– Mulher, você zurra como um burro, e não faz mais sentido do que ele.
– Mulher? – Dany soltou um risinho. – Isso foi um insulto? Eu daria o troco, se o julgasse um homem. – Dany enfrentou o olhar do mercenário. – Sou Daenerys Filha da Tormenta da Casa Targaryen, a Não Queimada, Mãe de Dragões, khaleesi dos cavaleiros de Drogo e rainha dos Sete Reinos de Westeros.
– O que você é – disse Prendahl na Ghezn – é uma puta de um senhor dos cavalos. Quando vencermos, será dada ao meu garanhão para que ele monte em você.
Belwas, o Forte, puxou o arakh.
– Belwas, o Forte, dá a feia língua dele à pequena rainha, se ela quiser.
– Não, Belwas. Dei a estes homens salvo-conduto. – Sorriu. – Diga-me o seguinte: os Corvos Tormentosos são escravos ou homens livres?
– Somos uma irmandade de homens livres – declarou Sallor.
– Ótimo. – Dany pôs-se em pé. – Nesse caso, volte e conte aos seus irmãos o que lhe disse. Pode ser que alguns deles prefiram se alimentar de ouro e glória do que de morte. Vou querer a sua resposta de manhã.
Os capitães dos Corvos Tormentosos levantaram-se simultaneamente.
– A nossa resposta é não – disse Prendahl na Ghezn. Os companheiros seguiram-no para fora da tenda... mas, ao sair, Daario Naharis olhou de relance para trás e inclinou a cabeça numa despedida polida.
Duas horas mais tarde o comandante dos Segundos Filhos chegou sozinho. Revelou-se um bravosi muito alto, com olhos verde-claros e uma espessa barba vermelha e dourada que quase chegava ao seu cinto. Seu nome era Mero, mas se autodenominava Bastardo do Titã.
Mero entornou imediatamente o vinho, limpou a boca com as costas da mão e olhou de esguelha para Dany.
– Acho que fodi a sua irmã gêmea numa casa do prazer lá na terra. Ou era você?
– Penso que não. Eu me lembraria de um homem de tal magnificência, sem dúvida.
– Sim, é verdade. Nunca nenhuma mulher alguma vez esqueceu o Bastardo do Titã. – O bravosi estendeu a taça para Jhiqui. – Que acha de tirar essa roupa e vir sentar no meu colo? Se me der prazer, posso trazer os Segundos Filhos para o seu lado.
– Se trouxer os Segundos Filhos para o meu lado, posso não mandar capá-lo.
O grandalhão soltou uma gargalhada.
– Garotinha, houve outra mulher, uma vez, que tentou me capar com os dentes. Agora não tem dentes, mas a minha espada é tão longa e grossa quanto sempre foi. Quer que a tire para fora e a mostre?
– Não há necessidade. Depois que os meus eunucos a cortarem, posso examiná-la quando bem entender. – Dany bebeu um gole de vinho. – É verdade que sou apenas uma garotinha, e não conheço as coisas da guerra. Explique-me como pretende derrotar dez mil Imaculados com os seus quinhentos homens. Inocente como sou, suas chances parecem-me fracas.
– Os Segundos Filhos enfrentaram condições piores e ganharam.
– Os Segundos Filhos enfrentaram situações piores e fugiram. Em Qohor, quando os Três Mil defenderam a sua posição. Ou será que nega isso?
– Isso foi há muitos anos e, além disso, antes de os Segundos Filhos serem liderados pelo Bastardo do Titã.
– Então é em você que eles arranjam coragem? – Dany virou-se para Sor Jorah. – Quando a batalha começar, mate este primeiro.
O cavaleiro exilado sorriu.
– De bom grado, Vossa Graça.
– Claro – disse a Mero –, poderia voltar a fugir. Não o impediríamos. Pegue o seu ouro de Yunkai e parta.
– Se já tivesse visto o Titã de Bravos, garota tonta, saberia que não tem rabo para meter entre as pernas.
– Então fique e lute por mim.
– É verdade que valeria a pena lutar por você – disse o bravosi – e eu de bom grado a deixaria beijar minha espada, se eu fosse livre. Mas aceitei as moedas de Yunkai e dei a minha palavra sagrada.
