– São tias e primas. – Sor Ryman bebeu um trago de vinho, com o suor escorrendo pelo rosto e desaparecendo na barba.
Um homem amargo, e embriagado, pensou Catelyn. O Atrasado Lorde Frey podia ser avaro no que tocava a alimentar os seus convidados, mas não tinha economizado na bebida. Cerveja, vinho e hidromel fluíam tão depressa quanto o rio, lá fora. Grande-Jon já estava para lá de bêbado. O filho de Lorde Walder, Merrett, estava competindo com ele, taça atrás de taça, mas Sor Whalen Frey desmaiou tentando acompanhar os dois. Catelyn teria preferido que Lorde Umber tivesse achado por bem permanecer sóbrio, mas dizer ao Grande-Jon para não beber era como lhe pedir para não respirar durante algumas horas.
O Pequeno-Jon Umber e Robin Flint estavam sentados perto de Robb, depois da Bela Walda e de Alyx, respectivamente. Nenhum dos dois estava bebendo; com Patrek Mallister e Dacey Mormont eram, naquela noite, os guardas do filho de Catelyn. Um banquete de casamento não era uma batalha, mas havia sempre perigo quando os homens se metiam nos copos, e um rei nunca devia ficar sem guarda. Catelyn sentia-se satisfeita com isso, e ainda mais com os cintos de espadas pendurados nos cabides ao longo das paredes. Nenhum homem precisa de uma espada para lidar com geleia de miolos de vitela.
– Todos pensavam que o meu senhor escolheria a Bela Walda – disse a Senhora Walda Bolton a Sor Wendel, gritando para ser ouvida por sobre a música. Ela mais parecia uma bola de sebo redonda e cor-de-rosa, com olhos azuis lacrimejantes, cabelos louros e sem força e um enorme busto, mas a voz era um guincho trêmulo. Era difícil imaginá-la no Forte do Pavor, com sua renda cor-de-rosa e capa de veiro. – Mas o senhor meu avô ofereceu a Roose o peso da noiva em prata como dote, e meu senhor de Bolton me escolheu. – Os queixos da garota estremeceram quando riu. – Peso quarenta quilos a mais do que a Bela Walda, mas esta foi a primeira vez que fiquei feliz por isso. Agora sou a Senhora Bolton, e minha prima ainda é donzela e em breve fará dezenove anos, pobrezinha.
Catelyn viu que o Senhor do Forte do Pavor não prestava qualquer atenção à tagarelice. Às vezes provava um pouco disso, uma colher daquilo, arrancando bocados de pão com dedos curtos e fortes, mas a refeição não era capaz de distraí-lo. Bolton fez um brinde aos netos de Lorde Walder quando o banquete de casamento começou, fazendo questão de mencionar que Walder e Walder estavam aos cuidados de seu filho bastardo. Pelo modo como o velho o olhou de viés, com a boca chupando o ar, Catelyn compreendeu que ele tinha ouvido a ameaça subjacente.
Terá alguma vez havido uma boda menos alegre?, perguntou a si mesma até se lembrar de sua pobre Sansa e do casamento com o Duende. Mãe, tenha piedade dela. Ela tem uma alma gentil. O calor, a fumaça e o barulho estavam deixando Catelyn enjoada. Os músicos na galeria podiam ser numerosos e ruidosos, mas não eram particularmente dotados. Catelyn bebeu outro gole de vinho e deixou que um pajem lhe enchesse a taça. Mais algumas horas, e o pior terá chegado ao fim. Amanhã a esta hora Robb terá partido para outra batalha, dessa vez contra os homens de ferro em Fosso Cailin. Era estranho como essa perspectiva parecia quase um alívio. Ele ganhará a sua batalha. Ele ganha todas as suas batalhas, e os homens de ferro estão sem rei. Além disso, Ned ensinou-o bem. Os tambores retumbavam. Guizo voltou a passar à sua frente aos saltos, mas a música era tão alta que quase não conseguiu ouvir seus guizos.
Por sobre o ruído ouviu-se de repente um rosnado, quando dois cães se lançaram um contra o outro, lutando por um resto de carne. Rolaram pelo chão, atirando dentadas, enquanto um uivo de divertimento soava. Alguém lhes deu um banho com um jarro de cerveja, e eles se separaram. Um dos cães dirigiu-se mancando para o estrado. A boca desdentada de Lorde Walder abriu-se numa gargalhada quando o cão encharcado sacudiu cerveja e pelos por cima de três dos seus netos.
