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– Ele mandou-o examiná-la?

– Com certeza. É... melindroso, digamos.

– Isso diz respeito ao resgate? – perguntou Jaime. – O pai dela exige uma prova de que a garota continua donzela?

– Não ouviu as novidades? – Qyburn encolheu os ombros. – Recebemos uma ave de Lorde Selwyn. Em resposta à minha. A Estrela da Tarde oferece trezentos dragões pela devolução da filha em segurança. Eu disse ao Lorde Vargo que não havia safiras em Tarth, mas ele não quis me dar ouvidos. Está convencido de que a Estrela da Tarde pretende enganá-lo.

– Trezentos dragões é um bom resgate por um cavaleiro. O bode devia aceitar o que lhe oferecem.

– O bode é Senhor de Harrenhal, e o Senhor de Harrenhal não regateia.

A novidade irritou-o, embora achasse que devia ter previsto aquilo. A mentira poupou-a durante algum tempo, garota. Fique grata por isso.

– Se a virgindade dela for tão dura quanto o resto, o bode vai quebrar o pau ao tentar entrar – gracejou.

Jaime calculava que Brienne fosse suficientemente dura para sobreviver a alguns estupros, embora Vargo Hoat pudesse começar a cortar-lhe mãos e pés se a garota resistisse com vigor em excesso. E se o fizer, por que devo me importar? Ainda poderia ter minha mão se ela tivesse me deixado ficar com a espada de meu primo sem ficar estúpida. Ele mesmo quase tinha cortado a perna dela com o seu primeiro golpe, mas depois a garota lhe deu mais do que desejara. O Hoat pode não conhecer a força anormal que ela possui. É melhor que tenha cuidado, senão ela quebra aquele pescoço magricela. E que agradável isso seria.

A companhia de Qyburn estava o deixando farto. Jaime trotou até a cabeça da coluna. Um nortenho chamado Nage, que mais parecia um carrapatozinho, ia à frente de Pernas-de-Aço, com o estandarte de paz; uma bandeira riscada de arco-íris com sete longas pontas, num bastão encimado por uma estrela de sete pontas.

– Vocês, os nortenhos, não deveriam ter uma espécie diferente de bandeira de paz? – perguntou a Walton. – O que são os Sete para vocês?

– Deuses do sul – disse o homem –, mas aquilo de que precisamos é de uma paz do sul para levá-lo a salvo ao seu pai.

Meu pai. Jaime gostaria de saber se Lorde Tywin tinha recebido a exigência de resgate do bode, acompanhada ou não da mão apodrecida. Quanto vale um espadachim sem sua mão da espada? Metade do ouro de Rochedo Casterly? Trezentos dragões? Ou nada? O pai nunca se deixara influenciar indevidamente pelas emoções. O pai de Tywin Lannister, Lorde Tytos, certa vez aprisionara um vassalo indisciplinado, Lorde Tarbeck. A temível Senhora Tarbeck respondeu aprisionando três Lannister, incluindo o jovem Stafford, cuja irmã estava prometida ao primo Tywin.

– Envie-me o meu senhor e amor, senão estes três responderão por qualquer mal que lhe aconteça – a mulher escreveu para Rochedo Casterly.

O jovem Tywin sugeriu que o pai fizesse a vontade dela, mandando de volta Lorde Tarbeck em três pedaços. Mas Lorde Tytos era um tipo mais brando de leão, e a Senhora Tarbeck conquistou mais alguns anos com o seu estúpido senhor, e Stafford se casou, procriou e continuou fazendo asneiras até Cruzaboi. Mas Tywin Lannister perdurara, eterno como o Rochedo Casterly. E agora tem um filho aleijado para somar ao anão, senhor. Como detestará esse fato...

A estrada levou-os a atravessar uma aldeia queimada. Devia ter passado um ano ou mais desde que o lugar fora incendiado. Os casebres estavam enegrecidos e sem telhados, mas as ervas daninhas que cresciam nos campos em volta batiam na cintura. Pernas-de-Aço ordenou uma parada para permitir que dessem água aos cavalos. Também conheço este lugar, pensou Jaime enquanto esperava junto do poço. Houvera uma pequena estalagem no local onde agora se erguiam apenas algumas pedras de fundação e uma chaminé, e ele tinha entrado para beber uma cerveja. Uma criada de olhos escuros trouxe-lhe queijo e maçãs, mas o estalajadeiro recusou o seu dinheiro.

