– Harma e Saco de Ossos não fazem incursões em busca de peixe e maçãs. Roubam espadas e machados. Especiarias, sedas e peles. Arrecadam todas as moedas, anéis e taças incrustadas de joias que conseguem encontrar, barris de vinho no verão e barris de carne no inverno, e roubam mulheres em todas as estações e levam-nas para lá da Muralha.
– E daí se fazem isso? Cá pra mim, é melhor ser raptada por um homem forte do que ser dada a algum fracote pelo meu pai.
– É o que você diz, mas como é que sabe? E se fosse raptada por alguém que detestasse?
– Ele teria de ser rápido, astuto e bravo pra me raptar. Assim, nossos filhos também seriam fortes e espertos. Por que é que eu ia detestar um homem assim?
– Pode ser que ele nunca se lave, e cheire tão mal como um urso.
– Nesse caso, eu o empurraria pra dentro de um riacho ou atiraria um balde d’água nele. Seja como for, os homens não devem cheirar bem como flores.
– O que as flores têm de errado?
– Nada, pra uma abelha. Pra cama, eu quero um destes. – Ygritte tentou agarrar a parte da frente dos calções de Jon.
Este agarrou o pulso dela.
– E se o homem que a raptasse bebesse demais? – insistiu. – E se fosse brutal ou cruel? – Apertou com mais força, para dar peso ao argumento. – E se fosse mais forte do que você e gostasse de espancá-la até deixá-la em carne viva?
– Cortava a goela dele quando estivesse dormindo. Você não sabe nada, Jon Snow. – Ygritte retorceu-se como uma enguia e libertou-se dele.
Sei uma coisa. Sei que você é selvagem até os ossos. Às vezes era fácil se esquecer disso, quando estavam rindo juntos, ou beijando-se. Mas então um deles diria alguma coisa ou faria algo, e ele subitamente se lembraria da muralha que se erguia entre seus mundos.
– Um homem pode ser dono de uma mulher ou pode ser dono de uma faca – disse-lhe Ygritte –, mas nenhum homem pode ser dono das duas coisas. Todas as meninas aprendem isso com as mães. – Ergueu o queixo em desafio e sacudiu os espessos cabelos ruivos. – E os homens não podem ser donos da terra, como não podem ser donos do mar ou do céu. Vocês, os ajoelhadores, pensam que são, mas o Mance vai mostrar outra coisa a vocês.
Era uma vanglória bela e corajosa, mas soava vazia. Jon deu um olhar de relance para trás, a fim de se certificar de que o Magnar não pudesse ouvi-lo. Errok, o Grande Furúnculo, e o Dan de Cânhamo caminhavam alguns metros atrás deles, mas não estavam prestando atenção na discussão. O Grande Furúnculo se queixava do traseiro.
– Ygritte – disse em voz baixa –, Mance não pode ganhar esta guerra.
– Claro que pode! – insistiu ela. – Você não sabe nada, Jon Snow. Nunca viu o povo livre lutar!
Os selvagens lutavam como heróis ou demônios, dependendo de quem contava a história, mas no fim das contas acabava dando no mesmo. Eles lutam com uma coragem intrépida, com todos os homens em busca de glória.
– Não duvido de que sejam todos muito corajosos, mas quando chega a hora da batalha, a disciplina sempre vence o valor. No fim, Mance falhará, como todos os Reis-para-lá-da-Muralha antes dele. E quando isso acontecer, morrerão. Todos vocês.
Ygritte pareceu tão zangada que Jon pensou que ela fosse bater nele.
– Todos nós – disse. – Você também. Agora já não é um corvo, Jon Snow. Eu jurei que não era, portanto é melhor não ser. – Empurrou-o contra o tronco de uma árvore e beijou-o em cheio nos lábios, bem ali, no meio da coluna desordenada. Jon ouviu Grigg, o Bode, dizer-lhe para continuar andando. Outra pessoa soltou uma gargalhada. Ele devolveu o beijo, apesar de tudo. Quando enfim se separaram, Ygritte estava corada. – É meu – sussurrou. – Meu, como eu sou sua. E se morrermos, morremos. Todos os homens têm de morrer, Jon Snow. Mas, primeiro, vivemos.
