– Outra taça de vinho dos sonhos? – perguntou Qyburn.
– Não. Já sonhei o suficiente por esta noite. – Perguntou a si mesmo quanto tempo faltaria até a alvorada. De algum modo sabia que se fechasse os olhos voltaria àquele lugar escuro e úmido.
– Então leite de papoula? E alguma coisa para a febre? Ainda está fraco, senhor. Precisa dormir, descansar.
Isso é a última coisa que pretendo fazer. O luar cintilava, pálido, no toco de árvore sobre o qual Jaime tinha descansado a cabeça. O musgo cobria-o de tal forma que antes não notara, mas via agora que a madeira era branca. Fez com que pensasse em Winterfell, e na árvore-coração de Ned Stark. Não era ele, pensou. Nunca foi ele. Mas o toco estava morto, e Stark também, bem como todos os outros, Príncipe Rhaegar, Sor Arthur e as crianças. E Aerys. Aerys é o mais morto de todos.
– Acredita em fantasmas, meistre? – perguntou a Qyburn.
O rosto do homem ganhou uma expressão estranha.
– Uma vez, na Cidadela, entrei numa sala vazia e vi uma cadeira vazia. E, no entanto, sabia que uma mulher tinha estado ali apenas um momento antes. A almofada estava comprimida onde ela se sentara, o tecido ainda estava quente e o cheiro dela permanecia no ar. Se deixamos nossos cheiros atrás de nós quando saímos de uma sala, decerto parte de nossa alma deve permanecer quando deixamos esta vida, não? – Qyburn estendeu as mãos. – Mas os arquimeistres não gostavam de minha forma de pensar. Bem, Marwyn gostava, mas era o único.
Jaime passou os dedos pelos cabelos.
– Walton – disse –, sele os cavalos. Quero voltar.
– Voltar? – Pernas-de-Aço olhou-o com uma expressão de dúvida.
Ele acha que enlouqueci. E talvez tenha enlouquecido.
– Deixei uma coisa em Harrenhal.
– É Lorde Vargo quem agora detém o castelo. Ele e seus Saltimbancos Sangrentos.
– Tem o dobro dos homens que ele possui.
– Se não entregá-lo ao seu pai conforme ordenado, Lorde Bolton arranca minha pele. Continuamos rumo a Porto Real.
Em outros tempos, Jaime poderia ter replicado com um sorriso e uma ameaça, mas aleijados manetas não inspiram muito medo. Perguntou a si mesmo o que o irmão faria. Tyrion encontraria uma saída.
– Os Lannister mentem, Pernas-de-Aço. Lorde Bolton não lhe disse isso?
O homem franziu a testa, desconfiado.
– E se tivesse dito?
– Se não me levar de volta a Harrenhal, a canção que vou cantar ao meu pai poderá não ser aquela que o Senhor do Forte do Pavor gostaria de ouvir. Posso até dizer que foi Bolton quem ordenou que minha mão fosse cortada, e Walton Pernas-de-Aço quem manejou a lâmina.
Walton olhou-o boquiaberto.
– Isso não é verdade.
– Não mesmo, mas meu pai acreditará em quem? – Jaime obrigou-se a sorrir, da maneira como costumava fazer quando nada no mundo podia assustá-lo. – Seria tão mais fácil se simplesmente voltássemos. Estaríamos bem depressa de novo a caminho, e eu cantaria uma canção tão simpática em Porto Real que nem acreditaria em seus ouvidos. Ficaria com a garota, e uma bela e gorda bolsa de ouro como agradecimento.
– Ouro? – Walton gostou bastante da ideia. – Quanto ouro?
É meu.
– Ora, quanto você quer?
E quando o valor foi acordado, já estavam a meio caminho de Harrenhal.
Jaime incitou o cavalo muito mais do que no dia anterior, e Pernas-de-Aço e os nortenhos foram obrigados a acompanhar o ritmo dele. Mesmo assim, passou-se o meio-dia antes de chegarem ao castelo que se debruçava sobre o lago. Sob um céu que escurecia e ameaçava desabar, as imensas muralhas e as cinco grandes torres mostravam-se negras e sinistras. Parece tão morto. As muralhas estavam vazias, os portões fechados e trancados. Mas, bem alto, acima da barbacã, um único estandarte pendia, flácido. A cabra negra de Qohor, soube Jaime. Pôs as mãos em volta da boca para gritar.