– Moedas podem ser devolvidas – disse ela. – Eu pagarei o mesmo, e mais ainda. Tenho outras cidades a conquistar e um reino inteiro à minha espera a meio mundo de distância. Sirva-me fielmente, e os Segundos Filhos não precisarão voltar a procurar contratos.
O bravosi afagou sua espessa barba vermelha.
– O mesmo e mais ainda, e talvez um beijo para arrematar, hã? Ou mais do que um beijo? Para um homem tão magnífico como eu?
– Talvez.
– Vou gostar do sabor de sua língua, eu acho.
Dany sentia a ira de Sor Jorah. Meu urso negro não gosta dessa conversa sobre beijos.
– Pense esta noite no que lhe disse. Posso ter a sua resposta de manhã?
– Pode. – O Bastardo do Titã deu um sorriso. – Posso levar um jarro deste belo vinho aos meus capitães?
– Pode levar um tonel. Vem das adegas dos Bons Mestres de Astapor, e tenho carroças cheias dele.
– Então dê-me uma carroça. Um sinal de sua amizade.
– Você tem uma grande sede.
– Eu sou todo grande. E tenho muitos irmãos. O Bastardo do Titã não bebe sozinho, khaleesi.
– Que seja então uma carroça, se prometer beber à minha saúde.
– Feito! – trovejou o homem. – E feito, e feito! Farei três brindes a você e trarei uma resposta quando o sol nascer.
Mas, quando Mero saiu, Arstan Barba-Branca disse:
– Aquele ali tem má reputação, até em Westeros. Não se deixe iludir por suas maneiras, Vossa Graça. Ele fará três brindes à sua saúde esta noite e amanhã vai violá-la.
– O velho tem razão, por uma vez – disse Sor Jorah. – Os Segundos Filhos são uma companhia antiga, que não é desprovida de valor, mas, sob a liderança de Mero, tornaram-se quase tão maus quanto os Bravos Companheiros. O homem é tão perigoso para quem o emprega como para os seus inimigos. É por isso que o encontra aqui. Nenhuma das Cidades Livres o contrata mais.
– Não é a sua reputação que eu quero, são os seus quinhentos homens a cavalo. E os Corvos Tormentosos, há alguma esperança ali?
– Não – disse Sor Jorah sem rodeios. – Aquele Prendahl é de sangue ghiscari. É provável que tivesse família em Astapor.
– Pena. Bem, talvez não precisemos lutar. Esperemos para ouvir o que os yunkaitas têm a dizer.
Os enviados de Yunkai chegaram ao pôr do sol; cinquenta homens montados em magníficos cavalos negros e um montado em um grande camelo branco. Seus elmos eram duas vezes mais altos do que as cabeças, para não esmagarem as bizarras torções, torres e esculturas de cabelos que tinham por baixo. Tingiam de um amarelo vivo as saias e túnicas de linho e cosiam discos de cobre aos mantos.
O homem do camelo branco apresentou-se como Grazdan mo Eraz. Esguio e duro, possuía um sorriso branco semelhante ao que Kraznis tinha ostentado até Drogon queimar seu rosto. Os cabelos estavam puxados para o alto, num chifre de unicórnio que se projetava de sua testa, e o tokar era debruado de renda de Myr dourada.
– Antiga e gloriosa é Yunkai, a rainha das cidades – disse, quando Dany lhe deu as boas-vindas à sua tenda. – Nossas muralhas são fortes; nossos nobres, orgulhosos e ferozes; nosso povo, desprovido de medo. Nosso é o sangue da antiga Ghis, cujo império já era antigo quando Valíria não passava de uma criança chorosa. Foi sensata por se sentar para conversar, khaleesi. Não encontrará aqui uma conquista fácil.
– Ótimo. Meus Imaculados apreciarão um pouco de luta. – Olhou para Verme Cinzento, que assentiu com a cabeça.
Grazdan fez um largo encolher de ombros.
– Se o que deseja é sangue, pois que jorre. Dizem que libertou os seus eunucos. A liberdade tem tanto significado para um Imaculado como um chapéu para um bacalhau. – Sorriu para Verme Cinzento, mas daria para dizer que o eunuco era feito de pedra. – Voltaremos a escravizar aqueles que sobreviverem, e vamos usá-los para arrancar Astapor das mãos do populacho. Também poderemos fazer de você uma escrava, não duvide. Há casas do prazer em Lys e Tyrosh onde os homens pagariam belas somas para dormir com a última Targaryen.