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– Senhor de Lannister – disse a Senhora Blackmont –, percorremos um caminho longo e poeirento, e um pouco de descanso seria muito bem-vindo, para restaurarmos as forças. Podemos prosseguir para a cidade?

– Imediatamente, senhora. – Tyrion virou a cabeça do cavalo e chamou por Sor Addam Marbrand. Os homens de manto dourado que constituíam a maior parte de sua guarda de honra manobraram vivamente os cavalos à ordem de Sor Addam, e a coluna dirigiu-se para o rio e para Porto Real.

Oberyn Nymeros Martell, resmungou Tyrion, em surdina, enquanto se punha ao lado do homem. A Víbora Vermelha de Dorne. E o que, com os sete infernos, esperam que eu faça com ele?

Conhecia o homem apenas de reputação, certamente... mas a reputação era assustadora. Quando mal tinha dezesseis anos, o Príncipe Oberyn fora encontrado na cama com a amante do velho Lorde Yronwood, um homem enorme, de feroz reputação e gênio tempestuoso. Seguiu-se um duelo, embora, em vista da juventude e do elevado nascimento do príncipe, fosse apenas até o primeiro sangue. Ambos os homens receberam golpes, e a honra foi satisfeita. Mas o Príncipe Oberyn recuperou-se rapidamente, ao passo que os ferimentos de Lorde Yronwood gangrenaram e o levaram à morte. Depois de seu falecimento, os homens começaram a murmurar que Oberyn lutara com uma espada envenenada, e daí em diante tanto os amigos como os adversários passaram a chamá-lo de Víbora Vermelha.

Isso havia acontecido muitos anos antes, com certeza. O rapaz de dezesseis anos era agora um homem com mais de quarenta e sua lenda tornara-se mais sombria. Tinha viajado pelas Cidades Livres, onde aprendeu a arte dos venenos, e talvez artes ainda mais negras, caso se acreditasse nos rumores. Estudou na Cidadela, chegando até a forjar seis elos de uma corrente de meistre antes de se aborrecer. Serviu como soldado nas Terras Disputadas, do outro lado do mar estreito, acompanhando os Segundos Filhos durante algum tempo antes de formar a própria companhia. Seus torneios, suas batalhas, seus duelos, seus cavalos, sua luxúria... dizia-se que dormia tanto com homens quanto com mulheres e que tinha gerado bastardas por todo o Dorne. Os homens chamavam suas filhas de serpentes de areia. Até onde Tyrion sabia, o Príncipe Oberyn nunca fora pai de um filho.

E, claro, tinha mutilado o herdeiro de Jardim de Cima.

Não há homem nos Sete Reinos que seja menos bem-vindo a um casamento Tyrell, pensou Tyrion. Mandar o Príncipe Oberyn para Porto Real enquanto a cidade ainda abrigava Lorde Mace Tyrell, dois de seus filhos e milhares de seus homens de armas era uma provocação tão perigosa quanto o próprio Príncipe Oberyn. Uma palavra errada, um gracejo feito num momento inoportuno, um olhar serão o suficiente, e nossos nobres aliados vão se lançar às gargantas uns dos outros.

– Já nos encontramos uma vez – disse o príncipe dornês a Tyrion, com ligeireza, enquanto cavalgavam lado a lado pela estrada do rei, passando por campos de cinzas e esqueletos de árvores. – Mas não espero que se lembre. Era ainda menor do que é agora.

Na voz do homem, havia uma aresta de zombaria que desagradava a Tyrion, mas não ia permitir que o dornês o provocasse.

– Quando aconteceu isso, senhor? – perguntou, num tom de interesse educado.

– Oh, há muitos e muitos anos, quando minha mãe governava em Dorne e o senhor seu pai era Mão de um rei diferente.

Não tão diferente quanto possa pensar, refletiu Tyrion.

– Foi quando visitei Rochedo Casterly com a minha mãe, o seu consorte e a minha irmã Elia. Tinha, oh, catorze, quinze anos, por aí, e Elia era um ano mais velha. O seu irmão e sua irmã tinham oito ou nove anos, se bem me lembro, e você havia acabado de nascer.

