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– Viu? – perguntou Jon enquanto o som rolava para longe e a noite ficava negra novamente. – Percebeu?

– Amarelo – disse ela. – É isso o que quer dizer? Algumas daquelas pedras em pé lá em cima são amarelas.

– Chamamos de merlões. Foram pintadas de dourado há muito tempo. Isto é Coroadarrainha.

Do outro lado do lago, a torre estava negra novamente, uma silhueta tênue, tenuemente entrevista.

– Uma rainha vivia aqui? – perguntou Ygritte.

– Uma rainha passou uma noite aqui. – Foi a Velha Ama que tinha lhe contado a história, mas Meistre Luwin confirmou a maior parte dela. – Alysanne, a esposa do Rei Jaehaerys, o Conciliador. Ele é chamado de Velho Rei por ter reinado durante muito tempo, mas era jovem quando subiu ao Trono de Ferro. Naquela época, era seu costume viajar por todo o reino. Quando veio a Winterfell, trouxe a sua rainha, seis dragões e metade da corte. O rei tinha assuntos a discutir com o seu Protetor do Norte, e Alysanne ficou entediada, por isso montou em seu dragão Asaprata e voou para o norte, a fim de ver a Muralha. Esta aldeia foi um dos lugares onde parou. Mais tarde, o povo pintou o topo de sua fortaleza para se parecer com a coroa de ouro que ela usava quando tinha passado a noite entre eles.

– Nunca vi um dragão.

– Ninguém viu. Os últimos dragões morreram há cem anos ou mais. Mas isso foi há mais tempo.

– A Rainha Alysanne, você diz?

– A Boa Rainha Alysanne, como a chamaram mais tarde. Um dos castelos da Muralha também foi batizado em sua honra. Portão da Rainha. Antes de sua visita, chamavam-no de Portão da Neve.

– Se era assim tão boa, devia ter derrubado aquela Muralha.

Não, pensou ele. A Muralha protege o reino. Dos Outros... e também de você e dos seus, querida.

– Tive outro amigo que também sonhava com dragões. Um anão. Ele disse...

JON SNOW! – um dos Thenns encontrava-se em pé junto deles, de testa franzida. – Magnar quer. – Jon achou que podia ser o mesmo homem que o encontrara na porta da gruta na noite anterior à escalada da Muralha, mas não tinha certeza. Ficou em pé. Ygritte veio com ele, o que sempre fazia Styr franzir a testa, mas toda vez que tentava mandá-la embora, ela lembrava-lhe que era uma mulher livre, não uma ajoelhadora. Ia e vinha conforme lhe apetecia.

Foram encontrar o Magnar em pé, embaixo da árvore que crescia no chão da sala comum da estalgem. Seu prisioneiro estava ajoelhado diante da lareira, cercado por lanças de madeira e espadas de bronze. Observou a aproximação de Jon, mas nada disse. A chuva corria pelas paredes e tamborilava nas poucas folhas que ainda se prendiam à árvore, enquanto a fumaça subia rodopiando, densa, da fogueira.

– Ele tem de morrer – disse Styr, o Magnar. – Trate disso, corvo.

O velho não proferiu uma palavra. Limitou-se a olhar para Jon, que estava entre os selvagens. Por entre a chuva e a fumaça, iluminado apenas pelo fogo, não podia ter visto que Jon estava todo vestido de negro exceto pelo manto de pele de ovelha. Ou podia?

Jon tirou Garralonga da bainha. A chuva lavou o aço e a luz da fogueira traçou uma lúgubre linha alaranjada ao longo do gume. Uma fogueira tão pequena para custar a vida de um homem. Recordou o que Qhorin Meia-Mão havia dito quando avistaram a fogueira no Passo dos Guinchos. O fogo é vida aqui em cima, disse-lhes, mas também pode ser morte. Mas aquilo fora nas alturas das Presas de Gelo, nas regiões bravias e sem lei para lá da Muralha. Isso era a Dádiva, protegida pela Patrulha da Noite e pelo poderio de Winterfell. Um homem devia ser livre para acender ali uma fogueira sem morrer por isso.

– Por que hesita? – disse Styr. – Mate-o e acabou.

