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O armeiro soltou uma gargalhada.

– Sor Wynton, que os deuses o protejam. O último cavaleiro no castelo, e tudo mais. O problema é que o Stout parece ter se esquecido e ninguém se apressou em lembrá-lo disso. Suponho que sou o melhor que temos agora como comandante. O mais feroz dos aleijados.

Pelo menos isso era bom. O armeiro maneta era obstinado, duro e bem experimentado na guerra. Sor Wynton Stout, por outro lado... bem, ele tinha sido um bom homem outrora, todos concordavam, mas passara oitenta anos como patrulheiro e tanto suas forças como seu juízo tinham sumido. Uma vez adormeceu durante o jantar e quase se afogou numa tigela de sopa de ervilhas.

– Onde está o seu lobo? – perguntou Noye enquanto atravessavam o pátio.

– Fantasma. Tive de abandoná-lo quando escalei a Muralha. Tinha esperança de que ele tivesse conseguido chegar aqui.

– Lamento, jovem. Não houve sinal dele. – Coxearam até a porta do meistre, no longo edifício de madeira sob a colônia de corvos. O armeiro deu um chute nela. – Clydas!

Após um momento, um homenzinho, de ombros curvados e vestido de negro pôs a cabeça para fora. Seus pequenos olhos cor-de-rosa esbugalharam-se ao ver Jon.

– Deite o moço, vou buscar o meistre.

Ardia um fogo na lareira, e a sala estava quase abafada. O calor deixou Jon sonolento. Assim que Noye o deitou de costas, fechou os olhos para fazer com que o mundo parasse de girar. Ouvia os corvos crocitando e protestando, na colônia, por cima de sua cabeça. “Snow”, uma ave estava dizendo. “Snow, snow, snow.” Jon lembrou-se de que aquilo havia sido obra de Sam. Perguntou a si mesmo se Samwell Tarly teria retornado em segurança, ou se tinham sido apenas as aves dele.

Meistre Aemon não demorou a chegar. Deslocava-se lentamente, com uma mão manchada apoiada no braço de Clydas, enquanto avançava com pequenos passos cautelosos. Em volta de seu pescoço fino, a corrente caía pesadamente, com os elos de ouro e prata cintilando entre ferro, chumbo, estanho e outros metais menos nobres.

– Jon Snow – disse ele –, quando estiver mais forte, precisa me contar tudo o que viu e fez. Donal, ponha uma chaleira de vinho no fogo e os meus ferros também. Vou querê-los em brasa. Clydas, vou precisar daquela sua faca boa e afiada. – O meistre tinha mais de cem anos; era encolhido, frágil, calvo e bem cego. Mas se os seus olhos leitosos nada viam, a sua mente ainda era tão aguçada como sempre fora.

– Há selvagens a caminho – contou Jon, enquanto Clydas lhe abria os calções com uma faca, cortando o pesado pano negro, incrustado de sangue velho e empapado com o novo. – Vindos do sul. Nós escalamos a Muralha...

Meistre Aemon cheirou o curativo improvisado de Jon quando Clydas o cortou.

– Nós?

– Eu acompanhava-os. Qhorin Meia-Mão ordenou-me que me juntasse a eles. – Jon estremeceu quando o dedo do meistre explorou seu ferimento, cutucando e espetando. – O Magnar de Thenn... aaaaaah, isso dói. – Cerrou os dentes. – Onde está o Velho Urso?

– Jon... dói-me dizer isso, mas o Senhor Comandante Mormont foi assassinado na Fortaleza de Craster, pelas mãos de seus Irmãos Juramentados.

– Irm... os nossos próprios homens? – as palavras de Aemon doeram cem vezes mais do que os seus dedos. Jon recordou o Velho Urso como o vira pela última vez, em pé diante de sua tenda com o corvo no braço, crocitando, pedindo milho. Mormont morto? Temera isso desde que vira o resultado da batalha no Punho, mas nem assim o golpe era menor. – Quem foi? Quem é que se virou contra ele?

– Garth de Vilavelha, Ollo Mão-Cortada, Adaga... ladrões, covardes e assassinos, todos eles. Devíamos ter previsto que isso iria acontecer. A Patrulha não é o que já foi. Há homens honestos de menos para manter os patifes na linha. – Donal Noye virou as lâminas do meistre no fogo. – Uma dúzia de homens leais conseguiu voltar. Edd Doloroso, Gigante, seu amigo Auroque. Soubemos da história por eles.

