– Deve ser um retardado, rapaz – disse Limo. – Nós somos fora da lei. Ralé de baixo nascimento, na maioria, exceto sua senhoria. E não pense que será como nas canções bestas de Tom. Não vai andar roubando beijos de uma princesa, nem entrando em torneios com uma armadura roubada. Caso se junte a nós, vai acabar com uma corda no pescoço, ou a cabeça exposta em algum portão de castelo.
– É a mesma coisa que fariam por você – disse Gendry.
– Bem, é verdade – disse Jack Sortudo num tom alegre. – Os corvos esperam por todos nós. Senhor, o rapaz parece ter bastante coragem, e precisamos daquilo que nos traz. O Jack diz: aceite-o.
– E depressa – sugeriu Harwin com um risinho –, antes que a febre passe e ele recupere o juízo.
Um sorriso abatido atravessou os lábios de Lorde Beric.
– Thoros, a minha espada.
Daquela vez o senhor do relâmpago não incendiou a lâmina e limitou-se a apoiá-la levemente no ombro de Gendry.
– Gendry, jura perante os olhos dos deuses e dos homens defender aqueles que não podem defender a si mesmos, proteger todas as mulheres e crianças, obedecer aos seus capitães, ao seu suserano e ao seu rei, lutar bravamente quando necessário e desempenhar as demais tarefas que lhe sejam atribuídas, por mais duras, humildes ou perigosas que possam ser?
– Juro, senhor.
O Senhor da Marcha passou a espada do ombro direito para o esquerdo e disse:
– Levante-se, Sor Gendry, cavaleiro do monte oco, e seja bem-vindo à nossa irmandade.
Da porta, chegou uma gargalhada rude e áspera.
A chuva pingava dele. Seu braço queimado estava enrolado em folhas e linho e bem preso ao peito por uma tosca tipoia de corda, mas as queimaduras mais antigas que marcavam seu rosto cintilavam, negras e lisas, ao brilho da pequena fogueira dos fora da lei.
– Fazendo mais cavaleiros, Dondarrion? – disse o intruso num rosnado. – Devia matá-lo outra vez por causa disso.
Lorde Beric encarou-o friamente.
– Esperava que não o víssemos mais, Clegane. Como nos encontrou?
– Não foi difícil. Fizeram uma fumaceira tão grande que até de Vilavelha se veria.
– O que aconteceu com as sentinelas que coloquei?
A boca de Clegane torceu-se.
– Aqueles dois cegos? Talvez tenha matado ambos. O que faria se assim fosse?
Anguy prendeu uma corda no arco. Notch estava fazendo o mesmo.
– Deseja tanto assim morrer, Sandor? – perguntou Thoros. – Deve estar louco ou bêbado para nos seguir até aqui.
– Bêbado de chuva? Não me deixaram ouro suficiente para comprar uma taça de vinho, seus filhos da puta.
Anguy pegou uma flecha.
– Somos fora da lei. Os fora da lei roubam. Está nas canções, se pedir com jeitinho o Tom talvez lhe cante uma. Fique grato por não termos matado você.
– Venha tentar, Arqueiro. Arranco essa aljava da sua mão e enfio essas flechas pelo seu cuzinho sardento acima.
Anguy ergueu o arco, mas Lorde Beric levantou uma mão antes de ele ter oportunidade de disparar.
– Por que veio até aqui, Clegane?
– Para recuperar o que é meu.
– Seu ouro?
– O que mais poderia ser? Não foi pelo prazer de olhar para a sua cara, Dondarrion, devo dizer. Agora é mais feio do que eu. E também um cavaleiro ladrão, ao que parece.
– Dei-lhe uma nota em troca do ouro – disse calmamente Lorde Beric. – Uma promessa de pagamento para quando a guerra chegar ao fim.
– Limpei o cu com o seu papel. Quero o ouro.
– Não o temos. Mandei-o para o sul, com Barba-Verde e Caçador, para comprar cereais e sementes do lado de lá do Vago.
– Para alimentar todos aqueles cujas colheitas você queimou – disse Gendry.
– Ah, a história agora é essa? – Sandor Clegane soltou outra gargalhada. – Acontece que era isso mesmo que eu pretendia fazer com ele. Alimentar um monte de feios camponeses e suas crias piolhentas.
– Está mentindo – disse Gendry.
