– Compreendo. – O tom de Robb sugeria o contrário. Quando Sor Ryman nada mais disse, o rei voltou a ficar em pé. – Quer dançar, mãe?
– Obrigada, mas não. – Dançar era a última coisa de que precisava, com a cabeça latejando como estava. – Sem dúvida que uma das filhas de Lorde Walder ficará contente por ser o seu par.
– Ah, sem dúvida. – O sorriso dele era resignado.
Os músicos estavam tocando “Lanças de ferro” a essa altura, enquanto Grande-Jon cantava “O robusto rapaz”. Alguém devia apresentá-los uns aos outros, talvez melhorasse a harmonia. Catelyn virou-se para Sor Ryman.
– Ouvi dizer que um de seus primos é cantor.
– Alesander. Filho de Symond. Alyx é irmã dele. – Ergueu uma taça na direção do local onde ela dançava com Robin Flint.
– Alesander tocará para nós esta noite?
Sor Ryman olhou-a de canto de olho.
– Ele não. Está longe. – Limpou suor da testa e levantou-se com dificuldade. – Perdão, minha senhora. Perdão. – Catelyn viu-o cambalear para a porta.
Edmure estava beijando Roslin e apertando sua mão. Em outros pontos do salão, Sor Marq Piper e Sor Danwell Frey apostavam num jogo de bebida, Lothar Coxo dizia qualquer coisa divertida a Sor Hosteen, um dos Frey mais jovens fazia malabarismo com três punhais diante de um grupo de garotas risonhas e Guizo estava sentado no chão, chupando vinho dos dedos. Os serventes traziam enormes bandejas de prata repletas de cortes de cordeiro rosado e suculento, o prato mais apetitoso que tinham visto a noite toda. E Robb dançava com Dacey Mormont.
Quando usava vestido em vez de cota de malha, a filha mais velha da Senhora Maege era bastante bonita; alta e esbelta, com um sorriso recatado que lhe iluminava o longo rosto. Era agradável ver que sabia ser tão graciosa num salão de dança como no pátio de treinos. Catelyn ficou se perguntando se a Senhora Maege já teria chegado ao Gargalo. Levara consigo as outras filhas, porém, sendo uma das companheiras de batalha de Robb, Dacey tinha preferido permanecer ao lado dele. Ele tem o dom que Ned tinha para inspirar lealdade. Olyvar Frey também havia sido devotado ao filho. Robb não tinha dito que Olyvar quis permanecer com ele mesmo depois do casamento com Jeyne?
Sentado no meio de suas torres negras de carvalho, o Senhor da Travessia bateu as mãos manchadas. O ruído que fizeram foi tão tênue que até aqueles que se encontravam no estrado quase não ouviram, mas Sor Aenys e Sor Hosteen viram-no e começaram a bater na mesa com as taças. Lothar Coxo juntou-se a eles, seguido por Marq Piper, Sor Danwell e Sor Raymund. Em pouco tempo, metade dos convidados estava fazendo barulho com as taças. E, por fim, até os músicos na galeria repararam. Flautas, tambores e rabecas foram parando de tocar até que se fez silêncio.
– Vossa Graça – disse Lorde Walder –, o septão rezou as suas preces, algumas palavras foram ditas e Lorde Edmure envolveu a minha querida num manto com um peixe, mas eles ainda não são marido e mulher. Uma espada precisa de uma bainha, heh, e um casamento precisa de uma noite de núpcias. O que diz o meu senhor? Será próprio que os levemos para a cama?
Uma vintena ou mais dos filhos e netos de Walder Frey desatou a bater de novo com as taças, gritando “Para a cama! Para a cama! Para a cama com eles!”. Roslin ficou branca. Catelyn perguntou a si mesma se seria a perspectiva de perder a virgindade que assustava a garota, ou a própria tradição das núpcias. Com tantos irmãos, o costume não devia ser estranho a ela, mas era diferente quando se era a pessoa a ser levada. Na noite de casamento de Catelyn, Jory Cassell tinha rasgado seu vestido na pressa de despi-la dele, e Desmond Grell, bêbado, não parava de pedir desculpa pelos gracejos lascivos, apenas para fazer outro logo em seguida. Quando Lorde Dustin a viu nua, disse a Ned que os seios dela o faziam desejar nunca ter sido desmamado. Pobre homem, pensou. Foi para o sul com Ned e não regressou. Catelyn perguntou a si mesma quantos dos homens que ali estavam naquela noite acabariam mortos antes do ano chegar ao fim. Muitos, receio.
