Quando se aproximaram das Gêmeas, Robb colocou a coroa e chamou Catelyn e Edmure para cavalgarem a seu lado. Sor Raynald Westerling levava o seu estandarte, o lobo gigante de Stark sobre o fundo cor de gelo.
As torres da guarita emergiram da chuva como fantasmas, aparições cinzentas e brumosas que iam ficando mais sólidas à medida que se aproximavam. A fortaleza Frey não era um castelo, mas dois; imagens espelhadas de pedra úmida, erguidas dos lados opostos da água, ligadas por uma grande ponte em arco. No centro dessa ponte estava a Torre da Água, com o rio correndo por baixo, direto e veloz. Tinham sido abertos canais nas margens, para formar fossos que transformavam cada uma das gêmeas numa ilha. As chuvas tinham transformado os fossos em lagos rasos.
Do outro lado das águas turbulentas, Catelyn conseguia ver vários milhares de homens acampados em volta do castelo oriental, com estandartes que pendiam, como outros tantos gatos afogados, das lanças à porta de suas tendas. A chuva tornava impossível distinguir cores e símbolos. A maioria era cinza, parecia a ela, se bem que, sob aquele tipo de céu, todo o mundo parecia cinza.
– Pise aqui com cautela, Robb – disse, prevenindo o filho. – Lorde Walder tem a pele fina e a língua afiada, e alguns desses seus filhos devem sem dúvida ter saído ao pai. Não pode deixar que o provoquem.
– Eu conheço os Frey, mãe. Sei quanto os injuriei e até que ponto necessito deles. Serei doce como um septão.
Catelyn mexeu-se desconfortavelmente na sela.
– Se nos forem oferecidos refrescos na chegada, não recuse sob nenhum pretexto. Aceite o que for oferecido, e coma e beba onde todos possam ver. Se nada for oferecido, peça pão, queijo e uma taça de vinho.
– Estou mais molhado do que faminto...
– Robb, escute-me. Depois de comer do seu pão e sal, tem os direitos do hóspede, e as leis da hospitalidade protegem-no sob o telhado dele.
Robb pareceu mais divertido do que assustado.
– Tenho um exército para me proteger, mãe, não preciso confiar em pão e sal. Mas se Lorde Walder desejar me servir corvo guisado recheado de larvas, vou comê-lo e pedirei uma segunda porção.
Quatro Frey saíram a cavalo da guarita ocidental, envoltos em pesados mantos e espessa lã cinza. Catelyn reconheceu Sor Ryman, filho do falecido Sor Stevron, o primogênito de Lorde Walder. Com o pai morto, Ryman era herdeiro das Gêmeas. O rosto que viu por baixo de seu capuz era robusto, largo e bruto. Os outros três eram provavelmente filhos dele, bisnetos de Lorde Walder.
Edmure confirmou essa suposição.
– Edwyn é o mais velho, o homem pálido e esguio com cara de prisão de ventre. O duro com a barba é Walder Negro, um tipo bem desagradável. Petyr vem no baio, é o rapaz com a cara destroçada. Os irmãos chamam-no de Petyr Espinha. É só um ano ou dois mais velho do que Robb, mas Lorde Walder casou-o aos dez anos com uma mulher com o triplo da idade dele. Deuses, espero que Roslin não se pareça com ele.
Pararam para permitir que os anfitriões viessem até eles. O estandarte de Robb pendia de seu mastro, e o som constante da chuva misturava-se com o estrondo do Ramo Verde em enchente, à direita. Vento Cinzento avançou ligeiramente, de cauda tesa, observando através de olhos rasgados de um dourado escuro. Quando os Frey se aproximaram até meia dúzia de metros, Catelyn ouviu-o rosnar, um ribombar profundo que parecia quase unir-se à fúria do rio. Robb pareceu alarmado.
– Vento Cinzento, aqui. Aqui!
Mas o lobo gigante saltou em frente, rosnando.
O palafrém de Sor Ryman recuou com um relincho de medo, e o de Petyr Espinha empinou-se e derrubou-o. Só Walder Negro manteve a montaria sob controle. Estendeu a mão para o cabo da espada.
