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– Gosto mais de ter água chovendo sobre mim do que flechas.

Catelyn sorriu a contragosto.

– Receio que seja mais corajosa do que eu. Todas as mulheres da Ilha dos Ursos são assim guerreiras?

– Ursas, sim – disse a Senhora Maege. – Temos precisado ser assim. Antigamente, os homens de ferro faziam incursões com os seus dracares, ou se não eram eles, eram os selvagens vindos da Costa Gelada. Os homens na maior parte das vezes estavam longe, na pesca. As esposas que eles deixavam para trás tinham de defender a si e aos seus filhos, para não serem todos levados.

– Há uma imagem esculpida em nosso portão – disse Dacey. – Uma mulher vestida com pele de urso, com um bebê em um braço, mamando. Na outra mão traz um machado de batalha. Não é uma senhora como deve ser, essa, mas sempre gostei dela.

– Uma vez, meu sobrinho Jorah trouxe para casa uma senhora como deve ser – disse a Senhora Maege. – Conquistou-a num torneio. Como ela odiava aquela imagem.

– Sim, e todo o resto também – disse Dacey. – Tinha cabelos que eram como fios de ouro, aquela Lynesse. A pele era como creme. Mas suas mãos suaves não tinham sido feitas para machados.

– Nem as tetas para dar de mamar – disse a mãe, sem rodeios.

Catelyn sabia de quem falavam; Jorah Mormont tinha trazido sua segunda esposa a Winterfell para festas, e certa vez permaneceram durante uma quinzena. Lembrava-se de como a Senhora Lynesse era jovem, bela e infeliz. Uma noite, após várias taças de vinho, confessara a Catelyn que o Norte não era lugar para uma Hightower de Vilavelha.

– Houve uma Tully de Correrrio que sentiu o mesmo um dia – Catelyn respondeu com gentileza, tentando consolá-la –, mas, com o tempo, encontrou aqui muitas coisas que podia amar.

Tudo agora perdido, refletiu. Winterfell e Ned, Bran e Rickon, Sansa, Arya, tudo perdido. Só resta Robb. Teria havido nela muito de Lynesse Hightower, no fim das contas, e pouco dos Stark? Gostaria de ter sabido como manejar um machado, talvez tivesse sido capaz de protegê-los melhor.

Os dias seguiram-se aos dias, e a chuva continuava a cair. Cavalgaram ao longo de toda a extensão do Ramo Azul, passando por Seterrios, onde o rio se desdobrava numa confusão de córregos e riachos, e depois atravessando o Atoleiro da Bruxa, onde lagoas de um verde reluzente esperavam para engolir os incautos e o terreno fofo sugava os cascos dos cavalos como um bebê faminto no peito da mãe. O avanço era mais do que lento. Metade das carroças teve de ser abandonada no lodaçal, e suas cargas foram distribuídas entre mulas e cavalos de tração.

Lorde Jason Mallister alcançou-os nos pântanos do Atoleiro da Bruxa. Restava ainda mais de uma hora de luz do dia quando ele se aproximou com a sua coluna, mas Robb mandou parar de imediato, e Sor Raynald Westerling veio escoltar Catelyn à tenda do rei. Encontrou o filho sentado ao lado de um braseiro, com um mapa sobre as coxas. Vento Cinzento dormia aos seus pés. Grande-Jon acompanhava-o, bem como Galbart Glover, Maege Mormont, Edmure e um homem que Catelyn não reconheceu, um homem robusto e perdendo os cabelos, de aspecto servil. Este não é fidalgo nenhum, compreendeu no momento em que pôs os olhos no estranho. Nem sequer é um guerreiro.

Jason Mallister levantou-se para oferecer a Catelyn a cadeira. Nos cabelos, tinha quase tanto branco como castanho, mas o Senhor de Guardamar ainda era um homem bonito; alto e esguio, com um rosto bem delineado e escanhoado, maçãs do rosto salientes e uns ferozes olhos azul-acinzentados.

– Senhora Stark, é sempre um prazer. Trago boas novas, espero.

– Temos grande necessidade de algumas, senhor. – Sentou-se, ouvindo a chuva tamborilar ruidosamente na lona por cima de sua cabeça.

Robb esperou que Sor Raynald fechasse a aba da tenda.

– Os deuses ouviram as nossas preces, senhores. Lorde Jason trouxe-nos o capitão do Myraham, um navio mercante de Vilavelha. Capitão, conte-lhes o que me disse.

