiu uma mão na direção da escolta, mandando-a embora, e os homens se retiraram em silêncio.
O hábito levou Jaime a estender a mão direita para o vinho. O coto fez a taça balançar, salpicando de vermelho vivo suas ataduras de linho limpas e forçando-o a pegar a taça com a mão esquerda antes que ela caísse, mas Bolton fingiu não notar sua falta de jeito. O nortenho serviu-se de uma ameixa seca e comeu-a com pequenas e rápidas dentadas.
– Experimente estas ameixas, Sor Jaime. São extremamente doces, e também ajudam as tripas a trabalhar. Lorde Vargo tirou-as de uma estalagem antes de incendiá-la.
– Minhas tripas trabalham bem, o bode não é lorde nenhum, e suas ameixas não me despertam nem metade do interesse que sinto por suas intenções.
– A seu respeito? – um leve sorriso tocou os lábios de Roose Bolton. – É um troféu perigoso, sor. Semeia a discórdia onde quer que vá. Até aqui, em minha feliz casa de Harrenhal. – Sua voz era um milímetro acima de um murmúrio. – E em Correrrio também, ao que parece. Sabe que Edmure Tully ofereceu mil dragões de ouro por sua recaptura?
Só isso?
– Minha irmã pagará dez vezes esse valor.
– Ah, sim? – de novo aquele sorriso, exibido por um instante, desaparecido no seguinte. – Dez mil dragões é uma soma formidável. Claro, deve-se também considerar a oferta de Lorde Karstark. Ele promete a mão da filha dele ao homem que lhe trouxer sua cabeça.
– Só mesmo seu bode para entender isso ao contrário – disse Jaime.
Bolton soltou um suave risinho.
– Harrion Karstark era cativo aqui quando tomamos o castelo, sabia? Dei-lhe todos os homens de Karhold que ainda tinha comigo e mandei-o com Glover. Espero que nada de mal lhe aconteça em Valdocaso... caso contrário, Alys Karstark será tudo que resta da descendência de Lorde Rickard. – Escolheu outra ameixa seca. – Felizmente para você não preciso de uma esposa. Casei com a Senhora Walda Frey enquanto estava nas Gêmeas.
– A Bela Walda? – desajeitadamente, Jaime tentou segurar o pão com o coto enquanto o partia com a mão esquerda.
– A Walda Gorda. O senhor de Frey ofereceu-me o peso de minha noiva em prata como dote, portanto fiz a escolha apropriada. Elmar, parta um pouco de pão para Sor Jaime.
O rapaz arrancou um bocado do tamanho de um punho de uma das extremidades do pão e entregou-o a Jaime. Brienne partiu seu próprio pão.
– Lorde Bolton – perguntou a garota –, dizem que pretende entregar Harrenhal a Vargo Hoat.
– Foi esse o seu preço – disse Lorde Bolton. – Os Lannister não são os únicos que pagam as suas dívidas. Em todo o caso, tenho de me retirar em breve. Edmure Tully deverá se casar com a Senhora Roslin Frey nas Gêmeas, e meu rei ordena-me que esteja presente.
– Edmure vai se casar? – perguntou Jaime. – Não é Robb Stark?
– Sua Graça o Rei Robb já se casou. – Bolton cuspiu um caroço de ameixa na mão e deixou-o de lado. – Com uma Westerling do Despenhadeiro. Foi-me dito que o nome dela é Jeyne. Sem dúvida a conhece, sor. O pai dela é vassalo do seu.
– Meu pai tem bastantes vassalos, e a maioria deles tem filhas. – Jaime tateou só com uma mão em busca da taça, tentando se recordar daquela Jeyne. Os Westerling eram uma casa antiga, com mais orgulho do que poder.
– Isso não pode ser verdade – disse teimosamente Brienne. – O Rei Robb jurou se casar com uma Frey. Ele nunca quebraria a promessa, ele...
– Sua Graça é um rapaz de dezesseis anos – disse brandamente Roose Bolton. – E eu agradeceria se não questionasse a minha palavra, senhora.