Estranha hora para uma visita. A mãe havia morrido no parto, então os Martell teriam encontrado Rochedo Casterly profundamente mergulhado em luto. Especialmente o pai. Lorde Tywin raras vezes mencionava a mulher, mas Tyrion ouviu os tios falarem do amor que havia entre eles. Naqueles tempos, o pai era Mão de Aerys, e muitos diziam que Lorde Tywin Lannister governava os Sete Reinos, mas a Senhora Joanna governava Lorde Tywin.

– Ele não era o mesmo homem depois que ela morreu, Duende – disse-lhe um dia o tio Gery. – A melhor parte dele morreu com ela. – Gerion era o mais novo dos quatro filhos de Lorde Tytos Lannister, e o tio de que Tyrion mais gostava.

Mas agora estava desaparecido, perdido além dos mares, e o próprio Tyrion tinha levado a Senhora Joanna para a sepultura.

– Achou Rochedo Casterly do seu agrado, senhor?

– Pouco. O seu pai ignorou-nos todo o tempo que lá estivemos, depois de ordenar a Sor Kevan que tratasse de nos entreter. A cela que me deram tinha uma cama de penas e tapetes de Myr no chão, mas era escura e não tinha janelas, muito semelhante a uma masmorra se você parar para pensar, tal como eu disse a Elia na época. Seus céus eram cinzentos demais, seus vinhos, doces demais, suas mulheres, castas demais, sua comida, insípida demais... e você foi o maior desapontamento de todos.

– Tinha acabado de nascer. O que esperava de mim?

– Enormidade – respondeu o príncipe de cabelo negro. – Era pequeno mas afamado. Estávamos em Vilavelha quando de seu nascimento, e a cidade só falava do monstro que tinha nascido da Mão do Rei, e de como aquilo podia ser um mau presságio para o reino.

– Fome, peste e guerra, sem dúvida. – Tyrion deu um sorriso amargo. – É sempre fome, peste e guerra. Ah, e o inverno, e a longa noite que nunca termina.

– Tudo isso – disse o Príncipe Oberyn – e também a queda de seu pai. Ouvi um irmão mendicante pregar que Lorde Tywin se tornara maior do que o Rei Aerys, mas só um deus deve estar acima de um rei. Você seria a sua maldição, uma punição enviada pelos deuses para lhe ensinar que não era melhor do que qualquer outro homem.

– Eu tento, mas ele recusa-se a aprender. – Tyrion soltou um suspiro. – Prossiga, por favor. Adoro uma boa história.

– E é natural, pois a história que se contava de você era que tinha um rabo, duro e recurvado como o de um porco. A sua cabeça era monstruosamente grande, segundo ouvimos dizer, com vez e meia o tamanho do seu corpo, e havia nascido com densos cabelos pretos e também com barba, um olho maligno e garras de leão. Seus dentes eram tão longos que não podia fechar a boca, e entre as pernas encontravam-se as partes privadas de uma menina, assim como as de um menino.

– A vida seria muito mais simples se os homens pudessem se foder a si mesmos, não acha? E eu consigo me lembrar de algumas ocasiões em que garras e dentes poderiam ter se revelado úteis. Mesmo assim, começo a ver a natureza de sua queixa.

Bronn soltou uma risadinha, mas Oberyn apenas sorriu.

– Podíamos nem tê-lo visto, se não fosse a sua querida irmã. Você nunca aparecia à mesa ou nos salões, se bem que às vezes, à noite, ouvíssemos um bebê berrando nas profundezas do Rochedo. Tinha uma voz monstruosamente alta, isso garanto. Chorava durante horas, e nada o sossegava a não ser uma teta de mulher.

– Continua a ser assim, curiosamente.

Dessa vez o Príncipe Oberyn riu.

– É um gosto que partilhamos. Lorde Gargalen disse-me uma vez que esperava morrer com uma espada na mão, ao que eu respondi que preferiria partir com um seio na minha.

Tyrion teve de sorrir.

– Falava de minha irmã?

– Cersei prometeu a Elia que iria mostrá-lo a nós. Na véspera do dia em que devíamos zarpar, enquanto minha mãe e seu pai estavam fechados, juntos, sua irmã e Jaime levaram-nos até o seu quarto. A sua ama de leite tentou nos mandar embora, mas Cersei não quis nem saber. “Ele é meu”, ela disse, “e você é só uma vaca leiteira, não pode me dizer o que fazer. Quieta, senão mando meu pai cortar sua língua. Uma vaca não precisa de língua, só precisa de úberes”.