– Não – disse, alto demais. – Estou farto de danças por ora.
Dacey empalideceu e afastou-se. Catelyn pôs-se lentamente em pé. O que acabou de acontecer aqui? A dúvida tomou seu coração, onde um instante antes havia apenas a fadiga. Não é nada, tentou dizer a si mesma, está vendo gramequins na lenha, transformou-se numa velha boba, doente de desgosto e medo. Mas algo deve ter transparecido em seu rosto. Até Sor Wendel Manderly reparou.
– Há algum problema? – perguntou, com a perna de cordeiro nas mãos.
Catelyn não lhe respondeu. Em vez disso, foi atrás de Edwyn Frey. Os músicos na galeria tinham finalmente vestido tanto o rei como a rainha com o traje do dia de seu nome. Quase sem um momento de pausa, começaram a tocar um tipo muito diferente de canção. Ninguém cantou a letra, mas Catelyn reconhecia “As chuvas de Castamere” quando a ouvia. Edwyn dirigia-se apressadamente para uma porta. Catelyn apressou-se mais, levada pela música. Seis passos rápidos e o alcancou. E quem é você, disse o altivo senhor, pra que a vênia seja profunda? Agarrou Edwyn pelo braço para virá-lo e ficou gelada quando sentiu os anéis de ferro sob a sua manga de seda.
Catelyn esbofeteou-o com tanta força que lhe abriu o lábio. Olyvar, pensou, e Perwyn, Alesander, todos ausentes. E Roslin chorou...
Edwyn Frey afastou-a com um empurrão. A música afogava todos os outros sons, ecoando nas paredes, como se as próprias pedras estivessem tocando. Robb lançou a Edwyn um olhar furioso e foi bloquear seu caminho... e cambaleou subitamente quando um dardo brotou de seu flanco, logo abaixo do ombro. Se nesse momento gritou, o som foi engolido pelas flautas, trompas e rabecas. Catelyn viu um segundo dardo perfurar a perna dele, viu-o cair. Lá em cima, na galeria, metade dos músicos tinha nas mãos bestas em vez de tambores ou alaúdes. Correu para o filho, até que algo lhe atingiu na lombar, e o duro chão de pedra subiu para lhe dar uma bofetada.
– Robb! – gritou. Viu Pequeno-Jon Umber tirando uma mesa da armação. Dardos de bestas cravaram-se na madeira, um, dois, três, quando ele a atirou para cima de seu rei. Robin Flint estava cercado por um grupo de Freys, cujos punhais subiam e desciam. Sor Wendel Manderly levantou-se imponentemente, agarrado à perna de cordeiro. Um dardo entrou por sua boca aberta e saiu pela parte de trás do pescoço. Sor Wendel estatelou-se para a frente, soltando a tábua da mesa da armação e mandando taças, jarros, bandejas, pratos, nabos, beterrabas e vinho para o chão saltando, derramando e deslizando.
As costas de Catelyn estavam em brasa. Tenho de chegar até ele. Pequeno-Jon deu uma cacetada no rosto de Sor Raymund Frey com uma perna de carneiro. Mas quando estendeu a mão para o cinto da espada, um dardo de besta fez com que caísse de joelhos. Num manto de ouro ou num manto vermelho, suas garras um leão mantém. Catelyn viu Lucas Blackwood ser abatido por Sor Hosteen Frey. Um dos Vance foi paralisado por Walder Negro enquanto lutava com Sor Harys Haigh. E as minhas são longas e afiadas, senhor, como o senhor as tem também. As bestas atingiram Donnel Locke, Owen Norrey e mais meia dúzia. O jovem Sor Benfrey agarrou Dacey Mormont pelo braço, mas Catelyn viu-a pegar num jarro de vinho com a outra mão e acertar em cheio o rosto de Mormont e correr para a porta. Esta escancarou-se antes de ela conseguir alcançá-la. Sor Ryman Frey entrou no salão, vestido de aço do elmo ao esporão. Uma dúzia de homens de armas Frey apinhou-se na porta atrás dele. Estavam armados com pesados machados longos.
