Bran olhou para o céu. Tinha sido um belo, revigorante e cristalino dia de outono, ensolarado e quase quente, mas era verdade que agora surgiam nuvens escuras a oeste, e o vento parecia estar aumentando.
– Não há telhado na estalagem e só há as duas paredes em pé – ressaltou. – Deveríamos ir para a fortaleza.
– Hodor – disse Hodor. Talvez estivesse de acordo.
– Não temos barco, Bran. – Meera remexeu ociosamente as folhas com a lança para rãs.
– Há um caminho elevado na água. Um caminho de pedra, escondido sob a água. Podíamos chegar lá a pé. – Eles podiam, pelo menos; Bran teria de ir de cavalinho nos ombros de Hodor, mas pelo menos assim ficaria seco.
Os Reed trocaram um olhar.
– Como sabe disso? – perguntou Jojen. – Já esteve aqui, meu príncipe?
– Não. A Velha Ama me contou. A torre tem uma coroa dourada, está vendo? – Apontou para o edifício. Viam-se manchas de tinta dourada descascando por toda a volta, nas ameias. – A Rainha Alysanne dormiu ali, e por isso pintaram os merlões de dourado em sua honra.
– Um caminho elevado? – Jojen estudou o lago. – Tem certeza?
– Absoluta – disse Bran.
Meera encontrou o início com bastante facilidade, depois de saber o que procurar; um caminho de pedra, com um metro de largura, projetado diretamente para dentro do lago. Levou os outros passo a passo, com toda a cautela, testando o caminho com a lança para rãs. Eles viram o local onde o caminho voltava a emergir, saindo da água para a ilha e transformando-se num curto lance de degraus de pedra que levavam à porta da fortaleza.
Trilha, degraus e porta estavam dispostos em linha reta, o que levava a pensar que o caminho elevado seguia direto, mas não era assim. Sob o lago, ele ziguezagueava, rodeando um terço da ilha antes de fazer uma curva brusca para o outro lado. As curvas eram traiçoeiras, e o longo caminho significava que qualquer um que se aproximasse estaria exposto durante muito tempo a tiros de flecha vindos da torre. Além disso, as pedras escondidas estavam cobertas de lodo e eram escorregadias; por duas vezes, Hodor quase pisou em falso e gritou “HODOR!”, alarmado, antes de recuperar o equilíbrio. A segunda vez assustou fortemente Bran. Se Hodor caísse no lago com ele no cesto, podia muito bem se afogar, especialmente se o enorme cavalariço entrasse em pânico e se esquecesse de que Bran estava lá, como às vezes acontecia. Talvez devêssemos ter ficado na estalagem, debaixo da macieira, pensou, mas a essa altura era tarde demais.
Felizmente, não houve uma terceira vez, e a água nunca chegou a ultrapassar a cintura de Hodor, embora chegasse ao peito dos Reed. E não muito tempo depois estavam na ilha, subindo os degraus que levavam à fortaleza. A porta ainda era robusta, embora suas pesadas tábuas de carvalho tivessem se deformado com os anos e já não fosse possível fechá-la por completo. Meera abriu-a toda, fazendo as enferrujadas dobradiças de ferro gritar. O lintel era baixo.
– Abaixe, Hodor – disse Bran, e o cavalariço obedeceu, mas não o suficiente para evitar que Bran batesse a cabeça. – Isso doeu – protestou.
– Hodor – disse Hodor, endireitando-se.
Encontravam-se numa caixa-forte sombria, que mal tinha espaço para abrigar os quatro. Degraus esculpidos na parede interior da torre curvavam-se para cima à esquerda e para baixo à direita, por trás de grades de ferro. Bran olhou para cima e viu outra grade bem acima de sua cabeça. Um alçapão. Sentiu-se feliz por não haver ninguém agora lá em cima para despejar óleo fervente por cima deles.
As grades estavam trancadas, mas as barras de ferro encontravam-se vermelhas de ferrugem. Hodor agarrou a porta da esquerda e deu um puxão nela, grunhindo com o esforço. Nada aconteceu. Tentou empurrar, sem sucesso. Sacudiu as barras, chutou-as, empurrou-as com o ombro, chacoalhou-as e esmurrou as dobradiças com uma mão enorme até deixar o ar cheio de lascas de ferrugem, mas a porta de ferro não se movia. A que levava ao porão não se mostrou mais cooperante.