– É uma honra ter um cavaleiro da Guarda Real debaixo de meu teto, sor – o homem disse. – É uma história que vou contar aos meus netos.

Jaime olhou para a chaminé que se projetava por entre as ervas daninhas e perguntou a si mesmo se o homem teria arranjado esses netos. Terá dito a eles que um dia o Regicida bebeu de sua cerveja e comeu de seu queijo e de suas maçãs, ou terá tido vergonha de admitir que alimentou um homem como eu? Não que algum dia chegasse a saber; quem quer que tivesse incendiado a estalagem provavelmente também matara os netos.

Sentiu os dedos fantasma cerrarem-se. Quando Pernas-de-Aço disse que talvez devessem acender uma fogueira e comer um pouco, Jaime sacudiu a cabeça.

– Não gosto deste lugar. Prosseguimos.

Ao cair da noite, deixaram o lago para seguir uma trilha sulcada através de um bosque de carvalhos e olmos. O coto de Jaime latejava surdamente quando Pernas-de-Aço decidiu acampar. Felizmente, Qyburn tinha trazido um odre de vinho de sonhos. Enquanto Walton distribuía os turnos de vigia, Jaime esticou-se junto à fogueira e encostou uma pele de urso enrolada a um toco de árvore para servir de almofada. A garota teria dito que ele devia comer antes de dormir, para manter as forças, mas ele sentia mais cansaço do que fome. Fechou os olhos e esperou sonhar com Cersei. Os sonhos febris eram todos tão vívidos...

Achou-se nu e sozinho, rodeado de inimigos, com uma muralha de pedra por toda a volta, muito próxima. O Rochedo, compreendeu. Sentia seu imenso peso sobre a cabeça. Estava em casa. Estava em casa e inteiro.

Levantou a mão direita e dobrou os dedos para sentir a sua força. Era tão bom quanto sexo. Tão bom quanto lutar de espada na mão. Quatro dedos e um polegar. Tinha sonhado que estava mutilado, mas não era verdade. O alívio entonteceu-o. A minha mão, a minha mão boa. Nada lhe faria mal, desde que estivesse inteiro.

À sua volta, encontrava-se uma dúzia de vultos altos e escuros, vestidos com togas encapuzadas que escondiam seus rostos. Nas mãos, traziam lanças.

– Quem são vocês? – perguntou-lhes em tom de desafio. – O que querem de Rochedo Casterly?

As sombras não deram resposta, limitaram-se a cutucá-lo com a ponta das lanças. Não teve alternativa a não ser descer. Seguiram por uma passagem que se encurvava, com degraus estreitos esculpidos na rocha viva, para baixo e mais para baixo. Tenho de ir para cima, disse a si mesmo. Para cima, não para baixo. Por que estou descendo? Por baixo da terra esperava a sua perdição, soube com a certeza do sonho; algo sombrio e terrível o esperava ali, algo que o desejava. Jaime tentou parar, mas as lanças obrigaram-no a prosseguir. Se ao menos tivesse a espada, nada poderia me fazer mal.

Os degraus terminaram abruptamente numa escuridão cheia de ecos. Jaime teve a sensação de um vasto espaço à sua frente. Parou de súbito, balançando na borda do nada. Uma ponta de lança espetou-se na parte de baixo de suas costas, atirando-o para o abismo. Gritou, mas a queda foi curta. Caiu sobre as mãos e os joelhos, em areia mole e água rasa. Havia cavernas cheias de água bem abaixo de Rochedo Casterly, mas aquela era-lhe estranha.

– O seu lugar. – A voz ecoou; era uma centena de vozes, um milhar, as vozes de todos os Lannister desde Lann, o Esperto, que vivera na aurora dos dias. Mas, acima de tudo, era a voz de seu pai, e ao lado de Lorde Tywin encontrava-se a irmã, pálida e bela, com uma tocha ardendo na mão. Joffrey, o filho que tinham feito juntos, também estava lá, e atrás deles havia mais uma dúzia de silhuetas escuras com cabelos dourados.

– Irmã, por que o pai nos trouxe para cá?

– “Nos”? Este lugar é seu, irmão. Esta escuridão é sua. – A tocha dela era a única luz na caverna. A tocha dela era a única luz no mundo. Virou-se para ir embora.

– Fique comigo – suplicou Jaime. – Não me deixem aqui sozinho. – Mas eles estavam partindo. – Não me deixem no escuro! – algo terrível vivia lá embaixo. – Deem-me ao menos uma espada.