– Por absolutamente nada – disse Edmure, deprimido.
Aquilo foi mais do que Catelyn podia suportar.
– Cersei Lannister é atraente – disse, num tom cortante. – Seria mais sensato rezar para que Roslin seja forte e saudável, com uma boa cabeça e um coração leal. – E, com aquilo, deixou-os.
Edmure não acolheu bem aquela atitude. Na marcha do dia seguinte, evitou-a por completo, preferindo a companhia de Marq Piper, Lymond Goodbrook, Patrek Mallister e dos jovens Vance. Eles só o repreendem de brincadeira, disse Catelyn a si mesma quando passaram a toda por ela, naquela tarde, quase sem uma palavra. Sempre fui dura demais com Edmure, e agora o pesar afia todas as minhas palavras. Arrependeu-se da censura. Já havia chuva suficiente caindo do céu sem a ajuda dela. E seria mesmo assim tão terrível desejar uma esposa bonita? Lembrava-se do desapontamento infantil que sofrera da primeira vez que pôs os olhos em Eddard Stark. Imaginara-o como uma versão mais nova do irmão Brandon, mas tinha se enganado. Ned era mais baixo e tinha um rosto mais simples, e era muito melancólico. Falava de forma bastante cortês, mas, por baixo das palavras Catelyn sentia uma frieza oposta ao que era Brandon, cujas alegrias tinham sido tão violentas quanto as iras. Mesmo quando tomou sua virgindade, o amor deles teve mais dever do que paixão. Mas fizemos Robb naquela noite, fizemos juntos um rei. E depois da guerra, em Winterfell, tive amor suficiente para qualquer mulher, depois de encontrar o coração bom e doce que batia por baixo do rosto solene de Ned. Não há motivo para que Edmure não encontre a mesma coisa com a sua Roslin.
Segundo a vontade dos deuses, o caminho levou-os a atravessar o Bosque dos Murmúrios, onde Robb havia conquistado a sua primeira grande vitória. Seguiram o leito do riacho serpenteante no fundo daquele vale apertado e estreito, tal como os homens de Jaime Lannister tinham feito naquela noite fatídica. Naquela época, fazia mais calor, recordou Catelyn, as árvores ainda se mantinham verdes, e o riacho não tinha transbordado das margens. Folhas caídas agora afogavam o curso da água e estendiam-se em emaranhados encharcados por entre as pedras e raízes, e as árvores que tinham escondido o exército de Robb haviam trocado seus trajes verdes por folhas de um dourado opaco, salpicadas de marrom e de um vermelho que fazia Catelyn lembrar de ferrugem e sangue seco. Só os abetos e os pinheiros marciais ainda se mostravam verdes, espetando-se na barriga das nuvens como grandes lanças escuras.
Foram mais do que árvores o que morreu desde então, refletiu. Na noite do Bosque dos Murmúrios, Ned ainda estava vivo em sua cela por baixo da Colina de Aegon, Bran e Rickon encontravam-se a salvo atrás das muralhas de Winterfell. E Theon Greyjoy lutava ao lado de Robb e gabava-se de como quase tinha cruzado espadas com o Regicida. Seria bom que tivesse feito isso. Se Theon tivesse morrido em vez dos filhos de Lorde Karstark, quanto mal teria sido desfeito?
Ao passarem pelo campo de batalha, Catelyn viu sinais da carnificina que ali tinha ocorrido; um elmo virado ao contrário que se enchia de chuva, uma lança estilhaçada, os ossos de um cavalo. Montes de pedra haviam sido erguidos sobre alguns dos homens que ali tinham tombado, mas os assaltantes de túmulos já tinham caído sobre eles. Por entre os montes de pedra, vislumbrou belos tecidos coloridos e pedaços de metal brilhante. Uma vez viu um rosto a olhá-la, com o contorno do crânio emergindo sob a carne marrom em putrefação.
Isso fez com que se interrogasse sobre o local onde Ned acabou por descansar. As irmãs silenciosas tinham levado seus ossos para o Norte, escoltadas por Hallis Mollen e uma pequena guarda de honra. Teria Ned conseguido chegar a Winterfell, para ser enterrado ao lado do irmão Brandon nas criptas escuras sob o castelo? Ou teria a porta se fechado em Fosso Cailin antes de Hal e das irmãs conseguirem passar?
