– Doce.
– Creio que ela gostou de mim. Por que estava chorando?
– É uma donzela na véspera do casamento. Algumas lágrimas são normais. – Lysa chorou lagos na manhã do casamento de ambas, embora tivesse conseguido estar de olhos secos e radiante quando Jon Arryn pôs seu manto creme e azul sobre os ombros dela.
– Ela é mais bonita do que me atrevia a esperar. – Edmure levantou uma mão antes de Catelyn poder falar. – Eu sei que há coisas mais importantes, poupe-me do sermão, septã. Mesmo assim... viu algumas das outras donzelas que o Frey exibiu? A que tinha o tique? Seria aquilo a doença dos tremores? E aquelas gêmeas tinham mais crateras e acne no rosto do que o Petyr Espinha. Quando vi aquele bando, soube que Roslin seria careca e zarolha, com a inteligência do Guizo e o temperamento de Walder Negro. Mas ela parece tão gentil quanto bela. – Fez uma expressão perplexa. – Por que haveria a velha doninha de recusar que eu escolhesse se não pretendia me empurrar qualquer coisa hedionda?
– A sua queda por um rosto bonito é bem conhecida – relembrou-lhe Catelyn. – Talvez Lorde Walder realmente queira que seja feliz com a sua noiva. – Ou, o que é mais provável, talvez não tenha querido que você recuasse perante um furúnculo e dificultasse os planos dele. – Ou pode ser que Roslin seja a favorita do velho. O Senhor de Correrrio é uma união muito melhor do que a maior parte das suas filhas pode esperar.
– Isso é verdade. – Mas o irmão ainda parecia incerto. – Será possível que a garota seja estéril?
– Lorde Walder quer que o neto herde Correrrio. Que objetivo teria em lhe dar uma esposa estéril?
– Livra-se de uma filha que ninguém mais aceitaria.
– De pouco lhe serviria. Walder Frey é mesquinho, mas não é burro.
– Mesmo assim... será possível?
– Sim – concedeu Catelyn com relutância. – Há doenças que uma garota pode ter durante a infância que a deixam incapaz de conceber. No entanto, não existe motivo para crer que a Senhora Roslin tenha sofrido delas. – Percorreu o quarto com os olhos. – Os Frey receberam-nos com maior amabilidade do que eu esperava, a bem da verdade.
Edmure soltou uma gargalhada.
– Umas tantas palavras espinhosas e um pouco de regozijo indecoroso. Vindo dele, é cortesia. Esperava que a velha doninha mijasse em nosso vinho e nos obrigasse a elogiar a colheita.
O gracejo deixou Catelyn estranhamente inquieta.
– Se me der licença, eu devia ir vestir uma roupa seca.
– Como queira. – Edmure bocejou. – Eu talvez vá cochilar por uma hora.
Ela retirou-se para o seu quarto. O baú de roupa que trouxera de Correrrio tinha sido carregado para cima e posto aos pés da cama. Depois de se despir e de pendurar a roupa molhada perto da lareira, colocou um vestido quente de lã no vermelho e azul dos Tully, lavou e escovou os cabelos, deixou-os secar, e foi em busca dos Frey.
O trono negro de carvalho de Lorde Walder estava vazio quando entrou no salão, mas alguns de seus filhos estavam bebendo perto do fogo. Lothar Coxo ergueu-se desajeitadamente quando a viu.
– Senhora Catelyn, achei que estivesse descansando. Como posso ser útil?
– Estes são os seus irmãos? – perguntou ela.
– Irmãos, meios-irmãos, cunhados e sobrinhos. Raymund e eu partilhamos uma mãe. Lorde Lucias Vypren é esposo de minha meia-irmã Lythene e Sor Damon é filho deles. Creio que conhece o meu meio-irmão Sor Hosteen. E este é Sor Leslyn Haigh e os filhos, Sor Harys e Sor Donnel.
– Muito prazer, senhores. Sor Perwyn está no castelo? Ele ajudou a me escoltar a Ponta Tempestade e de volta a Correrrio, quando Robb me enviou para falar com Lorde Renly. Gostaria de revê-lo.
– Perwyn não se encontra nas Gêmeas – disse Lothar Coxo. – Darei os seus cumprimentos. Sei que ele sentirá por não se encontrar com a senhora.
– Decerto voltará a tempo do casamento da Senhora Roslin?
– Ele tinha essa esperança – disse Lothar Coxo –, mas com essa chuva... viu como correm os rios, senhora.
