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O cântico cresceu, espalhou-se, avolumou-se. Avolumou-se tanto que assustou sua montaria, e a égua recuou, abanou a cabeça e agitou a cauda cinza-prateada. Avolumou-se até parecer sacudir as muralhas amarelas de Yunkai. Mais escravos saíam pelos portões a cada momento, e, ao chegarem, juntavam-se ao grito. Agora corriam para ela, empurrando-se, tropeçando, desejando tocar sua mão, afagar a crina de sua montaria, beijar seus pés. Seus pobres companheiros de sangue não conseguiam manter todos afastados, e até Belwas, o Forte, grunhiu e resmungou de susto.

Sor Jorah tentou convencê-la a sair dali, mas Dany lembrou-se de um sonho que tivera na Casa dos Imorredouros.

– Eles não me farão mal – disse-lhe. – Eles são meus filhos, Jorah. – Soltou uma gargalhada, bateu com os calcanhares na égua e cavalgou na direção dos escravos, com as sinetas nos cabelos tilintando em doce vitória. Trotou, depois passou a meio-galope e em seguida pôs-se a galope, com a trança ondulando atrás de si. Os escravos libertados abriram caminho para ela. “Mãe”, gritaram cem gargantas, mil, dez mil. “Mãe”, cantaram, com os dedos afagando suas pernas enquanto voava através deles. “Mãe, Mãe, Mãe!”

Arya

Quando Arya viu a forma do grande monte erguendo-se a distância, dourado ao sol da tarde, reconheceu-o de imediato. Tinham retornado a Coração Alto.

Ao pôr do sol estavam no topo, acampando onde nenhum mal poderia lhes acontecer. Arya percorreu o círculo de tocos de represeiro com o escudeiro de Lorde Beric, Ned, e ficaram em pé sobre um deles, observando a última luz que desaparecia a oeste. Dali de cima via uma tempestade que se enfurecia para o norte, mas Coração Alto erguia-se acima da chuva. No entanto, não estava acima do vento; as rajadas sopravam com tanta força que era como se alguém estivesse atrás de Arya, puxando-a pelo manto. Porém, quando se virou, não havia ninguém lá.

Fantasmas, recordou. Coração Alto está assombrado.

Fizeram uma grande fogueira no topo do monte, e Thoros de Myr sentou-se de pernas cruzadas diante dela, olhando as profundezas das chamas como se nada mais existisse no mundo inteiro.

– O que ele está fazendo? – perguntou Arya a Ned.

– Às vezes, ele vê coisas nas chamas – disse-lhe o escudeiro. – O passado. O futuro. Coisas que estão acontecendo muito longe.

Arya observou o fogo com os olhos semicerrados, tentando enxergar o que o sacerdote vermelho via, mas só conseguiu ficar com os olhos cheios de lágrimas e, pouco tempo depois, afastou-os da fogueira. Gendry também estava observando o sacerdote vermelho.

– Pode mesmo ver o futuro aí? – ele perguntou de súbito.

Thoros afastou os olhos do fogo, suspirando.

– Aqui, não. Agora não. Mas certos dias, sim, o Senhor da Luz concede-me visões.

Gendry não parecia convencido.

– Meu mestre dizia que você era um bêbado e uma fraude, um sacerdote ruim como nunca houve.

– Isso foi pouco amável. – Thoros soltou um risinho. – Verdadeiro, mas pouco amável. Quem era esse seu mestre? Eu conhecia você, rapaz?

– Eu era aprendiz do mestre armeiro Tobho Mott, na Rua do Aço. Costumava comprar as espadas dele.

– É verdade. Ele cobrava de mim o dobro do que elas valiam, e depois repreendia-me por botar fogo nelas. – Thoros soltou uma gargalhada. – O seu mestre tinha razão. Eu não era um sacerdote lá muito santo. Fui o mais novo de oito filhos, e por isso meu pai deu-me ao Templo Vermelho, mas não teria sido esse o caminho que eu escolheria. Orava as orações e proferia os feitiços, mas também liderava ataques às cozinhas e, de tempos em tempos, encontravam garotas na minha cama. Umas garotas tão malvadas... nunca soube como elas iam parar lá.

