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Talvez seja levado a algum lugar, mais abaixo, Arya tentou dizer a si mesma, mas o pensamento soava oco. Tinha perdido todo o desejo de nadar. Quando Sandor Clegane gritou para que voltasse para dentro antes que lhe desse uma surra, Arya obedeceu docilmente. A essa altura, o barco lutava para voltar à rota, contra um rio que só desejava levá-lo para o mar.

Quando por fim atracaram, foi a uma considerável distância do embarcadouro habitual. O barco bateu com tanta força na margem que outra vara se partiu, e Arya quase se desequilibrou mais uma vez. Sandor Clegane colocou-a no dorso de Estranho como se não fosse mais pesada do que uma boneca. Os barqueiros fitaram-nos com olhos baços e exaustos, todos menos o corcunda, que estendeu a mão.

– Seis dragões – exigiu. – Três pela passagem, e três pelo homem que perdi.

Sandor Clegane esquadrinhou a bolsa e jogou na palma da mão do homem um maço amarrotado de pergaminho.

– Tome. Fique com dez.

– Dez? – o barqueiro estava confuso. – O que é isso agora?

– Uma nota de um morto, que vale nove mil dragões, ou por aí. – Cão de Caça saltou para a sela atrás de Arya e deu um sorriso desagradável ao homem. – Dez são seus. Um dia voltarei para vir buscar o resto, por isso vê lá se não gasta tudo.

O homem semicerrou os olhos para o pergaminho.

– Escrita. De que vale a escrita? Prometeu ouro. Honra de cavaleiro, você disse.

– Os cavaleiros não têm honra nenhuma. Já é hora de aprender isso, velho. – Cão de Caça esporeou o cavalo e afastou-se a galope através da chuva. Os barqueiros lançaram pragas às suas costas, e um ou dois arremessaram pedras. Clegane ignorou tanto as pedras como as palavras, e pouco tempo depois estavam perdidos na sombra das árvores, com o rio reduzido a um rugido minguante atrás deles. – O barco não voltará a atravessar até amanhã – disse – e aqueles ali não aceitarão promessas de papel dos próximos idiotas que aparecerem. Se os seus amigos vierem atrás de nós, vão ter de ser nadadores fortes como o diabo.

Arya encolheu-se e ficou calada. Valar morghulis, pensou, de mau humor. Sor Ilyn, Sor Meryn, Rei Joffrey, Rainha Cersei. Dunsen, Polliver, Raff, o Querido, Sor Gregor e Cócegas. E Cão de Caça, Cão de Caça, Cão de Caça.

Quando a chuva parou e as nuvens se abriram, estava tremendo e espirrando tanto que Clegane decidiu parar para a noite e até tentou acender uma fogueira. Mas a madeira que reuniram revelou-se encharcada demais. Nada que Cão de Caça fizesse era suficiente para que a centelha pegasse. Por fim, desfez o monte de lenha aos pontapés, irritado.

– Sete malditos infernos – praguejou. – Detesto fogueiras.

Sentaram-se em pedras molhadas por baixo de um carvalho, escutando o lento bater de água que pingava das folhas enquanto comiam um jantar frio de pão duro, queijo bolorento e salsicha defumada. Cão de Caça cortava a carne com o punhal e semicerrou os olhos quando flagrou Arya olhando para a faca.

– Nem pense nisso.

– Não estava pensando – mentiu ela.

Ele fungou, para mostrar o que pensava daquilo, mas deu-lhe uma grossa fatia de salsicha. Arya pôs-se a roê-la, observando-o enquanto comia.

– Nunca bati na sua irmã – disse Cão de Caça. – Mas bato em você, se me levar a isso. Pare de tentar pensar em maneiras de me matar. Nenhuma servirá de nada para você.

Ela não tinha resposta para aquela ameaça. Continuou roendo a salsicha e fitou-o friamente. Dura como pedra, pensou.

– Ao menos você olha para a minha cara. Isso admito, pequena loba. Gosta dela?

– Não. Está toda queimada e é feia.

Clegane ofereceu-lhe um pedaço de queijo com a ponta do punhal.

– É uma tolinha. De que adiantaria se conseguisse fugir? Acabaria sendo capturada por alguém pior.

– Não acabaria nada – insistiu ela. – Não há ninguém pior.