– Não há como entrar – disse Meera, encolhendo os ombros.
O alçapão ficava bem acima da cabeça de Bran, sentado ali em seu cesto às costas de Hodor. O garoto estendeu as mãos e agarrou-se às barras, para testá-las. Quando puxou para baixo, a grade desprendeu-se do teto, numa cascata de ferrugem e pedra esmigalhada.
– HODOR! – gritou Hodor. A pesada grade de ferro deu a Bran outra pancada na cabeça e caiu com estrondo junto aos pés de Jojen quando ele a afastou com as mãos.
Meera soltou uma gargalhada.
– Veja só, meu príncipe – disse –, você é mais forte do que Hodor. – Bran corou.
Com a grade fora do caminho, Hodor foi capaz de erguer Meera e Jojen através do alçapão escancarado. Os cranogmanos pegaram Bran pelos braços e puxaram-no também. Fazer Hodor entrar foi a parte difícil. Ele era pesado demais para os Reed o erguerem como tinham feito com Bran. Por fim, Bran disse-lhe para procurar algumas pedras grandes. Disso a ilha não tinha falta, e Hodor conseguiu empilhá-las até a altura suficiente para se agarrar às bordas esfareladas do alçapão e subir por ele.
– Hodor – ofegou em tom feliz, sorrindo para todos eles.
Viram-se num labirinto de pequenas celas, escuras e vazias, mas Meera explorou até encontrar o caminho de volta aos degraus. Quanto mais subiam, melhor era a luz; no terceiro andar a espessa parede exterior era perfurada por seteiras, o quarto tinha janelas de verdade e o quinto e último era um grande aposento redondo com portas em arco em três lados que se abriam para pequenas varandas de pedra. No quarto ao lado ficava uma latrina, empoleirada por cima de uma calha de escoamento que descarregava diretamente no lago.
Quando chegaram ao telhado, o céu estava completamente encoberto, e as nuvens para oeste mostravam-se negras. O vento soprava com tanta força que levantou o manto de Bran e fez com que ondulasse e batesse.
– Hodor – respondeu Hodor ao barulho.
Meera descreveu um círculo.
– Sinto-me quase uma gigante, aqui por cima do mundo.
– Há árvores no Gargalo que são duas vezes mais altas do que isto – lembrou-lhe o irmão.
– Sim, mas têm outras árvores em volta com a mesma altura – disse Meera. – O mundo no Gargalo é apertado, e o céu é muito menor. Aqui... sente este vento, irmão? E olhe como o mundo se tornou grande.
Era verdade, dali via-se a uma longa distância. A sul erguiam-se os sopés dos montes, com as montanhas cinzentas e verdes mais atrás. As planícies onduladas da Nova Dádiva estendiam-se a perder de vista em todas as outras direções.
– Tinha esperança de conseguirmos ver a Muralha daqui – disse Bran, desapontado. – Foi besteira, ainda devemos estar a cinquenta léguas de distância. – Só de falar nisso sentia-se cansado e com frio também. – Jojen, o que faremos quando chegarmos à Muralha? Meu tio contava sempre como ela é grande. Duzentos metros de altura, e tão espessa na base que os portões são como túneis abertos no gelo. Como é que vamos passar para ir à procura do corvo dos três olhos?
– Há castelos abandonados ao longo da Muralha, segundo ouvi dizer – respondeu Jojen. – Fortalezas construídas pela Patrulha da Noite, mas agora deixadas sem guarnição. Uma delas pode ser o caminho para passar.
A Velha Ama chamava-os de castelos fantasma. Uma vez, Meistre Luwin obrigara Bran a aprender o nome de todos os fortes ao longo da Muralha. Foi uma tarefa difícil; havia dezenove ao todo, embora não mais de dezessete tivessem tido, em algum momento, guarnição. No banquete dado por ocasião da visita do Rei Robert a Winterfell, Bran recitou os nomes para o tio Benjen, de leste para oeste e depois de oeste para leste. Benjen Stark riu e disse:
– Você os conhece melhor do que eu, Bran. Talvez devesse ser você o Primeiro Patrulheiro. Eu fico aqui no seu lugar. – Mas isso foi antes de Bran cair. Antes de ficar mutilado. Quando acordou aleijado de seu sono, o tio já tinha retornado para Castelo Negro.