– De fato vi – disse Catelyn. – Posso pedir que me diga como posso falar com o seu meistre?
– Não está bem, senhora? – perguntou Sor Hosteen, um homem imponente, com um forte maxilar quadrado.
– É uma coisa de mulher. Nada que deva preocupá-lo, sor.
Lothar, sempre atencioso, saiu com ela do salão, acompanhou-a por alguns degraus acima e ao longo de uma ponte coberta até outra escada.
– Deverá encontrar Meistre Brenett no torreão lá em cima, senhora.
Catelyn quase esperava que o meistre fosse ser mais um dos filhos de Walder Frey, mas Brenett não se parecia com ele. Era um homem grande e gordo, calvo, com um queixo duplo e não muito asseado, a julgar pelos excrementos de corvo que manchavam as mangas de suas vestes, mas mostrou-se bastante amigável. Quando lhe falou das preocupações de Edmure a respeito da fertilidade da Senhora Roslin, soltou um risinho.
– O senhor seu irmão nada tem a temer, Senhora Catelyn. Ela é pequena, admito, e de ancas estreitas, mas a mãe era igual, e a Senhora Bethany deu ao Lorde Walder um filho a cada ano.
– Quantos sobreviveram à infância? – perguntou ela sem rodeios.
– Cinco. – Contou-os por dedos gordos como salsichas. – Sor Perwyn. Sor Benfrey. Meistre Willamen, que proferiu os votos no ano passado e agora serve Lorde Hunter no Vale. Olyvar, que foi escudeiro de seu filho. E a Senhora Roslin, a mais nova. Quatro rapazes e uma menina. Lorde Edmure terá tantos filhos que não saberá o que fazer com eles.
– Estou certa de que isso lhe agradará. – Então a garota era provavelmente tão fértil como agradável de se ver. Isso deve descansar a mente de Edmure. Lorde Walder não dera ao irmão motivos para se queixar, até onde Catelyn conseguia ver.
Não retornou ao seu quarto depois de deixar o meistre; em vez disso foi até Robb. Encontrou Robin Flint e Sor Wendel Manderly com ele, bem como Grande-Jon e o filho, que ainda chamavam de Pequeno-Jon, embora ameaçasse se tornar mais alto do que o pai. Estavam todos molhados. Outro homem, ainda mais molhado, encontrava-se em pé junto ao fogo com um manto rosa-claro forrado de pele branca.
– Lorde Bolton – disse ela.
– Senhora Catelyn – respondeu ele, com uma voz tênue –, é um prazer voltar a vê-la, mesmo em tempos tão difíceis.
– É bondade sua dizê-lo. – Catelyn conseguia sentir tristeza no aposento. Até Grande-Jon parecia melancólico e vencido. Olhou o rosto carregado dos homens e perguntou: – O que aconteceu?
– Lannisters no Tridente – disse Sor Wendel num tom infeliz. – Meu irmão foi capturado novamente.
– E Lorde Bolton trouxe-nos mais novidades de Winterfell – acrescentou Robb. – Sor Rodrik não foi o único bom homem a morrer. Cley Cerwyn e Leobald Tallhart foram também mortos.
– Cley Cerwyn não passava de um rapaz – disse ela, entristecida. – Então é verdade? Todos mortos e Winterfell destruído?
Os olhos claros de Bolton encontraram-se com os seus.
– Os homens de ferro queimaram tanto o castelo como a vila de Inverno. Parte do seu povo foi levado para o Forte do Pavor por meu filho, Ramsay.
– O seu bastardo foi acusado de graves crimes – relembrou-lhe Catelyn em tom penetrante. – Assassinato, violação e coisas piores.
– Sim – disse Roose Bolton. – Seu sangue está manchado, isso não é possível negar. Mas é um bom guerreiro, tão astuto quanto destemido. Quando os homens de ferro abateram Sor Rodrik, e Leobald Tallhard pouco tempo depois, coube a Ramsay liderar a batalha, e foi o que ele fez. Jura que não vai embainhar a espada enquanto um único Greyjoy permanecer no Norte. Talvez esse serviço possa servir como um pouco de compensação pelos crimes que o seu sangue bastardo o levou a cometer. – Encolheu os ombros. – Ou não. Quando a guerra terminar, Sua Graça deverá avaliar os fatos e julgar. Por ora, espero que a Senhora Walda já tenha me dado um filho legítimo.