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– Ele nunca o aceitará – cuspiu ela em resposta. – Você, não.

– Nesse caso, aceito tanto ouro quanto consiga carregar, rio na cara dele e vou embora. Se ele não me aceitar, seria esperto se me matasse, mas não o fará. É demasiado filho do seu pai, segundo tenho ouvido dizer. Por mim tudo bem. Seja como for, quem ganha sou eu. E você também, loba. Portanto pare de choramingar e de me responder torto, que eu estou farto. Mantenha a boca fechada e faça o que eu lhe disser, e talvez até cheguemos a tempo do maldito casamento de seu tio.

Jon

A égua estava esgotada, mas Jon não podia dar descanso a ela. Tinha de chegar à Muralha antes do Magnar. Teria dormido na sela se tivesse uma; na falta disso, já era suficientemente difícil manter-se montado quando acordado. Sua perna ferida doía cada vez mais. Não se atrevia a descansar tempo suficiente para permitir que sarasse. Em vez disso, reabria a ferida sempre que montava.

Quando chegou ao topo de uma elevação e viu os sulcos marrons da estrada do rei à sua frente, abrindo seu caminho sinuoso para o norte através de montes e planícies, deu palmadinhas no pescoço da égua e disse:

– Agora tudo que temos de fazer é seguir a estrada, garota. Em breve chegaremos à Muralha. – A essa altura, sua perna já havia se tornado rígida como madeira, e a febre o tinha deixado fora do ar que dera por si por duas vezes cavalgando na direção errada.

Em breve chegaremos à Muralha. Imaginava os amigos bebendo vinho quente na sala comum. Hobb estaria com suas panelas; Donal Noye, em sua forja; Meistre Aemon, em seus aposentos sob a colônia dos corvos. E o Velho Urso? Sam, Grenn, Edd Doloroso, Dywen com os seus dentes de madeira... Jon só podia rezar para que alguns deles tivessem escapado do Punho.

Ygritte também andava muito em seus pensamentos. Recordava o cheiro de seus cabelos, o calor de seu corpo... e a expressão em seu rosto no momento em que cortava a garganta do velho. Fez mal em amá-la, sussurrava uma voz. Fez mal em deixá-la, insistia uma voz diferente. Perguntava a si mesmo se o pai também se sentira assim dilacerado quando tinha deixado a mãe de Jon para voltar para junto da Senhora Catelyn. Estava juramentado a Senhora Stark, e eu estou juramentado à Patrulha da Noite.

Quando atravessou a Vila Toupeira, estava a tal ponto febril que quase não reconheceu onde se encontrava. A maior parte da aldeia escondia-se no subsolo, com não mais de um punhado de pequenas cabanas à vista, à luz do quarto minguante. O bordel era um casebre não maior do que uma latrina, com uma lanterna vermelha rangendo ao vento, um olho injetado de sangue espiando a escuridão. Jon desmontou no estábulo anexo, quase caindo do cavalo enquanto acordava dois rapazes com um grito.

– Preciso de uma montaria nova, com sela e arreios – disse-lhes, num tom que não admitia discussões. Trouxeram-lhe o que pediu; e também um odre de vinho e meia fatia de pão de centeio. – Acordem a aldeia – disse-lhes. – Previna-os. Há selvagens a sul da Muralha. Juntem os seus bens e dirijam-se a Castelo Negro. – Empurrou-se para o dorso do castrado negro que lhe deram, cerrando os dentes devido às dores que a perna lhe causava, e cavalgou rapidamente para o norte.

À medida que as estrelas começavam a desvanecer no céu oriental, a Muralha foi surgindo à sua frente, erguendo-se acima das árvores e das névoas da manhã. O luar cintilava, pálido, no gelo. Incentivou o castrado a avançar, seguindo a estrada lamacenta e escorregadia até ver as torres de pedra e os edifícios de madeira de Castelo Negro, aninhados como brinquedos quebrados sob a grande falésia de gelo. A essa altura a Muralha brilhava em tons de rosa e púrpura com a primeira luz da alvorada.

