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Um rugido fez Jaime se virar. O urso tinha dois metros e quarenta de altura. Gregor Clegane com pelagem, pensou, embora provavelmente mais esperto. O animal não tinha o alcance da Montanha com aquela sua monstruosa espada, porém.

Berrando de fúria, o urso mostrou uma boca cheia de grandes dentes amarelos e depois voltou a cair de quatro e arremeteu diretamente contra Brienne. Aí está a sua oportunidade, pensou Jaime. Ataque! Agora!

Mas, em vez disso, ela furou-o ineficazmente com a ponta da espada. O urso recuou, e avançou logo de seguida, urrando. Brienne deslizou para a esquerda e voltou a lançar uma estocada à cara do urso. Dessa vez, ele ergueu uma pata para afastar a espada com uma pancada.

Ele está cauteloso, percebeu Jaime. Já defrontou outros homens antes. Sabe que espadas e lanças podem feri-lo. Mas isso não o manterá afastado dela por muito tempo.

– Mate-o! – gritou, mas sua voz perdeu-se no meio de todos os outros gritos.

Se Brienne ouviu, não deu sinal. Moveu-se em volta da arena, mantendo as costas viradas para o muro. Perto demais. Se o urso a encurralar contra o muro...

O animal virou-se desajeitadamente, longe e depressa demais. Rápida como uma gata, Brienne mudou de direção. Aí está a garota de que me lembro. Deu um salto adiante para lançar um golpe às costas do urso. Rugindo, a fera voltou a se levantar nas patas traseiras. Brienne afastou-se precipitadamente. Onde está o sangue? Então, de repente, compreendeu.

– Deu uma espada de torneio a ela.

O bode zurrou uma gargalhada, fazendo chover sobre Jaime vinho e cuspe.

– Claro que fim.

Eu pago o maldito resgate dela. Ouro, safiras, o que quiser. Tire-a dali.

– Quer a garota? Vá bufcá-la.

E foi o que ele fez.

Jaime pôs a mão boa no parapeito de mármore e saltou por cima, rolando ao atingir a areia. O urso virou-se ao ouvir o pof, farejando, observando o novo intruso com precaução. Jaime apoiou-se num joelho. Bem, e o que é que, com os sete infernos, eu faço agora? Encheu o punho de areia.

– Regicida? – ouviu Brienne dizer, estupefata.

– Jaime. – Desdobrou-se, atirando a areia na cara do urso. O animal socou o ar e rugiu como brasas.

– O que você está fazendo aqui?

– Uma estupidez. Fique atrás de mim. – Descreveu um círculo na direção dela, colocando-se entre Brienne e o urso.

– Fique você atrás. Eu tenho a espada.

– Uma espada sem ponta e sem gume. Fique atrás de mim! – viu uma coisa meio enterrada na areia e apanhou-a com a mão boa. O objeto revelou ser um maxilar humano, com um pouco de carne esverdeada ainda presa ao osso, repleto de larvas. Encantador, pensou, perguntando a si mesmo de quem seria a cara que tinha na mão. O urso aproximava-se lentamente, e Jaime sacudiu o braço e atirou osso, carne e larvas na cabeça do urso. Errou por um bom metro. Devia cortar também a mão esquerda, de tão útil que ela me é.

Brienne tentou avançar em volta dele, mas Jaime deu-lhe um pontapé nas pernas e fez com que se desequilibrasse. A garota caiu na areia, agarrada à espada inútil. Jaime escarranchou-se sobre ela, e o urso avançou sobre ambos.

Ouviu-se um profundo tuang, e uma haste com penas brotou de repente sob o olho esquerdo da fera. Sangue e saliva escorreram-lhe da boca aberta, e outro dardo acertou sua pata. O urso rugiu, empinou-se. Voltou a ver Jaime e Brienne e voltou a se arrastar na direção deles. Mais bestas dispararam, rasgando pelagem e carne com seus dardos. A tão curta distância, os besteiros dificilmente falhariam. Os dardos atingiam o urso com a força de maças, mas o animal deu outro passo. Pobre, burro e corajoso bruto. Quando a fera tentou golpeá-lo, afastou-se dançando, gritando, fazendo voar areia. O urso virou-se para seguir o homem que o atormentava e levou mais dois dardos no dorso. Deu um último rosnado trovejante, sentou-se sobre os quartos traseiros, estendeu-se na areia manchada de sangue e morreu.

