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– Vossa Graça é bondosa por pedir isso.

– Viserys dizia que nosso irmão ganhou muitos torneios.

Arstan inclinou respeitosamente sua cabeça branca.

– Não é próprio de minha parte negar as palavras de Sua Graça...

– Mas? – disse Dany rispidamente. – Conte-me. Eu ordeno.

– A perícia do Príncipe Rhaegar era inquestionável, mas ele raramente entrava nas liças. Nunca gostou da canção das espadas, como Robert ou Jaime Lannister gostavam. Era algo que tinha de fazer, uma tarefa que o mundo tinha lhe atribuído. Desempenhava-a bem, pois fazia tudo bem. Era essa a sua natureza. Mas não tirava dela nenhuma alegria. Os homens diziam que o Príncipe Rhaegar gostava muito mais da harpa do que da lança.

– Mas ele certamente ganhou alguns torneios – disse Dany, desapontada.

– Quando era novo, Sua Graça participou brilhantemente num torneio em Ponta Tempestade, derrotando Lorde Steffron Baratheon, Lorde Jason Mallister, a Víbora Vermelha de Dorne e um cavaleiro misterioso, que se revelou ser o infame Simon Toyne, chefe dos fora da lei da mata do rei. Quebrou doze lanças contra Sor Arthur Dayne nesse dia.

– Então foi ele o campeão?

– Não, Vossa Graça. Essa honra foi para outro cavaleiro da Guarda Real, que derrubou o Príncipe Rhaegar na disputa final.

Dany não queria ouvir falar de Rhaegar sendo derrubado.

– Mas que torneios meu irmão ganhou?

– Vossa Graça. – O velho hesitou. – Ele ganhou o maior torneio de todos.

– Que torneio foi esse? – quis saber Dany.

– O torneio que Lorde Whent montou em Harrenhal, ao lado do Olho de Deus, no ano da falsa primavera. Um evento notável. Além das justas, houve um corpo a corpo no estilo antigo, disputado entre sete equipes de cavaleiros, bem como tiro com arco e arremesso de machados, uma corrida de cavalos, um torneio de cantores, um espetáculo de saltimbancos e muitos banquetes e divertimentos. Lorde Whent era tão mão-aberta quanto rico. As pródigas bolsas que proclamou atraíram centenas de competidores. Até o seu real pai se deslocou para Harrenhal, ele que não abandonava a Fortaleza Vermelha havia longos anos. Os maiores senhores e mais poderosos campeões dos Sete Reinos participaram desse torneio, e o Príncipe de Pedra do Dragão superou todos eles.

– Mas esse foi o torneio em que Lyanna Stark foi coroada rainha do amor e da beleza! – disse Dany. – A Princesa Elia, esposa dele, estava lá, e, no entanto, meu irmão deu a coroa à garota Stark, e mais tarde roubou-a do prometido dela. Como pôde ter feito uma coisa dessas? A mulher dornesa tratava-o tão mal assim?

– Não cabe a alguém como eu dizer o que pode ter passado pelo coração de seu irmão, Vossa Graça. A Princesa Elia era uma senhora bondosa e graciosa, embora sua saúde sempre tenha sido delicada.

Dany envolveu os ombros com a melhor pele de leão.

– Viserys disse uma vez que a culpa era minha, por ter nascido tarde demais. – Lembrava-se de ter negado acaloradamente, chegando ao ponto de dizer a Viserys que a culpa tinha sido dele, por não ter nascido menina. Ele espancara-a cruelmente por essa insolência. – Se eu tivesse nascido em um momento mais oportuno, disse ele, Rhaegar teria se casado comigo e não com Elia, e tudo teria sido diferente. Se Rhaegar tivesse sido feliz com a esposa, não teria necessitado da garota Stark.

– Talvez fosse assim, Vossa Graça. – Barba-Branca fez uma pausa momentânea. – Mas não tenho certeza de que Rhaegar tivesse a capacidade de ser feliz.

– Faz com que ele pareça tão amargo – protestou Dany.

– Amargo não, não, mas... havia uma melancolia no Príncipe Rhaegar, um sentido... – O velho voltou a hesitar.

– Diga – pediu ela. – Um sentido...?

– ... de tragédia. Ele nasceu em pesar, minha rainha, e essa sombra pairou sobre ele durante toda a vida.

Viserys só falara uma vez do nascimento de Rhaegar. A história talvez o entristecesse demais.

– Era a sombra de Solarestival que o assombrava, não era?

