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Viserion farejou o sangue que gotejava do pescoço de Prendahl e soltou um novelo de chamas que atingiu em cheio o rosto do morto, enegrecendo e enchendo de bolhas sua face sem sangue. Dragon e Rhaegal agitaram-se com o cheiro de carne assada.

– Foi você que fez isso? – perguntou Dany, repugnada.

– Eu e ninguém mais. – Se os dragões desconcertavam Daario Naharis, ele escondia bem. A julgar pela atenção que prestava neles, bem podiam ser três gatinhos brincando com um rato.

– Por quê?

– Por ser tão bela. – As mãos dele eram grandes e fortes, e havia algo em seus duros olhos azuis e no grande nariz curvo que sugeria a ferocidade de uma magnífica ave de rapina. – Prendahl falava muito e dizia pouco. – Seu vestuário, apesar de rico, estava muito usado; manchas de sal criavam um padrão em suas botas, o esmalte das unhas estava lascado, a renda mostrava-se manchada pelo suor, e Dany via o ponto onde a bainha do manto estava ficando puída. – E Sallor escarafunchava o nariz como se o ranho dele fosse feito de ouro. – O homem estava em pé, com as mãos cruzadas nos pulsos, descansando as palmas nos botões de suas armas; um arakh dothraki curvo na anca esquerda e um esguio punhal de Myr na direita. Os cabos formavam um par de mulheres douradas, nuas e sensuais.

– Usa essas belas lâminas com habilidade? – perguntou-lhe Dany.

– Prendahl e Sallor diriam que sim, se os mortos falassem. Não conto um dia como vivido, a não ser que tenha amado uma mulher, matado um inimigo ou comido uma bela refeição... e os dias que vivi são tão incontáveis quanto as estrelas no céu. Transformo o massacre num ato de beleza, e muitos acrobatas e dançarinos de fogo suplicaram aos deuses poder ter metade de minha rapidez, um quarto de minha graciosidade. Diria para você o nome de todos os homens que matei, mas, antes de conseguir acabar, seus dragões iriam se tornar tão grandes como castelos, as muralhas de Yunkai ruiriam, transformadas em poeira amarela, e o inverno chegaria, partiria e chegaria novamente.

Dany soltou uma gargalhada. Gostava da presunção que via naquele Daario Naharis.

– Puxe a espada e juramente-a ao meu serviço.

Num piscar de olhos, o arakh de Daario viu-se livre da bainha. A submissão do homem foi tão extravagante como todo o resto nele, um grande mergulho que levou seu rosto até os dedos dos pés de Dany.

– Minha espada é sua. Minha vida é sua. Meu amor é seu. Meu sangue, meu corpo, minhas canções, é dona de tudo. Vivo e morro às suas ordens, bela rainha.

– Então viva – disse Dany – e lute por mim esta noite.

– Isso não seria sensato, minha rainha. – Sor Jorah lançou a Daario um olhar frio e duro. – Mantenha este homem aqui, guardado, até que a batalha esteja concluída e ganha.

Dany refletiu por um momento, e depois balançou a cabeça.

– Se ele puder nos dar os Corvos Tormentosos, a surpresa é certa.

– E se nos trair, a surpresa estará perdida.

Dany voltou a examinar o mercenário. Ele mostrou um tal sorriso que ela corou e afastou o olhar.

– Não trairá.

– Como pode saber isso?

Ela apontou para os pedaços de carne esturricada que os dragões estavam consumindo, uma dentada sangrenta após a outra.

– Eu chamaria aquilo de uma prova de sua sinceridade. Daario Naharis, tenha os seus Corvos Tormentosos prontos para atacar a retaguarda yunkaita quando meu ataque começar. Conseguirá voltar em segurança?

– Se me pararem, direi que andei batendo o terreno e nada vi. – O tyroshi pôs-se em pé, fez uma reverência e saiu a passos largos.

Sor Jorah Mormont deixou-se ficar.

– Vossa Graça – disse, sem rodeios –, isso foi um erro. Nada sabemos sobre esse homem...

– Sabemos que é um grande guerreiro.

– Um grande falador, a senhora quer dizer.

– Ele traz os Corvos Tormentosos para nós. – E tem olhos azuis.

– Quinhentos mercenários de lealdade incerta.