Ver os cães fez Catelyn desejar uma vez mais que Vento Cinzento estivesse ali, mas o lobo gigante de Robb não era visto em parte alguma. Lorde Walder recusara-se a deixá-lo entrar no salão.
– O seu animal selvagem tem gosto por carne humana, segundo ouvi dizer, heh – tinha falado o velho. – Rasga as gargantas, sim. Não quero uma criatura dessas no banquete da minha Roslin, no meio das mulheres e dos pequenos, todos os meus queridos inocentes.
– Vento Cinzento não constitui qualquer perigo para eles, senhor – protestou Robb. – Desde que eu esteja presente.
– Mas você estava lá, no meu portão, não estava? Quando o lobo atacou os netos que enviei para recebê-los? Contaram-me tudo sobre isso, não pense que não, heh.
– Nenhum mal foi feito...
– Nenhum mal, diz o rei? Nenhum mal? Petyr caiu do cavalo, caiu. Perdi uma esposa da mesma forma, numa queda. – Sua boca moveu-se para dentro e para fora. – Ou teria sido só uma rameira qualquer? A mãe do Walder Bastardo, sim, agora me lembro. Caiu do cavalo e rachou a cabeça. O que faria Vossa Graça se Petyr tivesse quebrado o pescoço, heh? Daria desculpas no lugar de um neto? Não, não, não. Pode ser rei, não direi que não, o Rei no Norte, heh, mas sob o meu teto as regras são minhas. O lobo ou a boda, senhor. Ambos, não.
Catelyn tinha visto como Robb estava furioso, mas ele cedeu com tanta cortesia quanto conseguiu arranjar. “Se Lorde Walder desejar me servir corvo guisado recheado de larvas”, tinha dito a ela, “vou comê-lo e pedirei uma segunda porção.” E assim fez.
Grande-Jon tinha derrubado para baixo da mesa, na bebida, mais um dos descendentes de Lorde Walder. Daquela vez fora Petyr Espinha. O rapaz tinha um terço do tamanho de Grande-Jon, o que esperava? Lorde Umber limpou a boca, ergueu-se e começou a cantar.
– Havia um urso, um urso, um URSO! Preto e castanho e coberto de pelo! – A voz dele não era nada má, embora estivesse um pouco pesada por causa da bebida.
Infelizmente, os rabequeiros, tambores e flautistas lá em cima estavam tocando “Flores da primavera”, que combinava tão bem com as palavras de “O urso e a bela donzela” como caracóis combinavam com uma tigela de mingau de aveia. Até o pobre do Guizo tapou os ouvidos com aquela cacofonia.
Roose Bolton murmurou algumas palavras numa voz fraca demais para ser entendida e afastou-se em busca de uma latrina. O salão repleto de gente estava em constante ebulição com as idas e vindas de convidados e criados. Catelyn sabia que um segundo banquete, para cavaleiros e senhores de um nível um tanto inferior, trovejava no outro castelo. Lorde Walder exilara seus filhos ilegítimos e os descendentes destes para aquele lado do rio, e os nortenhos de Robb tinham começado a se referir àquilo como “o banquete bastardo”. Alguns dos convidados estavam sem dúvida escapulindo para ver se os bastardos estavam se divertindo mais do que eles. Alguns talvez se aventurassem até os acampamentos. Os Frey tinham fornecido carroças cheias de vinho, cerveja e hidromel, de modo que os soldados comuns pudessem beber ao casamento de Correrrio e das Gêmeas.
Robb sentou-se no lugar deixado vago por Bolton.
– Mais algumas horas e esta farsa chegará ao fim, mãe – disse em voz baixa, enquanto Grande-Jon cantava sobre a donzela com mel nos cabelos. – Walder Negro tem se mostrado pacato como um cordeiro, finalmente. E o tio Edmure parece bastante contente com a sua noiva. – Inclinou-se por sobre ela. – Sor Ryman?
Sor Ryman Frey piscou e disse:
– Senhor. Sim?
– Tinha a esperança de pedir a Olyvar para me servir como escudeiro quando marchássemos para o norte – disse Robb –, mas não o vejo aqui. Estará no outro banquete?
– Olyvar? – Sor Ryman balançou a cabeça. – Não. Olyvar não. Partiu... partiu dos castelos. Dever.