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Quando a parte de trás do barco colidiu com a encosta da colina, os barqueiros abriram uma porta larga que havia por baixo da cabeça esculpida do cavalo, e estenderam uma pesada prancha de carvalho. Estranho refugou à beira da água, mas Cão de Caça enterrou os calcanhares no flanco do corcel e incitou-o a subir na prancha. O homem corcunda esperava-os no convés.

– Está úmido o suficiente para você, sor? – perguntou, sorrindo.

A boca de Cão de Caça torceu-se.

– Preciso de seu barco, não das suas gracinhas. – Desmontou e puxou Arya para baixo. Um dos barqueiros estendeu a mão para o freio do Estranho. – Eu não faria isso – disse Clegane, no momento em que o cavalo escoiceava. O homem saltou para trás, escorregou no convés tornado traiçoeiro pela chuva, e estatelou-se sobre o traseiro, xingando.

O barqueiro com as costas arqueadas já não estava sorrindo.

– Podemos levá-lo para o outro lado – disse ele num tom irritado. – Irá custar uma peça de ouro para você. Outra pelo cavalo. Uma terceira pelo rapaz.

– Três dragões? – Clegane latiu uma gargalhada. – Por três dragões devia me tornar dono da porcaria do barco.

– No ano passado, talvez se tornasse. Mas com este rio, vou precisar de mãos extras nas varas e nos remos só para tratar de não sermos arrastados cento e cinquenta quilômetros até o mar. As suas opções são essas. Três dragões, ou então ensinar esse seu cavalo infernal a caminhar sobre a água.

– Gosto de um bandoleiro honesto. Que seja como pretende. Três dragões... quando nos deixar a salvo na margem norte.

– Quero-os agora, senão não vamos. – O homem esticou uma mão grossa e cheia de calos, com a palma para cima.

Clegane sacudiu a espada para que a lâmina se soltasse dentro da bainha.

– Aqui tem as suas opções. Ouro na margem norte, ou aço na margem sul.

O barqueiro ergueu os olhos para o rosto de Cão de Caça. Arya percebeu que o homem não gostou do que viu ali. Tinha uma dúzia de homens atrás de si, homens fortes com remos e varas de madeira dura nas mãos, mas nenhum deles estava se adiantando para ajudá-lo. Juntos, poderiam dominar Sandor Clegane, embora ele provavelmente matasse três ou quatro antes de o derrubarem.

– Como é que eu sei que tem o dinheiro? – perguntou o corcunda após um momento.

Não tem, ela quis gritar. Em vez disso, mordeu o lábio.

– Honra de cavaleiro – disse Cão de Caça, sem sorrir.

Ele nem sequer é um cavaleiro. Também não disse isso.

– Serve. – O barqueiro cuspiu. – Então venha, podemos levá-lo para a outra margem antes de escurecer. Amarre o cavalo, não o quero espantado quando estivermos a caminho. Há um braseiro na cabine se você e o seu filho quiserem se aquecer.

Não sou o estúpido filho dele! – disse Arya, furiosa. Aquilo era ainda pior do que ser confundida com um menino. Estava tão zangada que poderia ter lhes dito quem realmente era, mas Sandor Clegane agarrou-a pela parte de trás do colarinho e ergueu-a do convés com apenas uma mão.

– Quantas vezes tenho de lhe dizer para fechar a merda dessa boca? – sacudiu-a com tanta força que os dentes matraquearam e depois deixou-a cair. – Vá lá para dentro e seque-se, como o homem disse.

Arya fez o que lhe foi ordenado. O grande braseiro de ferro brilhava, vermelho, enchendo a sala com um calor carregado e sufocante. Era agradável estar junto a ele, aquecer as mãos e secar-se um pouco, mas assim que sentiu o convés mover-se debaixo dos pés, voltou a deslizar pela porta da frente.