– Não conheceu o meu irmão. Gregor uma vez matou um homem por roncar. Um de seus próprios homens. – Quando sorriu, o lado queimado do rosto retesou-se, torcendo sua boca de uma maneira estranha e desagradável. Ele não tinha lábios desse lado, e a orelha não passava de um resto.

– Conheci o seu irmão, sim senhor. – A Montanha talvez fosse pior, agora que Arya pensava nisso. – Conheci tanto ele qunato Dunsen, Polliver, Raff, o Querido, e Cócegas.

Cão de Caça pareceu surpreso.

– E como é que a preciosa filhinha de Ned Stark chegou a conhecer gente como essa? Gregor nunca traz suas ratazanas de estimação à corte.

– Conheço-os da aldeia. – Comeu o queijo, e estendeu a mão para um naco de pão duro. – A aldeia junto ao lago onde capturaram Gendry, eu e Torta Quente. Também capturaram Lommy Mãos-Verdes, mas Raff, o Querido, matou-o porque tinha a perna ferida.

A boca de Clegane torceu-se.

– Capturou-a? Meu irmão capturou-a? – Isso fez com que risse, um som amargo, em parte trovão, em parte rosnido. – Gregor nunca soube o que tinha nas mãos, não é? Não podia ter sabido, senão tinha arrastado você, esperneando e aos gritos, para Porto Real, e despejado no colo de Cersei. Oh, que maravilha. Não posso me esquecer de lhe dizer, antes de arrancar o coração dele.

Não era a primeira vez que ele falava em matar a Montanha.

– Mas ele é seu irmão – disse Arya, num tom hesitante.

– Nunca teve um irmão que quisesse matar? – voltou a rir. – Ou talvez uma irmã? – então deve ter visto qualquer coisa em seu rosto, porque se debruçou para mais perto. – Sansa. É isso, não é? A loba quer matar o passarinho.

– Não – cuspiu-lhe Arya em resposta. – Quero matar você.

– Por que cortei ao meio o seu amiguinho? Matei muitos mais do que ele, garanto. Acha que isso faz de mim um monstro qualquer. Bem, talvez faça, mas também salvei a vida de sua irmã. No dia em que a multidão a derrubou de cima do cavalo, abri caminho pelo meio deles com a espada e trouxe-a de volta ao castelo. Caso contrário, teriam dado a ela o mesmo que deram à Lollys Stokeworth. E cantou para mim. Não sabia disso, não é? Sua irmã cantou para mim uma cançãozinha doce.

– Está mentindo – disse ela de imediato.

– Não sabe nem metade do que pensa que sabe. A Água Negra? Onde, com os sete infernos, você acha que nós estamos? Para onde acha que vamos?

O escárnio na voz dele fez com que ela hesitasse.

– De volta a Porto Real – disse. – Vai me levar a Joffrey e à rainha. – De repente, só pelo modo como ele colocava as questões, compreendeu que se enganava. Mas tinha de dizer alguma coisa.

– Lobinha estúpida e cega. – A voz dele era áspera e dura como um raspar de ferro. – Que se dane o Joffrey, que se dane a rainha, e que se dane aquela gargulazinha retorcida que ela chama de irmão. Estou farto da cidade deles, farto da sua Guarda Real, farto de Lannisters. O que faz um cão com leões, pergunto a você. – Estendeu a mão para o odre de água e bebeu um longo gole. Enquanto limpava a boca, ofereceu o odre a Arya e disse: – O rio era o Tridente, garota. O Tridente, não a Água Negra. Faça o mapa na cabeça, se for capaz. Amanhã devemos chegar à estrada do rei. Devemos avançar a bom ritmo depois disso, direto às Gêmeas. Serei eu quem vai entregá-la àquela sua mãe. Não o nobre senhor do relâmpago ou a fraude flamejante daquele sacerdote, o monstro. – Sorriu ao ver a expressão de seu rosto. – Acha que seus amigos fora da lei são os únicos capazes de farejar um resgate? Dondarrion ficou com o meu ouro, portanto eu fiquei com você. Diria que vale o dobro daquilo que me roubaram. Talvez até valesse mais se a vendesse de volta aos Lannister, como teme, mas não o farei. Até um cão se cansa de levar pontapés. Se este Jovem Lobo tiver a esperteza que os deuses concederam a um sapo, vai fazer de mim fidalgo e vai me suplicar para entrar no seu serviço. Ele precisa de mim, embora possa não saber disso ainda. Talvez chegue mesmo a matar Gregor em seu nome, ele haveria de gostar.