– Todas as lealdades são incertas em tempos como estes – recordou-lhe Dany. E eu serei traída mais duas vezes, uma por ouro e outra por amor.

– Daenerys, tenho o triplo de sua idade – disse Sor Jorah. – Já vi quão falsos são os homens. Muito poucos são dignos de confiança, e Daario Naharis não é um deles. Até na barba tem cores falsas.

Aquilo a deixou irritada.

– Ao passo que você tem uma barba honesta, é isso que está me dizendo? Que é o único homem em que poderei confiar?

Ele endireitou-se.

– Não disse isso.

– É o que diz todos os dias. Pyat Pree é um mentiroso, Xaro é um maquinador, Belwas é um fanfarrão, Arstan, um assassino... pensa que continuo sendo uma garotinha virgem, incapaz de ouvir as palavras por trás das palavras?

– Vossa Graça...

Ela interrompeu-o.

– Você tem sido o melhor amigo que já conheci, um irmão melhor do que Viserys alguma vez foi. É o primeiro membro de minha Guarda Real, o comandante de meu exército, meu conselheiro mais estimado, minha boa mão direita. Honro-o, respeito-o e estimo-o... mas não o desejo, Jorah Mormont, e estou cansada de vê-lo tentando empurrar todos os outros homens do mundo para longe de mim, para que tenha de depender de você e apenas de você. Isso não pode ser, e não me fará amá-lo mais.

Mormont corara quando ela começou a falar, mas, quando Dany terminou, tinha o rosto pálido novamente. Ficou imóvel como pedra.

– Se a minha rainha ordena – disse, seco e frio.

Dany estava suficientemente quente para ambos.

– Ordena – disse. – Ela ordena. E agora vá cuidar de seus Imaculados, sor. Tem uma batalha a travar e vencer.

Quando o cavaleiro foi embora, Dany jogou-se sobre as almofadas, para junto dos dragões. Não pretendera ser tão ríspida com Sor Jorah, mas a contínua suspeita de Mormont finalmente tinha despertado o dragão.

Ele vai me perdoar, disse a si mesma. Sou a suserana dele. Dany deu por si interrogando-se sobre se ele teria razão a respeito de Daario. De repente, sentiu-se muito só. Mirri Maz Duur assegurara que ela nunca mais daria à luz um filho vivo. A Casa Targaryen terminará comigo. Aquilo entristeceu-a.

– Vocês têm de ser os meus filhos – disse aos dragões –, os meus três ferozes filhos. Arstan diz que os dragões vivem mais tempo do que os homens, portanto sobreviverão depois de eu morrer.

Drogon curvou o pescoço para mordiscar sua mão. Tinha dentes muito afiados, mas nunca rompia sua pele quando brincavam assim. Dany riu e fez o dragão rolar de um lado para o outro até que ele rugiu, com a cauda estalando como um chicote. É mais comprido do que era, ela percebeu, e amanhã será ainda mais. Eles agora crescem depressa e, quando forem grandes, terei as minhas asas. Montada num dragão, poderia ir à frente de seus homens para a batalha, como fizera em Astapor, mas, por enquanto, ainda eram pequenos demais para suportar seu peso.

Uma quietude caiu sobre o acampamento, quando a meia-noite chegou e passou. Dany permaneceu em seu pavilhão com as aias, enquanto Arstan Barba-Branca e Belwas, o Forte, montavam guarda. A espera é a parte mais dura. Ficar sentada na tenda com as mãos vazias, enquanto a batalha era travada sem sua presença, fez com que Dany se sentisse de novo quase uma criança.

As horas arrastaram-se sobre patas de tartaruga. Mesmo depois de Jhiqui massagear seus ombros para aliviar a tensão, Dany permaneceu inquieta demais para dormir. Missandei ofereceu-se para cantar uma canção de embalar do Povo Pacífico, mas Dany recusou, movendo a cabeça.

– Traga-me Arstan – disse.

Quando o velho entrou, Dany encontrava-se enrolada em sua pele de hrakkar, cujo cheiro bolorento ainda lhe fazia lembrar Drogo.

– Não consigo dormir quando há homens morrendo por mim, Barba-Branca – disse. – Fale-me mais a respeito de meu irmão Rhaegar, por favor. Gostei da história que me contou no navio, sobre o modo como ele decidiu que tinha de ser um guerreiro.