– Vejo que o rapaz tem boca. Por que acredita neles e não em mim? Não pode ser pela minha cara, ou pode? – Clegane olhou de relance para Arya. – Vai também armá-la cavaleira? A primeira menina de oito anos cavaleira?
– Tenho doze – mentiu Arya em voz alta – e podia ser cavaleira se quisesse. Também podia ter matado você, só que o Limo roubou a minha faca. – Lembrar-se daquilo ainda a deixava zangada.
– Queixe-se ao Limo, não a mim. E depois enfie o rabo entre as pernas e fuja. Sabe o que os cães fazem com lobos?
– Da próxima vez mato você mesmo. E mato também o seu irmão.
– Não. – Os olhos escuros dele estreitaram-se. – Isso não fará. – Virou-se de novo para Lorde Beric. – Olha, arme o meu cavalo cavaleiro. Ele nunca caga nos salões, e não dá mais coices do que a maioria, merece ser armado cavaleiro. A menos que também pretenda roubá-lo.
– É melhor subir nesse cavalo e ir embora – preveniu Limo.
– Irei com o meu ouro. O próprio deus que adora disse que não sou culpado...
– O Senhor da Luz devolveu-lhe a vida – declarou Thoros de Myr. – Não o proclamou a reencarnação de Baelor, o Abençoado. – O sacerdote vermelho desembainhou a espada, e Arya viu que Jack e Merrit também tinham desembainhado as deles. Lorde Beric ainda segurava a lâmina que usara para armar Gendry. Talvez dessa vez o matem.
A boca do Cão de Caça voltou a se torcer.
– Não são mais do que ladrões comuns.
Limo olhou-o fixamente.
– Seus amigos leões entram numa aldeia qualquer, roubam toda a comida e todas as moedas que conseguirem encontrar, e chamam isso de forragear. Os lobos também, portanto por que não nós? Ninguém o roubou, cão. Foi só bem forrageado.
Sandor Clegane olhou o rosto deles, um a um, como se estivesse tentando gravá-los todos na memória. Então saiu de volta para a escuridão e a chuva intensa de onde viera, sem proferir outra palavra. Os fora da lei ficaram na expectativa, questionando-se...
– É melhor eu verificar o que ele fez às nossas sentinelas. – Harwin espiou cuidadosamente pela porta antes de sair, a fim de se certificar de que Cão de Caça não estava só à espreita lá fora.
– E, de qualquer forma, como terá aquele maldito sacana arranjado todo aquele ouro? – disse Limo Manto Limão, para quebrar a tensão.
Anguy encolheu os ombros.
– Ele ganhou o torneio da Mão. Em Porto Real. – O arqueiro deu um sorriso. – Eu mesmo ganhei uma bela fortuna, mas depois conheci Dancy, Jayde e Alayaya. Ensinaram-me qual é o gosto do cisne assado e como tomar banho em vinho da Árvore.
– Deu cabo dele todo, foi? – riu Harwin.
– Todo não. Comprei estas botas e este excelente punhal.
– Devia era ter comprado alguma terra e tornado uma dessas moças do cisne assado numa mulher honesta – disse Jack Sortudo. – Arranjaria uma colheita de nabos e outra de filhos.
– Que o Guerreiro me proteja! Que desperdício seria transformar o ouro em nabos.
– Eu gosto de nabos – disse Jack, ofendido. – Agora mesmo bem que encararia um purezinho de nabo.
Thoros de Myr não prestou atenção às brincadeiras.
– Cão de Caça perdeu mais do que alguns sacos de moeda – refletiu. – Perdeu também seu dono e o canil. Não pode voltar para os Lannister, o Jovem Lobo nunca o acolheria, e também não é provável que o irmão o receba. Aquele ouro era tudo que lhe restava, parece.
– Inferno – disse Watty, o Moleiro. – Então ele com certeza virá nos assassinar quando estivermos dormindo.
– Não. – Lorde Beric tinha embainhado a espada. – Sandor Clegane mataria todos nós de bom grado, mas não enquanto dormíssemos. Anguy, amanhã vá para a retaguarda com o Dick Sem Barba. Se vir o Clegane ainda farejando atrás de nós, mate seu cavalo.
– É um bom cavalo – protestou Anguy.
– Sim – disse Limo. – É o maldito cavaleiro que deveríamos matar. Poderíamos usar aquele cavalo.