– Não! – Robb gritou. – Vento Cinzento, aqui. Aqui. – Catelyn esporeou e colocou-se entre o lobo gigante e os outros cavalos. Lama espirrou dos cascos de sua égua quando cortou o caminho de Vento Cinzento. O lobo desviou-se, e só então pareceu ouvir os chamados de Robb.
– É assim que um Stark faz as pazes? – gritou Walder Negro, com aço nu na mão. – Parece-me uma saudação ruim mandar o seu lobo contra nós. Foi para isso que veio?
Sor Ryman tinha desmontado para ajudar Petyr Espinha a se levantar. O rapaz estava enlameado, mas não se ferira.
– Vim para pedir perdão pela desfeita que fiz à sua Casa e para assistir ao casamento de meu tio. – Robb saltou de sua sela. – Petyr, leve o meu cavalo. O seu quase já chegou ao estábulo.
Petyr olhou para o pai e disse:
– Posso seguir na garupa de um dos meus irmãos.
Os Frey não mostraram qualquer sinal de reverência.
– Chegaram tarde – declarou Sor Ryman.
– As chuvas atrasaram-nos – disse Robb. – Enviei uma ave.
– Não vejo a mulher.
Por a mulher, Sor Ryman referia-se a Jeyne Westerling, e todos sabiam. A Senhora Catelyn sorriu com uma expressão apologética.
– A Rainha Jeyne estava fatigada após tantas viagens, senhores. Sem dúvida ficará feliz em vir visitá-los quando os tempos estiverem mais estáveis.
– Meu avô ficará descontente. – Embora Walder Negro tivesse embainhado a espada, o tom de voz não era mais amigável. – Falei muito a ele sobre a senhora, e ele desejava contemplá-la com os próprios olhos.
Edwyn limpou a garganta.
– Temos aposentos preparados para o senhor na Torre da Água, Vossa Graça – disse a Robb com uma cortesia cuidadosa –, bem como para Lorde Tully e a Senhora Stark. Os senhores seus vassalos também são convidados a se abrigar sob o nosso teto e a participar do banquete de casamento.
– E os meus homens? – perguntou Robb.
– O senhor meu avô lamenta não poder alimentar ou hospedar uma tropa tão grande. Temos sentido grandes dificuldades para encontrar forragem e mantimentos para nossos próprios recrutas. Apesar disso, os seus homens não serão negligenciados. Se atravessarem e montarem acampamento junto do nosso, levaremos barris de vinho e cerveja em quantidade suficiente para que todos bebam à saúde de Lorde Edmure e sua noiva. Erguemos três grandes tendas para banquetes na outra margem, para lhes dar algum abrigo das chuvas.
– O senhor seu pai é muito gentil. Meus homens vão lhe agradecer. Tiveram uma longa e úmida viagem.
Edmure Tully fez o cavalo avançar.
– Quando conhecerei a minha prometida?
– Ela espera o senhor lá dentro – prometeu Edwyn Frey. – Eu sei que irão perdoá-la se parecer tímida. Tem esperado este dia quase com ansiedade, pobre donzela. Mas talvez devamos prosseguir a conversa fora desta chuva?
– Certamente. – Sor Ryman voltou a montar, puxando Petyr Espinha para trás de si. – Se puderem me seguir, meu pai os espera. – Virou a cabeça do palafrém na direção das Gêmeas.
Edmure pôs-se ao lado de Catelyn.
– O Atrasado Lorde Frey podia ter achado por bem vir nos receber em pessoa – protestou. – Sou seu suserano e futuro genro, e Robb é seu rei.
– Quando tiver noventa e um anos, irmão, verá a vontade que tem de andar a cavalo na chuva. – Mas perguntou a si mesma se aquilo seria toda a verdade. Lorde Walder normalmente deslocava-se numa liteira coberta, que teria mantido a maior parte da chuva afastada. Uma desfeita deliberada? Se fosse, podia ser a primeira de muitas outras ainda por vir.
Houve mais problemas na guarita. Vento Cinzento recusou-se a avançar no meio da ponte levadiça, sacudiu a chuva do pelo e uivou à porta levadiça. Robb assobiou impacientemente.