Robb ergueu uma mão.
– Se acha que chegou a hora, Lorde Walder, com certeza, vamos levá-los para a cama.
Um rugido de aprovação saudou aquela proclamação. Na galeria, os músicos voltaram a pegar nas flautas, trombetas e rabecas e começaram a tocar “A rainha tirou a sandália, o rei tirou a coroa”. Guizo pôs-se a saltitar ora sobre um pé, ora sobre o outro, fazendo a coroa tilintar.
– Ouvi dizer que os homens Tully têm trutas entre as pernas no lugar dos pintos – gritou audaciosamente Alyx Frey. – Será que precisam de uma minhoca para ficarem em pé?
Ao que Sor Marq Piper retorquiu:
– Eu ouvi dizer que as mulheres Frey têm dois portões em vez de um!
E Alyx disse:
– Sim, mas estão os dois fechados e trancados para coisinhas pequenas como você!
Seguiu-se uma rajada de gargalhadas, até que Patrek Mallister subiu em uma mesa para propor um brinde ao peixe de um olho só de Edmure.
– E que poderoso lúcio ele é! – proclamou.
– Ná, aposto que é um vairão – gritou a Walda Gorda Bolton do lado de Catelyn.
Então, o grito geral de “Para a cama com eles! Para a cama com eles!” voltou a soar.
Os convidados invadiram o estrado, com os mais bêbados na frente, como sempre. Os homens e rapazes rodearam Roslin e ergueram-na ao ar enquanto as donzelas e mães presentes no salão puseram Edmure em pé e começaram a puxar sua roupa. Ele ria e gritava-lhes piadas obscenas em resposta, embora a música estivesse alta demais para que Catelyn os ouvisse. Mas ouvia Grande-Jon.
– Dê esta noivinha para mim – berrou enquanto abria caminho entre os outros homens e punha Roslin no ombro. – Olhem esta coisinha! Não tem carne nenhuma!
Catelyn sentiu pena da garota. A maior parte das noivas tentava devolver os gracejos, ou pelo menos fingia se divertir, mas Roslin estava rígida de terror, agarrando-se ao Grande-Jon, como se temesse que ele a deixasse cair. E também está chorando, reparou Catelyn enquanto observava Sor Marq Piper descalçar um dos sapatos da noiva. Espero que Edmure seja gentil com a pobre criança. Música alegre e lasciva ainda jorrava da galeria; a rainha estava agora tirando a combinação e o rei, a túnica.
Sabia que devia se juntar ao aglomerado de mulheres que rodeavam o irmão, mas acabaria apenas por estragar a diversão. A última coisa que se sentia agora era lasciva. Edmure perdoaria sua ausência, disso não duvidava; era muito mais divertido ser despido e deitado por uma vintena de voluptuosas e risonhas Frey do que por uma irmã amarga e magoada.
Enquanto o homem e a donzela eram levados do salão, deixando atrás de si um rastro de roupas, Catelyn viu que Robb também tinha ficado. Walder Frey era suficientemente suscetível para ver nisso algum insulto à filha. Ele devia se juntar aos que levam Roslin para a cama, mas cabe a mim dizer-lhe isso? Sentiu-se tomada pela tensão até reparar que outros também tinham ficado para trás. Petyr Espinha e Sor Whalen Frey continuavam a dormir, com a cabeça apoiada na mesa. Merrett Frey servia-se de outra taça de vinho, enquanto Guizo vagueava pelo salão, roubando nacos de comida dos pratos daqueles que tinham saído. Sor Wendel Manderly atacava com volúpia uma perna de cordeiro. E, claro, Lorde Walder era fraco demais para sair de seu lugar sem ajuda. Mas ele espera que Robb vá. Quase conseguia ouvir o velho perguntando por que motivo Sua Graça não queria ver a filha nua. Os tambores voltaram a retumbar, retumbar, retumbar e retumbar.
Dacey Mormont, que parecia ter sido a única mulher a ficar no salão além de Catelyn, aproximou-se de Edwyn Frey e tocou levemente o braço dele enquanto lhe dizia qualquer coisa ao ouvido. Edwyn afastou-se dela com uma violência imprópria.