Выбрать главу

Ela não era uma garotinha no sonho; era uma loba, enorme e poderosa, e quando emergiu de sob as árvores, diante deles, e lhes mostrou os dentes, num rosnido grave e trovejante, sentiu o fedor repulsivo do medo que exalavam tanto os cavalos como os homens. A montaria do liseno empinou-se e berrou o seu terror, e os outros gritaram uns para os outros em fala humana, mas, antes de terem tempo de agir, outros lobos saíram apressadamente da escuridão e da chuva, uma grande matilha, lúgubre, molhada e silenciosa.

A luta foi rápida mas sangrenta. O homem peludo caiu no momento em que puxava o machado, o escuro morreu encaixando uma flecha no arco, e o homem pálido de Lys tentou fugir. Os irmãos e as irmãs dela caçaram-no e apanharam-no, fazendo-o virar uma vez e mais uma, caindo sobre ele por todos os lados, abocanhando as pernas de seu cavalo e rasgando a garganta do cavaleiro quando ele se estatelou na terra.

Só o homem com os sinos deu luta. O cavalo escoiceou uma de suas irmãs na cabeça, e ele cortou outra quase ao meio, com sua garra curva e prateada, enquanto seus cabelos tilintavam baixinho.

Cheia de raiva, Arya saltou sobre as costas dele, derrubando-o da sela, de cabeça. O maxilar se fechou em seu braço durante a queda, com os dentes afundando através do couro, da lã e da carne macia. Quando chegaram ao chão, ela deu uma violenta sacudida com a cabeça e arrancou o membro. Exultante, abanou-o de um lado para o outro na boca, espalhando as mornas gotículas vermelhas pela fria chuva negra.

Tyrion

Acordou com o rangido de velhas dobradiças de ferro.

– Quem? – coaxou. Pelo menos recuperara a voz, por mais áspera e rouca que fosse. A febre ainda o acompanhava, e Tyrion não fazia ideia de que horas seriam. Quanto tempo teria dormido daquela vez? Estava tão fraco, tão abominavelmente fraco. – Quem? – chamou de novo, com mais força. Luz de tochas derramava-se através da porta aberta, mas, dentro do aposento, a única luz vinha do toco de uma vela pousada ao lado de sua cama.

Quando viu uma silhueta aproximando-se, Tyrion estremeceu. Ali, na Fortaleza de Maegor, todos os criados eram pagos pela rainha, e por isso qualquer visitante podia ser outra das marionetes de Cersei, enviada para acabar o serviço que Sor Mandon tinha começado.

Então o homem surgiu à luz da vela, olhou bem para o rosto pálido do anão e soltou uma gargalhada.

– Cortou-se fazendo a barba, foi?

Os dedos de Tyrion subiram à grande ferida que ia de uma sobrancelha até o maxilar, atravessando o que lhe restava de nariz. A carne esponjosa ainda estava dolorida e quente ao toque.

– Com uma navalha terrivelmente grande, sim.

Os cabelos negros como carvão de Bronn tinham sido recém-lavados e escovados para trás, deixando à mostra os traços duros de seu rosto, e ele trajava botas de cano alto, feitas de couro macio e trabalhado, um cinto largo incrustado de pepitas de prata e um manto de seda verde-clara. Na lã cinza-escura de seu gibão, uma corrente em chamas estava bordada em diagonal com fio verde brilhante.

– Onde tem estado? – perguntou-lhe Tyrion. – Mandei chamá-lo... deve ter sido há uma quinzena.

– Quatro dias está mais perto da verdade – disse o mercenário. – Já estive aqui duas vezes e encontrei-o morto para o mundo.

– Morto, não. Embora minha querida irmã tenha tentado. – Talvez não devesse ter dito aquilo em voz alta, mas Tyrion já não se importava. Cersei estava por trás da tentativa de Sor Mandon de matá-lo, sabia disso em seu âmago. – O que é essa coisa feia em seu peito?

Bronn deu um sorriso.

– Meu símbolo de cavaleiro. Uma corrente flamejante, verde sobre cinza-fumo. Por ordem do senhor seu pai, agora sou Sor Bronn da Água Negra, Duende. Veja se não se esqueça disso.