Só uma dúzia? Tinham saído duzentos homens de Castelo Negro com o Senhor Comandante Mormont, duzentos dos melhores homens da Patrulha.

– Isso quer dizer então que Marsh é o Senhor Comandante? – a Velha Romã era amigável, e um diligente Primeiro Intendente, mas era completamente inadequado para enfrentar uma tropa de selvagens.

– Por enquanto, até organizarmos uma eleição – disse Meistre Aemon. – Clydas, traga-me o frasco.

Uma eleição. Com Qhorin Meia-Mão e Sor Jaremy Rykker mortos e Ben Stark ainda desaparecido, quem restava? Nem Bowen Marsh nem Sor Wynton Stout, isso era certo. Teria Thoren Smallwood sobrevivido ao Punho, ou Sor Ottyn Wythers? Não, será Cotter Pyke ou Sor Denys Mallister. Mas qual deles? Os comandantes da Torre Sombria e de Atalaialeste eram bons homens, mas muito diferentes; Sor Denys era cortês e cauteloso, tão cavalheiresco quanto idoso, Pyke era mais jovem, de nascimento bastardo, de língua rude e excessivamente ousado. Pior, os dois homens desprezavam-se mutuamente. O Velho Urso sempre os mantivera afastados, nas extremidades opostas da Muralha. Jon sabia que os Mallister possuíam uma desconfiança congênita com relação aos homens de ferro.

Uma punhalada de dor fez-lhe lembrar os próprios infortúnios. O meistre apertou sua mão.

– Clydas foi buscar leite de papoula.

Jon tentou se levantar.

– Não preciso...

– Precisa – disse Aemon com firmeza. – Isto vai doer.

Donal Noye atravessou a sala e obrigou Jon a se deitar novamente.

– Fique quieto, senão o amarro. – Mesmo com apenas um braço, o ferreiro controlava-o como se fosse uma criança.

Clydas voltou com um frasco verde e uma taça arredondada de pedra. Meistre Aemon encheu-a.

– Beba isto.

Jon tinha mordido o lábio. Sentiu o sabor do sangue misturado com o da sedimentosa poção branca. Quase vomitou.

Clydas trouxe uma bacia de água quente, e Meistre Aemon lavou o pus e o sangue do ferimento. Por mais gentil que fosse, até o toque mais leve fazia com que Jon quisesse gritar.

– Os homens do Magnar são disciplinados e têm armaduras de bronze – disse-lhes. Falar ajudava a manter a mente afastada da perna.

– O Magnar é um senhor em Skagos – disse Noye. – Havia skagositas em Atalaialeste quando cheguei à Muralha, lembro-me de ouvi-los falando dele.

– Jon está usando a palavra em seu sentido mais antigo, creio eu – disse Meistre Aemon –, não como nome de família, mas como título. Deriva do Idioma Antigo.

– Significa senhor – concordou Jon. – Styr é o Magnar de um lugar qualquer chamado Thenn, na extremidade norte das Presas de Gelo. Tem uma centena de seus homens e uma vintena de corsários que conhecem a Dádiva quase tão bem quanto nós. Mas Mance nunca chegou a encontrar o berrante, isso vale de alguma coisa. O Berrante do Inverno. Era isso que ele andava à procura nas escavações que fez nas nascentes do Guadeleite.

Meistre Aemon fez uma pausa, com o pano da lavagem na mão.

– O Berrante do Inverno é uma lenda antiga. O Rei-Para-lá-da-Muralha realmente acredita que tal coisa existe?

– Todos acreditam – disse Jon. – Ygritte disse que abriram uma centena de tumbas... tumbas de reis e heróis, ao longo de todo o vale do Guadeleite, mas não chegaram...

– Quem é Ygritte? – perguntou Donal Noye sem rodeios.

– Uma mulher do povo livre. – Como poderia explicar Ygritte para eles? Ela é quente, esperta e engraçada, e tanto pode beijar um homem como rasgar seu pescoço. – Ela está com Styr, mas não é... é jovem, só uma garota, na verdade, selvagem, mas ela... – Ela matou um velho por fazer uma fogueira. Sentiu a língua inchada e desajeitada. O leite de papoula estava anuviando seus pensamentos. – Quebrei os meus votos com ela. Não queria, mas... – Foi errado. Foi errado amá-la, foi errado deixá-la... – Não fui suficientemente forte. O Meia-Mão ordenou-me, cavalgue com eles, observe, não posso vacilar, eu... – Sentia a cabeça como se estivesse recheada de lã molhada.