– Sim, Vossa Graça. – O homem lambeu nervosamente os lábios. – O último porto onde estive antes de Guardamar foi Fidalporto, em Pyke. Os homens de ferro não me deixaram sair durante mais de meio ano, pois é. Ordens do Rei Balon. Só que, bom, pra resumir uma história comprida, ele tá morto.

– Balon Greyjoy? – o coração de Catelyn parou por um momento. – Está nos dizendo que Balon Greyjoy está morto?

O pequeno capitão maltrapilho confirmou com a cabeça.

– Sabe como Pyke tá construída num promontório, e parte do castelo tá em rochedos e ilhas ao largo da costa, com pontes entre elas? Bem, segundo me contaram em Fidalporto, veio uma rajada de vento de oeste, com chuva e trovões, e o velho Rei Balon tava atravessando uma das pontes quando o vento a pegou e fez a coisa em pedaços. Deu à costa dois dias depois, todo inchado e partido. Ouvi dizer que os caranguejos comeram seus olhos.

Grande-Jon soltou uma gargalhada.

– Caranguejos-reais, espero eu, para jantar essa geleia real, hã?

O capitão balançou afirmativamente a cabeça.

– Sim, mas isso não é tudo, ah, não! – inclinou-se para a frente. – O irmão voltou.

– Victarion? – perguntou Galbart Glover, surpreso.

– Euron. Chamam-no de Olho de Corvo, um pirata mais negro que qualquer outro que tenha içado uma vela. Desapareceu há anos, mas mal Lorde Balon tinha esfriado, lá tava ele, entrando em Fidalporto com o seu Silêncio. Velas pretas e um casco vermelho, e tripulado por mudos. Ouvi dizer que foi a Asshai e voltou. Mas onde quer que tivesse, agora tá em casa e marchou diretinho pra Pyke e sentou o rabo na Cadeira de Pedra do Mar e afogou Lorde Botley numa barrica de água do mar quando ele protestou. Foi nessa hora que eu fugi de volta pro Myraham e icei âncora, esperando conseguir ir embora enquanto as coisas tivessem confusas. E foi o que fiz, e aqui estou.

– Capitão – disse Robb quando o homem terminou –, tem os meus agradecimentos, e não partirá sem uma recompensa. Lorde Jason vai levá–lo de volta ao seu navio quando terminarmos. Por obséquio, espere lá fora.

– Isso espero, Vossa Graça. Isso espero.

Assim que o homem saiu do pavilhão real, Grande-Jon desatou a rir, mas Robb silenciou-o com um olhar.

– Euron Greyjoy não é a ideia de ninguém para um rei, se metade daquilo que Theon disse dele for verdade. Theon é o legítimo herdeiro, a menos que esteja morto... mas Victarion comanda a Frota de Ferro. Não posso crer que permaneça em Fosso Cailin enquanto Euron Olho de Corvo mantiver Cadeira da Pedra do Mar. Ele tem de voltar.

– Também há uma filha – relembrou-lhe Galbart Glover. – Aquela que mantém em seu poder no Bosque Profundo, e a esposa e o filho de Robett.

– Se ficar em Bosque Profundo, isso é tudo que pode esperar manter – disse Robb. – O que é verdade para os irmãos é ainda mais verdade para ela. Terá de zarpar para casa, a fim de expulsar Euron e promover a sua pretensão. – O filho de Catelyn virou-se para Lorde Jason Mallister. – Tem uma frota em Guardamar?

– Uma frota, Vossa Graça? Meia dúzia de dracares e duas galés de guerra. O suficiente para defender as minhas costas contra corsários, mas não posso ter esperança de enfrentar a Frota de Ferro em batalha.

– Nem pediria isso ao senhor. Os homens de ferro irão rumar a Pyke, espero. Theon contou-me como a gente dele pensa. Cada capitão é um rei no seu convés. Todos vão querer ter voz na sucessão. Senhor, preciso que dois de seus dracares contornem o Cabo das Águias e subam o Gargalo até a Atalaia da Água Cinzenta.

Lorde Jason hesitou.

– A floresta úmida é drenada por uma dúzia de cursos de água, todos eles rasos, assoreados e por mapear. Nem chamaria de rios. Os canais andam sempre derivando e se alterando. Há inúmeros bancos de areia, troncos caídos e emaranhados de árvores em putrefação. E a Atalaia da Água Cinzenta desloca-se. Como os meus navios irão encontrá-la?