– Misericórdia! – gritou Catelyn, mas trombetas, tambores e o tinir do aço abafaram seu apelo. Sor Ryman enterrou a cabeça de seu machado no estômago de Dacey. A essa altura, jorravam também homens das outras portas, homens revestidos de cota de malha com hirsutos mantos de peles e com aço nas mãos. Nortenhos! Durante meio segundo tomou-os por salvadores, até que um deles cortou a cabeça de Pequeno-Jon com dois violentíssimos golpes de machado. A esperança apagou-se como uma vela na tempestade.
No meio do massacre, o Senhor da Travessia permanecia sentado em seu trono de carvalho esculpido, observando avidamente.
Havia um punhal no chão a alguns centímetros de distância. Talvez tivesse escorregado até ali quando Pequeno-Jon arrancara a mesa da armação, ou talvez tivesse caído da mão de algum moribundo. Catelyn rastejou até ele. As pernas e os braços pareciam chumbo e sua boca tinha gosto de sangue. Matarei Walder Frey, disse a si mesma. Guizo estava mais perto da faca, escondido por baixo de uma mesa, mas apenas se encolheu com medo quando ela pegou a lâmina. Matarei o velho, isso, pelo menos, posso fazer.
Então o tampo de mesa que Pequeno-Jon atirara sobre Robb moveu-se, e o filho apoiou-se com dificuldade nos joelhos. Tinha uma flecha espetada no flanco, uma segunda na perna, uma terceira no peito. Lorde Walder levantou uma mão, e a música parou, menos um tambor. Catelyn ouviu o estrondo da batalha distante, e, mais perto, os uivos selvagens de um lobo. Vento Cinzento, lembrou-se, tarde demais.
– Heh – cacarejou Lorde Walder para Robb –, o Rei no Norte ergue-se. Parece que matamos alguns de seus homens, Vossa Graça. Oh, mas eu vou lhe dar uma satisfação que deixará tudo bem uma vez mais, heh.
Catelyn agarrou uma mão-cheia dos longos cabelos grisalhos de Guizo Frey e arrastou-o para fora de seu esconderijo.
– Lorde Walder! – gritou. – LORDE WALDER! – O tambor batia lento e sonoro, fim bum fim. – Basta – disse Catelyn. – Basta, disse eu. Pagou traição com traição, que fique por aqui. – Quando encostou o punhal na garganta do Guizo, a memória do quarto de doente de Bran voltou, com o toque do aço na própria garganta. O tambor continuava bum fim bum fim bum fim bum. – Por favor – disse. – Ele é meu filho. O meu primeiro filho, e o último. Deixe-o ir. Deixe-o ir, e eu juro que esqueceremos isto... esqueceremos tudo que fez aqui. Juro pelos deuses antigos e pelos novos, nós... nós não buscaremos vingança...
Lorde Walder olhou-a com desconfiança.
– Só um tolo acreditaria nessa bobagem. Toma-me por um tolo, senhora?
– Tomo-o por um pai. Fique comigo como refém, e com Edmure também, caso não o tenha matado. Mas deixe Robb ir.
– Não. – A voz de Robb era tênue como um suspiro. – Mãe, não...
– Sim. Robb, levante-se. Levante-se e saia, por favor, por favor. Salve-se... se não por mim, então por Jeyne.
– Jeyne? – Robb agarrou a borda da mesa e forçou-se a ficar em pé. – Mãe – disse –, o Vento Cinzento...
– Vá até ele. Já. Robb, saia daqui.
Lorde Walder resfolegou.
– E por que é que eu permitiria que ele fizesse isso?
Ela encostou a lâmina com mais força na garganta de Guizo. O retardado rolou os olhos para ela num apelo mudo. Um forte fedor assaltou seu nariz, mas não prestou mais atenção nele do que no soturno e incessante retumbar daquele tambor, bum fim bum fim bum fim bum. Sor Ryman e Walder Negro estavam a rodeá-la pelas costas, mas Catelyn não se importava. Podiam fazer com ela o que quisessem; aprisioná-la, violá-la, matá-la, não interessava. Tinha vivido tempo demais e Ned a esperava. Era por Robb que temia.
– Por minha honra como Tully – disse a Lorde Walder –, por minha honra como Stark, trocarei a vida do seu rapaz pela de Robb. Um filho por um filho. – Sua mão tremia tanto que estava fazendo a cabeça de Guizo tilintar.
Bum, soou o tambor, bum, fim, bum, fim. Os lábios do velho projetaram-se e retraíram-se. A faca tremeu na mão de Catelyn, escorregadia de suor.