Três mil e quinhentos cavaleiros seguiam o seu caminho sinuoso pelo fundo do vale, através do coração do Bosque dos Murmúrios, mas Catelyn Stark raras vezes havia se sentido mais solitária. Cada légua que vencia levava-a para mais longe de Correrrio, e deu por si imaginando se alguma vez voltaria a ver o castelo. Ou estaria perdido para sempre, como tantas outras coisas?
Cinco dias mais tarde, os batedores retornaram para preveni-los de que as águas da enchente tinham arrastado a ponte de madeira em Feirajusta. Galbart Glover e dois de seus homens mais ousados tentaram levar as montarias a passar a nado o turbulento Ramo Azul em Vaucarneiro. Dois dos cavalos tinham sido arrastados e afogados, juntamente com um dos cavaleiros; o próprio Glover conseguiu se agarrar a um rochedo até que o puxassem para a margem.
– O rio não corria tão alto desde a primavera – disse Edmure. – E se essa chuva continuar a cair, subirá ainda mais.
– Há uma ponte mais a frente, perto de Pedravelhas – recordou Catelyn, que tinha atravessado aquelas terras com frequência na companhia do pai. – É mais antiga e menor, mas se ainda estiver lá...
– Desapareceu, senhora – disse Galbart Glover. – Foi levada antes mesmo da de Feirajusta.
Robb olhou para Catelyn.
– Há mais alguma ponte?
– Não. E os vaus estarão intransitáveis. – Tentou vasculhar a memória. – Se não conseguirmos atravessar o Ramo Azul, teremos de rodeá-lo, por Seterrios e pelo Atoleiro da Bruxa.
– Brejos e estradas ruins, quando elas existem – preveniu Edmure. – O avanço será lento, mas suponho que acabaremos chegando.
– Estou certo de que Lorde Walder esperará – disse Robb. – Lothar enviou-lhe uma ave de Correrrio, ele sabe que estamos a caminho.
– Sim, mas o homem é suscetível e desconfiado por natureza – disse Catelyn. – Pode tomar esse atraso como um insulto deliberado.
– Muito bem, vou pedir perdão também por nossa indolência. Serei um rei de dar dó, desculpando-me a cada duas inspirações. – Robb fez uma careta. – Espero que Bolton tenha atravessado o Tridente antes das chuvas começarem. A estrada do rei segue diretamente para o norte, deverá ter uma marcha fácil. Mesmo a pé, deve chegar às Gêmeas antes de nós.
– E quando tiver juntado os seus homens aos dele e casado o meu irmão, o que vem depois? – perguntou-lhe Catelyn.
– Para o norte. – Robb coçou Vento Cinzento atrás de uma orelha.
– Pelo talude? Contra Fosso Cailin?
Ele deu um sorriso enigmático a ela.
– Essa é uma forma de ir – disse, e ela compreendeu por seu tom de voz que nada mais diria. Um rei sensato guarda coisas para si, lembrou a si mesma.
Chegaram a Pedravelhas depois de mais oito dias de chuva contínua e acamparam sobre a colina com vista para o Ramo Azul, dentro de um forte arruinado dos antigos reis do rio. Suas fundações resistiam entre as ervas daninhas, para mostrar onde tinham se erguido as muralhas e as fortalezas, mas o povo local tinha se apropriado da maior parte das pedras havia muito tempo, para levantar seus celeiros, septos e castros. No entanto, no centro daquilo que antigamente teria sido o pátio do castelo, ainda se erguia um grande sepulcro esculpido, meio escondido por mato marrom que chegava à cintura, no meio de um grupo de freixos.
A tampa do sepulcro tinha sido esculpida para retratar o homem cujos ossos jaziam lá dentro, mas as chuvas e os ventos tinham desempenhado seu papeclass="underline" conseguiam ver que o rei usava uma barba, mas, fora isso, seu rosto era suave e sem expressão, com apenas vagas sugestões de uma boca, um nariz, olhos e da coroa sobre as têmporas. Suas mãos fechavam-se no cabo de um martelo de guerra em pedra que se apoiava sobre o peito dele. Antigamente, o machado de guerra deveria ter tido gravadas runas que revelavam o nome e a história do morto, mas os séculos tinham-nas levado por completo. A própria pedra estava rachada e se desfazendo nos cantos, descolorida aqui e ali por manchas brancas de líquenes em crescimento, ao passo que rosas selvagens subiam pelos pés do rei e chegavam quase ao peito dele.