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– Eu concordo com o Limo – disse Notch. – Deixe-me pôr penas no cão algumas vezes, desencorajá-lo um pouquinho.

Lorde Beric sacudiu a cabeça.

– Clegane conquistou a vida sob o monte oco. Não a roubarei dele.

– O senhor é sábio – disse Thoros aos outros. – Irmãos, um julgamento pela batalha é algo sagrado. Ouviram-me pedir a R’hllor para dar uma ajuda e viram o seu dedo ardente quebrar a espada de Lorde Beric, justo no momento em que ele se preparava para pôr fim em Clegane. Ao que parece, o Senhor da Luz ainda tem planos para o Cão de Caça de Joffrey.

Harwyn voltou depressa à cervejaria.

– Pé-de-Chouriço estava dormindo como uma pedra, mas inteiro.

– Espere até eu colocar as mãos nele – disse Limo. – Abro um novo olho do cu. Podia ter feito com que todos nós fôssemos mortos.

Ninguém descansou muito confortavelmente naquela noite, sabendo que Sandor Clegane se encontrava lá fora, no escuro, em algum lugar nas imediações. Arya enrolou-se perto do fogo, quente e aconchegada, mas o sono não queria vir. Tirou para fora a moeda que Jaqen H’ghar lhe dera e enrolou os dedos em volta dela, mantendo-se deitada por baixo de seu manto. Segurá-la fazia com que se sentisse forte, recordando-se de como havia sido o fantasma de Harrenhal. Na época, ela podia matar com um murmúrio.

Mas Jaqen partiu. Abandonou-a. O Torta Quente também me deixou, e agora é o Gendry que está partindo. Lommy morreu, Yoren morreu, Syrio Forel morreu, até o pai morreu, e Jaqen deu-lhe uma estúpida moeda de ferro e desapareceu.

Valar morghulis – murmurou suavemente, apertando tanto o punho que as duras arestas da moeda se enterraram na palma de sua mão. – Sor Gregor, Dunsen, Polliver, Raff, o Querido. Cócegas e Cão de Caça. Sor Ilyn, Sor Meryn, Rei Joffrey, Rainha Cersei. – Arya tentou imaginá-los depois de mortos, mas era difícil trazer seus rostos à memória. Conseguia ver Cão de Caça, assim como o irmão, a Montanha, e nunca se esqueceria do rosto de Joffrey, ou do da mãe dele... mas Raff, Dunsen e Polliver desvaneciam-se, e até Cócegas, cujo aspecto era tão banal.

O sono finalmente dominou-a, mas na noite fechada Arya acordou de novo, com uma sensação de formigamento. A fogueira reduzira-se a brasas. Mudge estava em pé, junto à porta, e havia outro guarda fazendo rondas lá fora. A chuva tinha parado, e ouviam-se lobos uivando. Tão perto, pensou, e tantos. Pelo barulho pareciam estar por toda a volta do estábulo, dezenas de animais, talvez centenas. Espero que comam o Cão de Caça. Recordou o que ele havia dito a respeito dos lobos e dos cães.

Chegada a manhã, o Septão Utt ainda oscilava sob a árvore, mas os irmãos pardos andavam pela chuva com pás, cavando covas rasas para os outros mortos. Lorde Beric agradeceu-lhes pelo alojamento da noite e pela refeição e deu-lhes um saco de veados de prata para ajudar na reconstrução. Harwin, o Luke Promissor e Watty, o Moleiro, saíram batendo o terreno, mas não foram encontrados nem lobos nem cães.

Arya estava apertando a correia de sua sela quando Gendry veio encontrá-la para lhe pedir desculpas. Ela pôs um pé no estribo e saltou para a sela, para poder olhá-lo de cima, e não de baixo. Podia fazer espadas em Correrrio para o meu irmão, pensou, mas o que disse foi:

– Se quer ser um estúpido cavaleiro fora da lei e acabar enforcado, por que é que devo me importar? Vou estar em Correrrio, a salvo, com o meu irmão.

Não houve chuva naquele dia, felizmente, e por uma vez avançaram depressa.

Bran

A torre erguia-se numa ilha, com a gêmea refletida nas calmas águas azuis. Quando o vento soprava, ondulações deslocavam-se pela superfície do lago, perseguindo-se umas às outras como crianças brincando. Carvalhos cresciam densos ao longo das margens, um bosque cerrado com um tapete de bolotas caídas por baixo de seus ramos. Depois das árvores ficava a aldeia, ou aquilo que dela restava.

