A escuridão caiu com o trovão. Os Thenns estavam dando estocadas com as lanças enquanto o lobo voava entre eles. A égua do velho empinou-se, enlouquecida pelo cheiro do massacre e atacou furiosamente com os cascos. Garralonga continuava em sua mão. E, de repente, Jon Snow percebeu que nunca teria uma oportunidade melhor.
Abateu o primeiro homem quando se virou para o lobo, passou por um segundo com um empurrão, golpeou um terceiro. Em meio àquela loucura, ouviu alguém chamar seu nome, mas se foi Ygritte ou o Magnar não soube dizer. O Thenn que lutava para controlar o cavalo nem chegou a vê-lo. Garralonga era leve como uma pena. Brandiu-a contra a barriga da perna do homem e sentiu o aço enterrar-se até o osso. Quando o selvagem caiu, a égua fugiu, mas, sem saber como, Jon conseguiu se agarrar à crina com a mão esquerda e saltar para o dorso dela. Uma mão fechou-se em volta de seu tornozelo, e ele deu um golpe para baixo e viu o rosto de Bodger dissolver-se numa balbúrdia de sangue. O cavalo empinou-se, escoiceando para a frente. Um dos cascos atingiu o Thenn na têmpora, com um crunch.
E então estavam a galope. Jon não fez qualquer esforço para guiar o cavalo. Precisou de todas as suas forças para se manter em cima dele enquanto mergulhavam através da lama, da chuva e dos trovões. Mato úmido chicoteava seu rosto e uma lança passou voando junto à sua orelha. Se o cavalo tropeça e quebra uma pata, apanham-me e matam-me, pensou, mas os deuses antigos acompanharam-no e o cavalo não tropeçou. O relâmpago estremeceu através da cúpula negra do céu e o trovão rolou pelas planícies. Os gritos reduziram-se e morreram atrás de Jon.
Longas horas mais tarde, a chuva parou. Jon deu por si sozinho, num mar de mato alto e negro. Havia uma profunda dor latejante em sua coxa direita. Quando olhou para baixo, ficou surpreendido por ver uma flecha espetada na parte de trás da coxa. Quando foi que isso aconteceu? Agarrou a haste e deu um puxão, mas a ponta da flecha estava profundamente enterrada na carne de sua perna, e a dor quando a puxou foi insuportável. Tentou pensar na loucura na estalagem, mas tudo que conseguiu recordar foi o animal, esguio, cinza e terrível. Era grande demais para ser um lobo comum. Um lobo gigante, portanto. Tinha de ser. Nunca tinha visto um animal mover-se tão depressa. Como um vento cinzento... Poderia Robb ter retornado ao Norte?
Jon sacudiu a cabeça. Não tinha respostas. Era difícil demais pensar... sobre o lobo, o velho, Ygritte, tudo aquilo...
Desajeitadamente deslizou de cima da égua. A perna ferida cedeu sob seu corpo, e ele teve de engolir um grito. Isso vai ser uma agonia. Mas a flecha tinha de sair, e esperar apenas pioraria a situação. Jon colocou a mão em volta das penas, respirou fundo e empurrou a flecha para a frente. Soltou um grunhido e depois um xingamento. Doeu tanto que teve de parar. Estou sangrando como um porco na matança, pensou, mas não havia nada a fazer até que a flecha saísse. Fez uma careta e voltou a tentar... e depressa voltou a parar, tremendo. Tentou novamente. Daquela vez gritou, mas, quando terminou, a ponta da flecha espetava a parte da frente da coxa. Jon comprimiu contra a perna os calções ensanguentados a fim de conseguir pegar melhor na flecha, fez um esgar e puxou lentamente a haste através da perna. Nunca soube como conseguiu terminar aquilo sem desmaiar.
Depois ficou deitado no chão, agarrado ao seu troféu e sangrando calmamente, fraco demais para se mover. Algum tempo depois compreendeu que, caso não se forçasse a se mover, provavelmente sangraria até a morte. Jon rastejou na direção do riacho raso onde a égua matava a sede, lavou a coxa na água fria e apertou-a bem com uma faixa de tecido arrancada do manto. Lavou também a flecha, virando-a nas mãos. As penas eram cinzentas ou brancas? Ygritte usava penas de ganso cinza-claras nas flechas. Terá disparado uma flecha contra mim quando eu fugi? Jon não podia culpá-la por isso. Perguntou a si mesmo se teria apontado para ele ou para o cavalo. Se a égua tivesse caído, estaria condenado.