Brienne ajoelhou-se, agarrando a espada e respirando rápida e irregularmente. Os besteiros de Pernas-de-Aço estavam esticando as cordas de suas bestas e recarregando-as enquanto os Saltimbancos Sangrentos gritavam-lhes xingamentos e ameaças. Jaime viu que Rorge e Três Dedos tinham espadas desembainhadas e Zollo estava desenrolando o chicote.

– Vofê matou o meu urfo! – guinchou Vargo Hoat.

– E sirvo-lhe o mesmo prato se me causar encrenca – atirou Pernas-de-Aço em resposta. – Vamos levar a garota.

– O nome dela é Brienne – disse Jaime. – Brienne, a donzela de Tarth. Ainda é donzela, espero?

O largo rosto grosseiro da garota ficou vermelho.

– Sim.

– Oh, ótimo – disse Jaime. – Só salvo donzelas. – Dirigindo-se a Hoat, disse: – Terá o seu resgate. Por nós dois. Um Lannister paga suas dívidas. Agora vá buscar cordas e tire-nos daqui.

– Foda-se o resgate – rosnou Rorge. – Mate-os, Hoat. Senão vai acabar desejando ter acabado com eles!

O qohorik hesitou. Metade de seus homens estavam bêbados; os nortenhos, sóbrios como pedras, e eram duas vezes mais numerosos. Alguns dos besteiros já estavam recarregados àquela altura.

– Pufem-nof pra fora – disse Hoat e depois, para Jaime: – Defidi fer mifericordiofo. Diga ao fenhor feu pai.

– Direi, senhor. – Não que isso lhe sirva para alguma coisa.

Foi só depois de estarem a meia légua de Harrenhal e fora do alcance dos arqueiros nas muralhas que Walton Pernas-de-Aço mostrou a sua ira.

– Está louco, Regicida? Pretendia morrer? Nenhum homem pode lutar com um urso de mãos vazias!

– Uma mão vazia e um coto vazio – corrigiu Jaime. – Mas eu tinha esperança de que matasse o animal antes que ele me matasse. De outra forma, Lorde Bolton iria descascá--lo como a uma laranja, não é verdade?

Pernas-de-Aço amaldiçoou-o e chamou-o de Lannister idiota, esporeou o cavalo e galopou ao longo da coluna.

– Sor Jaime? – mesmo com cetim cor-de-rosa sujo e renda rasgada, Brienne parecia mais um homem de vestido do que uma mulher. – Sinto-me grata, mas... você estava bem longe. Por que voltou?

Veio à sua mente uma dúzia de ditos de espírito, cada um mais cruel do que o anterior, mas Jaime limitou-se a encolher os ombros.

– Sonhei com você – disse.

Catelyn

Robb despediu-se três vezes de sua jovem rainha. Uma vez no bosque sagrado, perante a árvore-coração, à vista dos deuses e dos homens. A segunda vez, por baixo da porta levadiça, onde Jeyne o deixou partir com um longo abraço e um beijo ainda mais longo. E, por fim, uma hora depois de atravessar o Pedregoso, quando a garota chegou a galope num cavalo coberto de espuma para suplicar ao seu jovem rei que a levasse junto.

Catelyn viu que Robb ficou tocado por aquele gesto, mas também envergonhado. O dia estava úmido e cinzento, tinha começado a garoar e a última coisa que queria era interromper a marcha para ficar no molhado consolando uma jovem esposa chorosa diante de metade de seu exército. Ele fala com ela gentilmente, pensou ao vê-los juntos, mas por baixo existe irritação.

Durante todo o tempo que o rei e a rainha passaram conversando, Vento Cinzento caminhou ao redor deles, parando apenas para sacudir a chuva do pelo e mostrar os dentes à chuva. Quando Robb deu, por fim, um último beijo em Jeyne, despachou uma dúzia de homens para levá-la para Correrrio e voltou a montar no cavalo, o lobo gigante correu em frente com a rapidez de uma flecha disparada de um grande arco.

– Vejo que a Rainha Jeyne tem um coração amoroso – disse Lothar Frey a Catelyn. – Assim como as minhas irmãs. Ora, era capaz de apostar que nesse mesmo instante Roslin anda dançando pelas Gêmeas, cantarolando “Senhora Tully, Senhora Tully, Senhora Roslin Tully”. De manhã, vai ficar levando ao rosto tecidos do vermelho e azul de Correrrio, para imaginar o aspecto que terá com o manto nupcial. – Virou-se na sela para sorrir a Edmure. – Mas o senhor está estranhamente quieto, Lorde Tully. Pergunto a mim mesmo como o senhor se sente.