O cavalo de duas cabeças deslocava-se lentamente pelos baixios, abrindo caminho por entre as chaminés e os telhados da submersa Harroway. Uma dúzia de homens labutava aos remos, enquanto outros quatro usavam as longas varas para empurrar o barco sempre que se aproximassem de uma pedra, uma árvore ou uma casa afundada. O homem corcunda manejava o leme. A chuva tamborilava nas tábuas lisas do convés e respingava nas grandes cabeças de cavalo esculpidas que ficavam na proa e na popa. Arya estava ficando ensopada de novo, mas não se importava. Queria ver. Viu que o homem com a besta ainda se encontrava na janela da torre. Seus olhos seguiram-na enquanto o barco deslizava por baixo. Perguntou a si mesma se seria ele o tal Lorde Roote que Cão de Caça mencionara. Não se parece muito com um senhor. Mas a verdade era que ela também não se parecia muito com uma senhora.

Depois de estarem fora da vila e no rio propriamente dito, a corrente ficou muito mais forte. Através da neblina cinzenta da chuva Arya conseguiu distinguir um alto pilar de pedra na outra margem, que certamente assinalava o cais para o barco, mas assim que o viu compreendeu que estavam sendo empurrados para longe dele, para jusante. Os remadores agora estavam remando com mais vigor, lutando contra a fúria do rio. Folhas e galhos partidos passaram pelo barco rodopiando, tão depressa como se tivessem sido disparados de uma balista. Os homens das varas inclinavam-se para fora e empurravam para longe qualquer coisa que se aproximasse em excesso. Ali também fazia mais vento. Sempre que se virava para olhar para montante, Arya ficava com o rosto molhado da chuva soprada pelo vento. Estranho relinchava e escoiceava enquanto o convés se movia por baixo de suas patas.

Se eu saltasse pela borda, o rio iria me levar antes mesmo que o Cão de Caça desse por minha falta. Olhou por sobre um ombro, e viu Sandor Clegane lutando com o cavalo assustado, tentando acalmá-lo. Nunca teria uma oportunidade melhor de se ver livre dele. Mas poderia me afogar. Jon costumava dizer que ela nadava como um peixe, mas até um peixe podia ter problemas naquele rio. Mesmo assim, o afogamento podia ser melhor do que Porto Real. Pensou em Joffrey e aproximou-se lentamente da proa. O rio estava marrom-escuro, devido à lama, e era açoitado pela chuva, parecendo-se mais com uma sopa do que com água. Arya perguntou a si mesma se a água estaria muito fria. Não posso ficar muito mais molhada do que estou agora. Apoiou uma mão na amurada.

Mas um súbito grito fez Arya virar a cabeça antes de ter tempo de saltar. Os barqueiros corriam em frente, de varas na mão. Por um momento não compreendeu o que estava acontecendo. Então viu: uma árvore desenraizada, enorme e escura, que vinha direto na direção do barco. Um emaranhado de raízes e ramos projetava-se da água como os braços estendidos de uma grande lula gigante. Os homens remavam freneticamente para trás, tentando evitar uma colisão que poderia virar o barco ou abrir um rombo em seu casco. O velho tinha virado o leme por completo, e o cavalo da proa estava se voltando para jusante, mas muito devagar. Cintilando em castanho e negro, a árvore corria para eles como um aríete.

Não podia estar a mais de três metros da proa quando dois dos barqueiros conseguiram encostar suas longas varas nela. Uma partiu-se, e o longo craaac do estilhaçamento fez com que parecesse que o barco estava se desfazendo por baixo deles. Mas o segundo homem conseguiu dar um forte empurrão no tronco, apenas o suficiente para afastá-lo. A árvore passou pelo barco a grande velocidade, a uma distância apenas de centímetros, com os galhos arranhando a cabeça de cavalo como se fossem garras. No momento em que pareciam estar a salvo, um dos ramos superiores do monstro deu-lhes uma pancada de raspão. O barco pareceu estremecer, e Arya escorregou, caindo dolorosamente sobre um joelho. O homem com a vara quebrada não teve tanta sorte. Arya ouviu-o gritar quando tropeçou na amurada. Depois, as furiosas águas marrons fecharam-se sobre ele, e o barqueiro desapareceu no tempo que Arya demorou para voltar a ficar em pé. Um dos outros homens pegou um rolo de corda, mas não havia ninguém a quem atirá-la.