– Sim. E, no entanto, Solarestival era o lugar que o príncipe mais amava. Ia para lá de tempos em tempos, acompanhado apenas de sua harpa. Nem mesmo os cavaleiros da Guarda Real o serviam ali. Gostava de dormir no salão arruinado, sob a lua e as estrelas, e sempre que regressava trazia uma canção. Quando se ouvia o príncipe tocar sua harpa com cordas de prata e cantar a respeito de penumbras, lágrimas e a morte de reis, era impossível não sentir que ele estava cantando sobre si e sobre aqueles que amava.

– E o Usurpador? Ele também tocava canções tristes?

Arstan soltou um risinho.

– Robert? Robert gostava de canções que o fizessem rir, e quanto mais obscenas melhor. Só cantava quando estava bêbado, e então eram coisas do gênero de “Um barril de cerveja”, “Cinquenta e quatro tonéis” ou “O urso e a bela donzela”. Robert era muito...

Como um só, os dragões ergueram a cabeça e rugiram.

– Cavalos! – Dany pôs-se em pé imediatamente, apertando-se à pele de leão. Lá fora, ouviu Belwas, o Forte, berrar alguma coisa, e depois outras vozes, e o ruído de muitos cavalos. – Irri, vá ver quem...

A aba da tenda abriu-se de rompante e Sor Jorah Mormont entrou. Vinha empoeirado e salpicado de sangue, mas fora isso não parecia afetado pela batalha. O cavaleiro exilado ajoelhou-se perante Dany e disse:

– Vossa Graça, trago-lhe a vitória. Os Corvos Tormentosos viraram a casaca, os escravos fugiram e os Segundos Filhos estavam bêbados demais para lutar, tal como tinha dito. Duzentos mortos, na maioria yunkaitas. Seus escravos jogaram fora as lanças e fugiram, e seus mercenários renderam-se. Temos vários milhares de cativos.

– As nossas perdas?

– Uma dúzia. Se tanto.

Só então se permitiu um sorriso.

– Levante-se, meu bom e corajoso urso. Grazdan foi capturado? Ou o Bastardo do Titã?

– Grazdan foi a Yunkai entregar as suas exigências. – Sor Jorah levantou-se. – Mero fugiu, assim que percebeu que os Corvos Tormentosos tinham passado para o nosso lado. Tenho homens atrás dele. Não deve permanecer foragido por muito tempo.

– Muito bem – disse Dany. – Mercenário ou escravo, poupe todos aqueles que me jurarem lealdade. Se um número suficiente dos Segundos Filhos se juntar a mim, mantenha a companhia intacta.

No dia seguinte, marcharam as três últimas léguas até Yunkai. A cidade tinha sido construída com tijolos amarelos em vez de vermelhos; tirando isso, era uma cópia perfeita de Astapor, com as mesmas muralhas esfarelando-se e maciças pirâmides de degraus, e uma grande harpia montada sobre os portões. A muralha e as torres estavam repletas de besteiros e fundibulários. Sor Jorah e Verme Cinzento posicionaram seus homens, Irri e Jhiqui ergueram o pavilhão de Dany, e esta sentou-se, à espera.

Na manhã do terceiro dia, os portões da cidade abriram-se e uma fileira de escravos começou a sair. Dany montou a prata para ir ao encontro deles. Ao passarem, a pequena Missandei foi-lhes dizendo que deviam a liberdade a Daenerys Nascida na Tormenta, a Não Queimada, Rainha dos Sete Reinos de Westeros e Mãe de Dragões.

Mhysa! – gritou-lhe um homem de pele mulata.

Ele trazia uma criança ao ombro, uma menininha, e ela gritou a mesma palavra em sua vozinha fina:

Mhysa! Mhysa!

Dany olhou para Missandei.

– O que estão eles gritando?

– É ghiscari, a antiga língua pura. Quer dizer “Mãe”.

Dany sentiu uma leveza no peito. Nunca darei à luz um filho vivo, recordou. Sua mão tremeu ao ser erguida. Talvez tenha sorrido. Deve ter sorrido, pois o homem também sorriu e voltou a gritar, e outros acompanharam o seu grito.

Mhysa! – gritaram. – Mhysa! MHYSA! – Estavam todos sorrindo para Dany, estendendo as mãos para ela, ajoelhando à sua frente. Alguns chamavam-na de “Maela”, outros gritavam “Aelalla” ou “Qathei” ou “Tato”, mas qualquer que fosse a língua, todas as palavras tinham o mesmo significado. Mãe. Eles estão me chamando de Mãe.