Tyrion apoiou as mãos no colchão de penas e inclinou-se alguns centímetros para trás, de encontro às almofadas.

– Quem lhe prometeu um grau de cavaleiro fui eu, lembra? – não tinha gostado nada daquele “por ordem do senhor seu pai”. Lorde Tywin não perdera tempo. Mudar o filho da Torre da Mão para reclamá-la para si era uma mensagem que qualquer um podia entender, e esta era outra. – Eu perco metade do nariz e você ganha um grau de cavaleiro. Os deuses têm bastante coisa a responder. – A voz era amarga. – Meu pai armou-o pessoalmente?

– Não. Aqueles de nós que sobrevivemos à luta nas torres do guincho fomos ungidos pelo Alto Septão e armados pela Guarda Real. Levou metade do maldito dia, tendo só três das Espadas Brancas para conduzir as cerimônias.

– Já sabia que Sor Mandon morreu na batalha. – Atirado ao rio por Pod, meio segundo antes de o traiçoeiro filho da mãe conseguir enfiar a espada em meu coração. – Quem mais perdemos?

– O Cão de Caça – disse Bronn. – Não morreu, só desapareceu. Os homens de manto dourado dizem que se acovardou e você liderou uma surtida no lugar dele.

Não foi uma de minhas melhores ideias. Tyrion sentiu o tecido da cicatriz repuxar quando franziu a testa. Com um gesto, indicou uma cadeira a Bronn.

– Minha irmã confundiu-me com um cogumelo. Mantém-me no escuro e alimenta-me com merda. Pod é um bom rapaz, mas o nó que tem na língua é do tamanho do Rochedo Casterly, e não confio em metade do que me diz. Mandei-o buscar Sor Jacelyn e ele voltou dizendo que está morto.

– Ele e milhares de outros – Bronn sentou-se.

– Como? – quis saber Tyrion, sentindo-se bastante mais doente.

– Durante a batalha. Segundo a história que eu tenho ouvido, sua irmã mandou os Kettleblack buscarem o rei e levarem-no de volta para a Fortaleza Vermelha. Quando os homens de manto dourado o viram partir, metade decidiu partir com ele. O Mão de Ferro barrou o caminho e tentou ordenar-lhes que voltassem para as muralhas. Dizem que Bywater estava passando um sermão dos bons neles e os tinha quase prontos a voltar quando alguém espetou uma flecha no pescoço dele. Então ele já não parecia lá muito temível, e derrubaram-no do cavalo e mataram-no.

Outra dívida a depositar na porta de Cersei.

– Meu sobrinho – disse –, Joffrey. Ele correu algum perigo?

– Não mais do que alguns, e menos do que a maioria.

– Sofreu algum dano? Foi ferido? Despenteou-se, deu uma topada com o dedão do pé, quebrou uma unha?

– Que eu saiba, não.

– Preveni Cersei do que aconteceria. Quem comanda agora os homens de manto dourado?

– O senhor seu pai entregou-os a um de seus homens do ocidente, um cavaleiro qualquer chamado Addam Marbrand.

Na maioria das circunstâncias os homens de manto dourado iriam se ressentir de ter um forasteiro acima deles, mas Sor Addam Marbrand era uma escolha judiciosa. Tal como Jaime, era o tipo de homem que os outros gostavam de seguir. Perdi a Patrulha da Cidade.

– Mandei Pod à procura de Shagga, mas ele não teve sorte.

– Os Corvos de Pedra ainda estão na mata do rei. Shagga parece ter pegado gosto pelo local. Timett levou os Homens Queimados para casa, com todo o saque que arranjaram no acampamento de Stannis depois da luta. Chella apareceu uma manhã no Portão da Água com uma dúzia de Orelhas Negras, mas os homens de manto vermelho de seu pai botaram-nos para correr enquanto os portorrealenses atiravam bosta e aplaudiam.

Ingratos. Os Orelhas Negras morreram por eles. Enquanto Tyrion estivera drogado e sonhando, seu próprio sangue tinha colocado, uma a uma, as garras de fora.

– Quero que vá até minha irmã. Seu precioso filho sobreviveu incólume à batalha, de modo que Cersei já não tem necessidade de um refém. Jurou libertar Alayaya assim que...

– Libertou. Há oito, nove dias, depois das chicotadas.