“Mas eu tinha um dom para línguas. E quando olhava as chamas, bem, de vez em quando via coisas. Mesmo assim, eu dava mais trabalho do que valia e acabaram me enviando para Porto Real, a fim de trazer a luz do Senhor ao sete vezes embrutecido Westeros. O Rei Aerys gostava tanto de fogo que pensavam que poderia ser convertido. Infelizmente, seus piromantes conheciam truques melhores dos que os meus.

“Porém, o Rei Robert gostava de mim. Da primeira vez que entrei num corpo a corpo com uma espada flamejante, o cavalo de Kevan Lannister empinou-se e atirou-o ao chão, e Sua Graça riu tanto que eu pensei que explodiria. – A recordação fez o sacerdote vermelho sorrir. – Mas aquilo não era maneira de tratar uma lâmina, o seu mestre também tinha razão quanto a isso.”

– O fogo consome. – Lorde Beric estava em pé atrás deles, e havia algo na sua voz que silenciou Thoros de imediato. – Ele consome, e quando termina, nada resta. Nada.

– Beric. Querido amigo. – O sacerdote tocou o senhor do relâmpago no antebraço. – O que está dizendo?

– Nada que já não tenha dito. Seis vezes, Thoros? Seis vezes é muito. – Afastou-se abruptamente.

Naquela noite, o vento uivava quase como um lobo, e havia alguns lobos de verdade a oeste dando lições a ele. Notch, Anguy e Merrit de Vilalua estavam de vigia. Ned, Gendry e muitos dos outros dormiam profundamente quando Arya vislumbrou a pequena silhueta clara que se movia por trás dos cavalos, com cabelos finos e brancos esvoaçando loucamente, enquanto se apoiava numa bengala cheia de nós. A mulher não podia ter mais de noventa centímetros de altura. A luz da fogueira fazia seus olhos cintilarem num tom tão vermelho quanto o dos olhos do lobo de Jon. Ele também era um fantasma. Arya esgueirou-se para mais perto e ajoelhou-se a fim de espiar.

Thoros e Limo faziam companhia ao Lorde Beric quando a anã se sentou junto da fogueira sem ser convidada. Olhou-os de soslaio, com olhos que eram como carvões ardentes.

– A Brasa e o Limão vêm de novo me visitar, com Sua Graça, o Senhor dos Cadáveres.

– Um nome de mau agouro. Já lhe pedi que não o usasse.

– Sim, pediu. Mas o fedor da morte é fresco em você, senhor. – Não lhe restava mais do que um dente. – Dê-me vinho, senão vou embora. Meus ossos estão velhos. Minhas articulações doem quando os ventos sopram, e aqui em cima os ventos não param de soprar.

– Um veado de prata por seus sonhos, senhora – disse Lorde Beric, com uma solene cortesia. – E outro se tiver notícias para nos dar.

– Não posso comer um veado de prata e também não posso montá-lo. Um odre de vinho por meus sonhos, e, pelas notícias, um beijo do grande idiota com o manto amarelo. – A pequena mulher soltou um cacarejo. – Sim, um beijo molhado, um pouco de língua. Passou-se tempo demais, demais. A boca dele vai ter gosto de limões e a minha, de ossos. Sou velha demais.

– Sim – protestou Limo. – Velha demais para vinho e beijos. Tudo que levará de mim é a parte romba da espada, bruxa.

– Meus cabelos caem aos montes e ninguém me beija há mil anos. É duro ser tão velha. Bem, nesse caso aceito uma canção. Uma canção do Tom das Sete, pelas notícias.

– Terá a sua canção do Tom – prometeu Lorde Beric. Foi ele mesmo que lhe entregou o odre de vinho.

A anã bebeu profundamente, deixando escorrer vinho pelo queixo abaixo. Quando baixou o odre, limpou a boca com as costas de uma mão enrugada e disse:

– Vinho amargo por notícias amargas, o que poderia ser mais adequado? O rei está morto, isso é suficientemente amargo para você?

O coração de Arya ficou preso na garganta.

Qual dos malditos reis está morto, velha? – exigiu saber Limo.