– Eu lhe dei uma espada – disse Lorde Tywin.
Estava a seus pés. Jaime a procurou, apalpando por baixo da água até que sua mão se fechou em torno do cabo. Nada pode me fazer mal desde que tenha uma espada. Ao levantar a arma, um dedo de uma chama pálida tremeluziu na ponta e avançou ao longo do gume, parando a uma mão do cabo. O fogo tinha tomado a cor do próprio aço, por isso ardia com uma luz azul-prateada, e as sombras afastaram-se. Inclinando-se, à escuta, Jaime descreveu um círculo, pronto para qualquer coisa que pudesse saltar das trevas. A água entrou nas suas botas até o tornozelo, terrivelmente fria. Cuidado com a água, disse a si mesmo. Pode haver criaturas vivendo nela, poços escondidos...
De trás veio um grande jorrar de água. Jaime rodopiou para o som... mas a tênue luz revelou apenas Brienne de Tarth, com as mãos presas por pesadas correntes.
– Jurei mantê-lo a salvo – disse teimosamente a garota. – Fiz um juramento. – Nua, ergueu as mãos para Jaime. – Sor. Por favor. Se tivesse a bondade.
Os elos de aço rasgaram-se como seda.
– Uma espada – suplicou Brienne, e ali estava ela, com bainha, cinto e tudo. Afivelou-o em volta de sua larga cintura. A luz era tão tênue que Jaime quase não conseguia vê--la, embora não estivessem afastados mais do que escassas dezenas de centímetros. Nessa luz, ela podia quase ser uma beldade, pensou. Nessa luz, ela podia quase ser um cavaleiro. A espada de Brienne também se incendiou, ardendo com um azul-prateado. As trevas recuaram um pouco mais.
– As chamas arderão enquanto viver – ele ouviu Cersei gritar. – Quando morrerem, você também terá de morrer.
– Irmã! – gritou. – Fique comigo. Fique! – não houve resposta além do som suave de passos que se afastavam.
Brienne moveu sua espada de um lado para o outro, observando as chamas prateadas tremulando e cintilando. Sob os seus pés, um reflexo da lâmina em chamas brilhava na superfície da água negra e lisa. Ela era tão alta e forte quanto se lembrava, mas pareceu a Jaime que agora tinha mais formas de mulher.
– Eles têm um urso lá embaixo? – Brienne caminhava de forma lenta e cuidadosa, de espada na mão; um passo, virar e escutar. Cada passo fazia um pequeno barulho de água. – Um leão das cavernas? Lobos gigantes? Um urso? Diga-me, Jaime. O que vive aqui? O que vive nas trevas?
– A perdição. – Não é um urso, soube ele. Não é um leão. – Só a perdição.
À fria luz azul-prateada das espadas, a grande garota parecia pálida e feroz.
– Não gosto deste lugar.
– Eu mesmo não o aprecio. – As lâminas criavam pequenas ilhas de luz, mas em volta estendia-se um mar de escuridão, sem fim. – Meus pés estão molhados.
– Podíamos voltar pelo caminho por onde nos trouxeram. Se subisse em meus ombros, não teria dificuldade em alcançar a abertura do túnel.
Então poderia encontrar Cersei. Sentiu-se enrijecendo-se com aquele pensamento e virou-se para que Brienne não reparasse.
– Escute. – Ela apoiou uma mão em seu ombro e ele estremeceu com o súbito toque. Ela está quente. – Algo está vindo. – Brienne ergueu a espada para apontar para a esquerda. – Ali.
Jaime espreitou as sombras até que também conseguiu ver. Algo se movia pelas trevas, mas não conseguia distinguir o que seria...
– Um homem a cavalo. Não, dois. Dois cavaleiros, lado a lado.
– Aqui, por baixo do Rochedo? – não fazia sentido. E, no entanto, ali vinham dois cavaleiros, montados em cavalos claros, tanto os homens como as montarias revestidos de armaduras. Os cavalos de batalha emergiram do negrume a passo lento. Eles não fizeram nenhum som, percebeu Jaime. Nenhum esparramar de água, nenhum tinir de malha ou ruído de casco. Lembrou-se de Eddard Stark, percorrendo a cavalo todo o comprimento da sala do trono de Aerys, envolto em silêncio. Só seus olhos tinham falado; olhos de senhor, frios, cinzentos e cheios de julgamento.