– Sorte que a minha perna se pôs no caminho – murmurou.
Descansou por algum tempo, para deixar a égua pastar. O animal não vagueou até longe. Isso era bom. Coxo, com uma perna em mau estado, nunca teria conseguido apanhá-la. Precisou de todas as suas forças para se obrigar a ficar em pé e subir ao dorso do animal. Como foi que a montei antes, sem sela nem estribos, e de espada na mão? Essa era outra questão que não conseguia responder.
Um trovão ribombou a distância, mas, por cima de sua cabeça, as nuvens estavam se abrindo. Jon perscrutou o céu até encontrar o Dragão de Gelo e depois virou a égua para o norte, na direção da Muralha e de Castelo Negro. As pulsações de dor no músculo da coxa fizeram-no estremecer quando bateu os calcanhares no cavalo do velho. Vou para casa, disse a si mesmo. Mas se isso era verdade por que se sentia tão vazio?
Cavalgou até de madrugada, enquanto as estrelas olhavam para baixo como se fossem olhos.
Daenerys
Seus batedores dothraki tinham-lhe dito como era, mas Dany queria ver por si mesma. Sor Jorah Mormont atravessou com ela, a cavalo, uma floresta de vidoeiros e subiu uma íngreme cumeeira de arenito.
– Estamos suficientemente próximos – avisou-a ao chegar ao topo.
Dany freou a égua e olhou por sobre os campos, para o local onde a tropa de Yunkai atravessava seu caminho. Barba-Branca andara ensinando-lhe a melhor forma de estimar os números de um inimigo.
– Cinco mil – disse, passado um momento.
– Diria que sim. – Sor Jorah apontou. – Aqueles nos flancos são mercenários. Lanceiros e arqueiros a cavalo, com espadas e machados para o trabalho de proximidade. Os Segundos Filhos na ala esquerda, os Corvos Tormentosos na direita. Cerca de quinhentos homens cada. Vê os estandartes?
A harpia de Yunkai agarrava um chicote e uma coleira de ferro em vez de uma corrente. Mas os mercenários hasteavam os próprios estandartes por baixo dos da cidade que serviam: do lado direito, quatro corvos entre relâmpagos cruzados; do esquerdo, uma espada quebrada.
– São os próprios yunkaitas que constituem o centro – destacou Dany. A distância, seus oficiais eram indistinguíveis dos de Astapor; elmos altos e brilhantes e mantos revestidos de cintilantes discos de cobre. – Os soldados que lideram são escravos?
– Em grande parte. Mas não se igualam aos Imaculados. Yunkai é conhecida por treinar escravos de cama, não soldados.
– O que acha? Podemos derrotar este exército?
– Facilmente – disse Sor Jorah.
– Mas não sem sangue. – Grande quantidade de sangue empapou os tijolos de Astapor quando a cidade caiu, embora pouco dele pertencesse a ela ou aos seus. – Podemos ganhar aqui uma batalha, mas a um custo que talvez não nos permita tomar a cidade.
– Esse é sempre um risco, khaleesi. Astapor estava complacente e vulnerável. Yunkai está prevenida.
Dany refletiu. A tropa dos senhores de escravos parecia pequena comparada com a sua, mas os mercenários estavam montados. Viajara tempo demais com os dothraki para não ter um saudável respeito por aquilo que guerreiros a cavalo podiam fazer à infantaria. Os Imaculados poderiam aguentar a carga deles, mas os meus libertados seriam massacrados.
– Os senhores de escravos gostam de falar – disse. – Envie uma mensagem dizendo que os receberei esta noite em minha tenda. E convide também os comandantes das companhias mercenárias para uma visita. Mas não juntos. Os Corvos Tormentosos ao meio-dia, e os Segundos Filhos duas horas mais tarde.
– Às suas ordens – disse Sor Jorah. – Mas se não vierem...
– Virão. Terão curiosidade de ver os dragões e de ouvir o que eu tenho para dizer, e os que forem inteligentes verão aí uma oportunidade para avaliar as minhas forças. – Fez a égua prateada dar meia-volta. – Vou esperá-los em meu pavilhão.