– Vocês aí! Abram os portões, senão ponho-os abaixo aos chutes!
Foi só quando Qyburn e Pernas-de-Aço somaram as vozes à de Jaime que uma cabeça finalmente surgiu nas ameias lá em cima. O homem arregalou os olhos para eles, e depois desapareceu. Pouco tempo depois, ouviram a porta levadiça sendo içada. Os portões abriram-se, e Jaime Lannister esporeou o cavalo para atravessar a muralha, quase sem dar um relance aos alçapões enquanto passava por baixo. Tinha se preocupado com a possibilidade de o bode não deixá-los entrar, mas parecia que os Bravos Companheiros ainda pensavam neles como aliados. Idiotas.
O pátio exterior encontrava-se deserto; só os compridos estábulos com telhado de ardósia mostravam sinais de vida, e o que interessava a Jaime naquele momento não eram cavalos. Puxou as rédeas e olhou em volta. Ouvia ruídos vindos de algum lugar atrás da Torre dos Fantasmas e homens gritando em meia dúzia de línguas. Pernas-de-Aço e Qyburn aproximaram-se e pararam junto a Jaime, um de cada lado.
– Vá buscar o que veio buscar, e vamos de novo embora – disse Walton. – Não quero encrenca com os Saltimbancos.
– Diga aos seus homens para manterem as mãos no cabo das espadas, e os Saltimbancos não quererão encrenca com você. Dois para um, lembra?
A cabeça de Jaime virou-se vivamente ao ouvir um rugido distante, tênue mas feroz. Ecoou nas muralhas de Harrenhal, e as gargalhadas subiram como o mar. De repente, compreendeu o que estava acontecendo. Teremos chegado tarde demais? Seu estômago deu um solavanco, e ele espetou com força as esporas no cavalo, atravessando a galope o pátio exterior, passando sob uma ponte de pedra em arco, rodeando a Torre dos Lamentos e cruzando o Pátio das Lâminas.
Tinham-na na arena dos ursos.
Rei Harren, o Negro, quis fazer até as lutas de ursos em estilo suntuoso. A arena tinha dez metros de diâmetro e cinco de profundidade, era fechada por muros de pedra, possuía um chão de areia e era rodeada por seis fileiras de bancos de mármore. Ao desmontar desajeitadamente do cavalo, Jaime viu que os Bravos Companheiros enchiam apenas um quarto dos lugares. Os mercenários estavam tão absortos pelo espetáculo, lá embaixo, que só aqueles que se encontravam do outro lado da arena notaram a sua chegada.
Brienne trajava o mesmo vestido que usara para jantar com Roose Bolton e que tão mal lhe caía. Nada de escudo, nada de placa de peito, nada de cota de malha, nem mesmo couro fervido, só cetim cor-de-rosa e renda de Myr. O bode talvez pensasse que era mais divertida quando estava vestida de mulher. Metade do vestido pendia em farrapos, e o braço esquerdo sangrava onde o urso a arranhara.
Pelo menos deram-lhe uma espada. A garota pegava nela com uma mão, movendo-se de lado, tentando colocar alguma distância entre si e o urso. Não vai dar certo, a arena é pequena demais. Ela tinha de atacar, dar um fim rápido àquilo. Bom aço era adversário à altura para qualquer urso. Mas a garota parecia ter medo de se aproximar. Os Saltimbancos faziam chover sobre ela insultos e sugestões obscenas.
– Isso não nos diz respeito – preveniu Pernas-de-Aço a Jaime. – Lorde Bolton disse que a garota era deles para fazerem com ela o que quisessem.
– O nome dela é Brienne. – Jaime desceu os degraus, passando por uma dúzia de mercenários surpresos. Vargo Hoat ocupava o camarote do senhor, na fila de baixo. – Lorde Vargo – chamou por sobre os gritos.
O qohorik quase cuspiu o vinho.
– Regifida? – tinha uma atadura desajeitada no lado esquerdo do rosto e o linho que cobria sua orelha estava manchado de sangue.
– Tire-a dali.
– Não fe meta nifto, Regifida, a menof que queira outro coto. – Brandiu uma taça de vinho. – O feu alfe fêmea arrancou-me uma orelha com of dentef. Pouco admira que o pai não queira refgatar um monftrengo deftes.