– Sim. – A voz de Jon estava pesada. – Primeiro vivemos.
Ela sorriu ao ouvir aquilo, mostrando-lhe os dentes tortos que ele, sem saber como, acabara amando. Selvagem até o osso, pensou de novo, com uma sensação doentia e triste na boca do estômago. Dobrou os dedos da mão da espada e perguntou a si mesmo o que Ygritte faria se soubesse o que se passava em seu coração. Ela o trairia caso se sentasse com ela e lhe dissesse que ainda era filho de Ned Stark e um homem da Patrulha da Noite? Esperava que não, mas não se atrevia a correr esse risco. Vidas demais dependiam de sua capacidade para chegar a Castelo Negro antes do Magnar... partindo do princípio de que encontraria uma oportunidade de fugir dos selvagens.
Tinham descido a face sul da Muralha em Guardagris, um castelo abandonado havia duzentos anos. Uma seção dos enormes degraus de pedra tinha ruído havia um século, mesmo assim a descida foi bastante mais fácil do que a subida. Dali, Styr levou-os para o interior profundo da Dádiva, para evitar as habituais patrulhas dos homens de negro. Grigg, o Bode, guiou-os ao redor do punhado de aldeias habitadas que restavam naquelas terras. Além de umas poucas torres redondas que se projetavam para o céu como dedos de pedra, não viram sinal de homens. Marcharam por colinas úmidas e planícies ventosas, sem serem vigiados, sem serem vistos.
Não pode se recusar, não importa o que lhe seja solicitado, tinha dito o Meia-Mão. Cavalgue com eles, coma com eles, lute com eles, durante o tempo que for preciso. E ele cavalgara, ao longo de muitas léguas, e caminhara mais ainda, partilhara o pão e o sal deles e também as mantas de Ygritte, mas ainda assim não confiavam nele. Os Thenn observavam-no noite e dia, alertas a qualquer sinal de traição. Não conseguia se afastar, e logo seria tarde demais.
Lute com eles, disse Qhorin, antes de entregar a vida à Garralonga... mas ainda não havia chegado a esse ponto. Assim que derramar o sangue de um irmão, estou perdido. Então atravesso a Muralha para sempre, e não há caminho de volta.
Após a marcha de cada dia, o Magnar chamava-o para fazer perguntas astutas e perspicazes sobre Castelo Negro, sua guarnição e suas defesas. Jon mentia naquilo que se atrevia e às vezes fingia ignorância, mas Grigg, o Bode, e Errok também estavam ouvindo e eles sabiam o suficiente para deixar Jon cauteloso. Uma mentira evidente demais poderia traí-lo.
Mas a verdade era terrível. Castelo Negro não tinha defesas além da própria Muralha. Nem sequer possuía paliçadas de madeira ou diques de terra. O “castelo” nada mais era do que um aglomerado de torres e fortalezas, dois terços das quais estavam quase em ruínas. Quanto à guarnição, o Velho Urso levara duzentos homens em sua incursão. Teria algum regressado? Jon não tinha como saber. Talvez restassem quatrocentos no castelo, mas a maior parte desses homens era de construtores ou intendentes, não patrulheiros.
Os Thenns eram guerreiros tarimbados, e mais disciplinados do que um selvagem comum; fora sem dúvida por isso que Mance os escolhera. Os defensores de Castelo Negro incluiriam o cego Meistre Aemon e seu intendente meio cego Clydas, o Donal Noye, que não tinha um braço, o bêbado do Septão Cellador, Dick Surdo Follard, o cozinheiro Hobb Três-Dedos, o velho Sor Wynton Stout, bem como Halder, Sapo, Pyp, Albett e o resto dos rapazes que tinham treinado com Jon. E no comando deles estaria Bowen Marsh, com seu rosto vermelho, o rechonchudo Senhor Intendente que fora nomeado castelão na ausência de Lorde Mormont. Às vezes, Edd Doloroso chamava Marsh de “Velha Romã”, o que se adequava a ele tão bem quanto “Velho Urso” se ajustava a Mormont.
– Ele é o homem que você quer na liderança quando os inimigos estão em campo – dizia Edd com sua habitual voz severa. – Ele vai contá-los direitinho por você. É um autêntico demônio para as contas, esse.