Nenhuma sentinela o desafiou ao passar pelos edifícios exteriores. Ninguém surgiu para barrar seu caminho. Castelo Negro parecia tanto uma ruína como Guardagris. Ervas daninhas marrons e quebradiças cresciam entre fendas nas pedras dos pátios. Neve antiga cobria o telhado da Caserna de Pederneira e encostava-se, em montículos empurrados pelo vento, à face norte da Torre de Hardin, onde Jon costumava dormir antes de ser nomeado intendente do Velho Urso. Dedos de fuligem manchavam a Torre do Senhor Comandante, nos locais onde a fumaça se derramara das janelas. Mormont tinha se mudado para a Torre do Rei após o incêndio, mas Jon também não viu luzes ali. Do chão não podia dizer se haveria sentinelas patrulhando a Muralha duzentos metros acima, mas não viu ninguém na enorme escada em zigue-zague que subia a face sul do gelo como se fosse um enorme relâmpago de madeira.

Mas subia fumaça pela chaminé do arsenal; só um fiapo, quase invisível contra o céu cinzento do Norte. Era o bastante. Jon desmontou e mancou para lá. Jorrava calor da porta aberta como se fosse o hálito quente do verão. Lá dentro, Donal Noye manejava só com um braço os seus foles junto ao fogo. Ergueu o olhar ao ouvir barulho.

– Jon Snow?

– Ele mesmo. – Apesar da febre, da exaustão, da perna, do Magnar, do velho, de Ygritte, de Mance, apesar de tudo, Jon sorriu. Era bom estar de volta, era bom ver Noye com a sua grande barriga e a manga arregaçada, com o queixo eriçado de curtos pelos negros.

O ferreiro largou os foles.

– A sua cara...

Quase tinha se esquecido do rosto.

– Um troca-peles tentou arrancar meu olho.

Noye franziu a testa.

– Marcada ou não, é uma cara que eu pensava que não voltaria a ver. Ouvimos dizer que tinha passado para o lado de Mance Rayder.

Jon agarrou-se à porta para se manter em pé.

– Quem lhe disse isso?

– Jarman Buckwell. Ele voltou há uma quinzena. Seus batedores dizem que viram você com os próprios olhos, acompanhando a coluna dos selvagens com um manto de pele de ovelha sobre os ombros. – Noye observou-o. – Vejo que a última parte é verdade.

– É tudo verdade – confessou Jon. – Até aí, pelo menos.

– Nesse caso, devia pegar uma espada para estripá-lo?

– Não. Estava agindo sob ordens. A última ordem de Qhorin Meia-Mão. Noye, onde está a guarnição?

– Defendendo a Muralha contra os seus amigos selvagens.

– Sim, mas onde?

– Por todo lado. Harma Cabeça de Cão foi vista em Atalaiabosque da Lagoa, Camisa de Chocalho no Monte Longo, Chorão perto de Marcagelo. Ao longo de toda a Muralha... estão aqui, estão ali, estão escalando perto do Portão da Rainha, estão atacando os portões de Guardagris, estão se reunindo para atacar Atalaialeste... mas um vislumbre de um manto negro e desaparecem. No dia seguinte, estão em outro lugar qualquer.

Jon engoliu um gemido.

– Simulações. Mance quer que fiquemos bem espalhados, não vê? – E Bowen Marsh fez sua vontade. – O portão está aqui. O ataque será aqui.

Noye atravessou a sala.

– Sua perna está ensopada de sangue.

Jon olhou para baixo, entorpecido. Era verdade. A ferida tinha voltado a abrir.

– Um ferimento de flecha...

– Uma flecha de selvagem. – Não era uma pergunta. Noye só tinha um braço, mas o que tinha era grosso e musculoso. Enfiou-o sob o de Jon para ajudar a apoiá-lo. – Está branco como leite, e fervendo. Vou levá-lo a Aemon.

– Não há tempo para isso. Há selvagens ao sul da Muralha, subindo de Coroadarrainha para abrir o portão.

– Quantos? – Noye quase carregou Jon porta fora.

– Cento e vinte, e bem armados para selvagens. Armaduras de bronze, alguns pedaços de aço. Quantos homens restam aqui?

– Quarenta e poucos – disse Donal Noye. – Os aleijados e os enfermos, e alguns rapazes verdes ainda em treinamento.

– Se Marsh partiu, quem foi que o nomeou como castelão?