Era a primeira aldeia que viam desde que estiveram nos montes. Meera tinha batido o terreno em frente, para se certificar de que não havia ninguém escondido entre as ruínas. Caminhando com prudência entre carvalhos e macieiras, com sua rede e lança na mão, espantou três veados vermelhos e fez os animais fugirem aos saltos por entre a vegetação rasteira. Verão viu o movimento repentino e imediatamente partiu para perseguir os animais. Bran viu o lobo gigante afastar-se aos saltos, e, por um momento, não havia nada que desejasse mais do que enfiar-se na pele dele e correr junto, mas Meera estava acenando para que avançassem. Relutantemente, deu as costas ao Verão e disse a Hodor para prosseguir até a aldeia. Jojen acompanhou-os.

Bran sabia que o terreno dali até a Muralha era composto por pastagens, campos incultos e colinas baixas e onduladas, prados nas terras altas e brejos nas baixas. Progrediriam muito mais facilmente do que nas montanhas que tinham ficado para trás, mas tanto espaço aberto deixava Meera inquieta.

– Sinto-me nua – confessou. – Não há lugar para nos escondermos.

– De quem é esta terra? – perguntou Jojen a Bran.

– Da Patrulha da Noite – respondeu este. – Esta é a Dádiva. A Nova Dádiva, e a norte dela fica a Dádiva de Brandon. – Meistre Luwin ensinara-lhe a história. – Brandon, o Construtor, deu toda a terra a sul da Muralha aos irmãos negros, dentro de uma distância de vinte e cinco léguas. Para o seu... para o seu sustento e suporte. – Sentiu-se orgulhoso por ainda se lembrar daquela parte. – Alguns meistres dizem que foi outro Brandon qualquer, não o Construtor, mesmo assim é a Dádiva de Brandon. Milhares de anos mais tarde, a Boa Rainha Alysanne visitou a Muralha em seu dragão Asaprata e achou a Patrulha da Noite tão corajosa que levou o Velho Rei a duplicar o tamanho de suas terras, até cinquenta léguas. Portanto, essa foi a Segunda Dádiva. – Fez um gesto com a mão. – Aqui. Tudo isto.

Bran via que ninguém vivia na aldeia havia longos anos. Todas as casas estavam desabando. Até a estalagem. Nunca fora grande coisa como estalagem, pelo aspecto, mas agora tudo que dela restava era uma chaminé de pedra e duas paredes rachadas, erguidas no meio de uma dúzia de macieiras. Uma crescia no meio da sala comum, onde uma camada de úmidas folhas marrons e maçãs em putrefação atapetava o chão. O ar estava pesado, com o cheiro que elas exalavam, um odor nauseabundo de sidra que era quase sufocante. Meera apunhalou algumas maçãs com sua lança para rãs, tentando encontrar alguma que ainda estivesse boa para comer, mas estavam todas marrons e bichadas.

Era um ponto pacífico, calmo, tranquilo e bonito, mas Bran achou que havia tristeza numa estalagem vazia, e Hodor pareceu sentir isso também.

– Hodor? – disse ele, com um ar confuso. – Hodor? Hodor?

– Esta terra é boa. – Jojen pegou um punhado de solo, desfazendo-o entre os dedos. – Uma aldeia, uma estalagem, uma fortaleza robusta no lago, todas essas macieiras... mas onde estão as pessoas, Bran? Por que abandonariam um lugar como este?

– Tinham medo dos selvagens – disse Bran. – Os selvagens passam por cima da Muralha ou atravessam as montanhas, para fazer incursões, roubar e levar mulheres. Se pegam alguém, transformam seu crânio numa taça para beber sangue, costumava dizer a Velha Ama. A Patrulha da Noite não é tão forte como foi nos tempos de Brandon ou da Rainha Alysanne, por isso mais selvagens conseguem passar. Os lugares próximos da Muralha começaram a ser atacados com tanta frequência que o povo se mudou para o sul, para as montanhas ou para as terras dos Umber, a leste da estrada do rei. O povo do Grande-Jon também era atacado, mas não tanto quanto as pessoas que costumavam viver na Dádiva.

Jojen Reed virou a cabeça devagar, ouvindo uma música que só ele era capaz de ouvir.

– Temos de nos abrigar aqui. Vem aí uma tempestade. Uma das grandes.