Mesmo então, o cativo não falou. Podia ter dito “Misericórdia”, ou “Roubou-me o cavalo, o dinheiro, a comida, deixe-me ficar com a vida”, ou “Não, por favor, não lhe fiz nenhum mal”. Podia ter dito mil coisas, ou chorado, ou apelado aos seus deuses. Mas nenhuma palavra poderia salvá-lo agora. Ele talvez soubesse disso. Portanto, manteve a língua sob controle e olhou para Jon, com acusação e súplica no olhar.

Não pode se recusar, não importa o que lhe seja solicitado. Cavalgue com eles, coma com eles, lute com eles... Mas esse velho não tinha oferecido resistência. Teve azar, nada mais. Quem era, de onde viera, onde queria chegar em seu pobre cavalo de dorso muito curvo... nada disso importava.

Ele é um velho, disse Jon a si mesmo. Tem cinquenta anos, talvez sessenta. Viveu uma vida mais longa do que a maioria dos homens. Os Thenns acabarão matando-o de qualquer forma, nada do que eu diga ou faça poderá salvá-lo. Garralonga parecia mais pesada do que chumbo em sua mão, pesada demais para erguer. O homem não parava de encará-lo, com olhos grandes e negros como poços. Vou cair naqueles olhos e me afogar. O Magnar também estava a olhá-lo, e Jon quase conseguia sentir o gosto de sua desconfiança. O homem está morto. Que importa que seja a minha mão a matá-lo? Um golpe resolveria o assunto, rápida e limpamente. Garralonga tinha sido forjada com aço valiriano. Tal como Gelo. Jon recordou outra morte; o desertor de joelhos, com a cabeça rolando, o tom vivo do sangue na neve... a espada do pai, as palavras do pai, o rosto do pai...

– Vá, Jon Snow – insistiu Ygritte. – Precisa matá-lo. Pra provar que não é um corvo, e sim um membro do povo livre.

– Um velho sentado junto a uma fogueira?

– O Orel tam’ém tava sentado junto a uma fogueira. E você o matou bem depressa. – O olhar que ela lhe lançou então foi duro. – E tam’ém queria me matar até ver que eu era uma mulher. E eu tava dormindo.

– Isso foi diferente. Vocês eram soldados... sentinelas.

– Sim, e os corvos não queriam ser vistos. É como a gente agora. É a mesma coisa. Mate-o.

Jon deu as costas ao homem.

– Não.

O Magnar aproximou-se, alto, frio, perigoso.

– Eu disse que sim. Sou eu quem comanda aqui.

– Você comanda os Thenns – disse-lhe Jon –, não o povo livre.

– Não vejo povo livre nenhum. Vejo um corvo e uma mulher de corvo.

– Eu não sou mulher de corvo coisa nenhuma! – Ygritte arrancou a faca de dentro da bainha. Três passos rápidos e puxou pelos cabelos a cabeça do velho para trás e abriu sua garganta de orelha a orelha. Nem mesmo na morte o homem gritou. – Você não sabe nada, Jon Snow – gritou-lhe e atirou a faca ensanguentada aos pés dele.

O Magnar disse qualquer coisa no Idioma Antigo. Podia estar mandando os Thenns matarem Jon ali mesmo, mas ele nunca saberia se isso era verdade. Um relâmpago tombou do céu, um imenso raio azul-esbranquiçado que atingiu o topo da torre do lago. Conseguiram cheirar sua fúria, e quando o trovão chegou, pareceu sacudir a noite.

E a morte saltou para o meio deles.

O relâmpago tinha ofuscado a visão de Jon, mas ele conseguiu vislumbrar a sombra que se movia a grande velocidade meio segundo antes de ouvir o guincho. O primeiro Thenn morreu como o velho, com sangue jorrando de sua garganta rasgada. Então a luz desapareceu e a silhueta estava de novo girando, rosnando, e outro homem caiu na escuridão. Houve imprecações, gritos, uivos de dor. Jon viu Grande Furúnculo tropeçar e cair para trás, derrubando três homens. Fantasma, pensou, durante um louco instante. O Fantasma saltou a Muralha. Então o relâmpago transformou a noite em dia, e viu o lobo que estava em pé sobre o peito de Del, com sangue escorrendo, negro, de suas mandíbulas. Cinza. Ele é cinza.