– É você, Stark? – gritou Jaime. – Venha. Nunca o temi vivo, não o temo morto.
Brienne tocou seu braço.
– Há mais.
Ele também os viu. Parecia-lhe que estavam todos couraçados de neve, e faixas de névoa fluíam em torvelinhos de seus ombros. As viseiras dos seus elmos estavam fechadas, mas Jaime Lannister não precisava contemplar seus rostos para reconhecê-los.
Cinco tinham sido seus irmãos. Oswell Whent e Jon Darry. Lewyn Martell, um príncipe de Dorne. O Touro Branco, Gerold Hightower. Sor Arthur Dayne, a Espada da Manhã. E, junto a eles, coroado em névoa e pesar com seus longos cabelos fluindo pelas costas, seguia Rhaegar Targaryen, Príncipe de Pedra do Dragão e legítimo herdeiro do Trono de Ferro.
– Vocês não me assustam. – Gritou, girando, quando eles se dividiram e o cercaram. Não sabia para que lado se virar. – Lutarei contra vocês um por um ou todos ao mesmo tempo. Mas com quem a garota vai duelar? Ela fica zangada quando é posta de lado.
– Prestei o juramento de mantê-lo em segurança – disse ela à sombra de Rhaegar. – Prestei um juramento sagrado.
– Todos nós prestamos juramentos – disse Sor Arthur Dayne, num tom tristíssimo.
As sombras desmontaram de seus fantasmagóricos cavalos. Quando puxaram as espadas, não fizeram um som.
– Ele ia queimar a cidade – disse Jaime. – Para não deixar a Robert nada além de cinzas.
– Ele era o seu rei – disse Darry.
– Jurou mantê-lo a salvo – falou Whent.
– E às crianças, a elas também – disse o Príncipe Lewyn.
O Príncipe Rhaegar ardia com uma luz fria, ora branca, ora vermelha, ora escura.
– Eu deixei minha esposa e meus filhos em suas mãos.
– Nunca pensei que ele lhes faria mal. – A espada de Jaime agora emitia menos luz. – Eu estava com o rei...
– Matando o rei – disse Sor Arthur.
– Cortando a garganta dele – falou o Príncipe Lewyn.
– O rei por quem tinha jurado morrer – disse Touro Branco.
Os fogos que corriam ao longo da lâmina estavam se apagando, e Jaime lembrou-se daquilo que Cersei tinha dito. Não. O terror cerrou uma mão em volta de sua garganta. Então sua espada escureceu, e só a de Brienne continuava ardendo enquanto os fantasmas o atacaram.
– Não – disse –, não, não, não. Nãããããããããão!
Com o coração aos saltos, acordou num pulo e deu por si no meio da escuridão estrelada, no interior de um grupo de árvores. Sentia o sabor de bílis na boca e tremia, encharcado em suor, ao mesmo tempo quente e frio. Quando olhou para a mão da espada, viu que o punho terminava em couro e linho, bem apertado em volta de um coto feio. Sentiu que súbitas lágrimas subiam aos seus olhos. Senti, senti a força nos meus dedos e o couro áspero do cabo da espada. A minha mão...
– Senhor. – Qyburn ajoelhou-se ao seu lado, com o rosto paternal todo enrugado de preocupação. – O que houve? Ouvi-o gritar.
Walton Pernas-de-Aço estava em pé sobre eles, alto e severo.
– O que houve? Por que gritou?
– Um sonho... só um sonho. – Jaime fitou o acampamento que o rodeava, momentaneamente desorientado. – Estava no escuro, mas tinha a minha mão de volta. – Olhou para o coto e sentiu-se de novo doente. Não há um lugar como aquele por baixo do Rochedo, pensou. Sentia o estômago dolorido e vazio, e a cabeça latejava no local onde a encostara ao toco de árvore.
Qyburn pôs a mão na testa dele.
– Ainda tem um pouco de febre.
– Um sonho febril. – Jaime estendeu a mão para cima. – Ajudem-me. – Pernas-de-Aço pegou-o pela mão boa e o colocou em pé.