– Um filho por um filho, heh – repetiu ele. – Mas esse é um neto... e nunca teve grande utilidade.
Um homem com uma armadura escura e um manto rosa-claro manchado de sangue aproximou-se de Robb.
– Jaime Lannister manda cumprimentos. – Ele espetou a espada no coração do filho de Catelyn e girou.
Robb tinha faltado à palavra, mas Catelyn manteve a sua. Puxou com força os cabelos de Aegon e serrou seu pescoço até a faca começar a raspar em osso. Correu sangue sobre os seus dedos. Os pequenos guizos tilintavam, tilintavam, tilintavam, e o tambor retumbava, bum fim bum.
Por fim, alguém tirou a faca dela. As lágrimas ardiam como vinagre ao correrem por seu rosto. Dez corvos ferozes devastavam seu rosto com garras afiadas, rasgando fitas de carne, deixando profundos sulcos que escorriam, vermelhos de sangue. Sentia o sabor nos lábios.
Dói tanto, pensou. Os nossos filhos, Ned, todos os nossos queridos bebês. Rickon, Bran, Arya, Sansa, Robb... Robb... por favor, Ned, por favor, faça com que pare, faça com que pare de doer... As lágrimas brancas e as vermelhas correram juntas até que seu rosto ficou rasgado e em farrapos, o rosto que Ned amara. Catelyn Stark ergueu as mãos e viu o sangue correr por seus longos dedos, pelos pulsos, por baixo das mangas do vestido. Lentos vermes vermelhos rastejavam ao longo de seus braços e sob a roupa. Faz cócegas. Aquilo fez com que risse até gritar.
– Louca – disse alguém –, perdeu o juízo.
– E outra pessoa disse:
– Dê um fim nela – e uma mão agarrou seus cabelos tal como ela fizera com Guizo, e Catelyn pensou, Não, isso não, não me corte os cabelos, Ned adora meus cabelos. E então o aço chegou-lhe à garganta, e a sua mordida era rubra e fria.
Arya
As tendas para banquetes estavam agora atrás deles. Chapinharam por sobre barro molhado e mato arrancado, para longe da luz e de volta às sombras. Em frente erguia-se a guarita do castelo. Arya via tochas em movimento nas muralhas, com as chamas a dançar, sopradas pelo vento. A luz brilhava, baça, sobre cota de malha e elmos molhados. Mais tochas moviam-se pela ponte escura de pedra que unia as Gêmeas, uma coluna de tochas que corria da margem ocidental para a oriental.
– O castelo não está fechado – disse Arya de repente. O sargento tinha dito que estaria, mas se enganou. A porta levadiça estava sendo içada naquele exato instante, e a ponte levadiça já tinha sido baixada por sobre o fosso transbordando de água. Teve receio de que os guardas de Lorde Frey se recusassem a deixá-los entrar. Durante meio segundo mordeu o lábio, ansiosa demais para sorrir.
Cão de Caça freou os animais tão de repente que ela quase caiu da carroça.
– Sete malditos infernos de merda – ouviu-o praguejar, enquanto a roda esquerda começava a se enterrar na lama mole. A carroça foi se inclinando lentamente. – Para o chão – rugiu-lhe Clegane, batendo no ombro dela com o pulso para fazê-la cair de lado.
Aterrissou ligeira, como Syrio lhe ensinara, e pôs-se imediatamente em pé com o rosto cheio de lama.
– Por que fez isto? – gritou.
Cão de Caça também tinha saltado para o chão. Ele arrancou o assento da parte da frente da carroça e estendeu a mão para o cinto da espada que escondera por baixo dele.
Foi só então que Arya ouviu os cavaleiros jorrando do portão do castelo num rio de aço e fogo, com o trovão que os seus corcéis de batalha faziam ao atravessar a ponte levadiça quase sumido sob os tambores que soavam nos castelos. Homens e montarias usavam armaduras de aço, e um em cada dez trazia uma tocha. Os outros tinham machados, alabardas e pesadas lâminas capazes de quebrar ossos e esmagar armaduras.
Em algum lugar, ao longe, ouviu um lobo uivar. Não era um som muito alto, comparado com o ruído do acampamento, a música e o rosnar baixo e ameaçador do rio que corria rápido, mesmo assim ouviu-o. Mas talvez não tivessem sido os ouvidos a ouvi-lo. O som estremeceu através de Arya como uma faca, afiada de fúria e pesar. Mais e mais cavaleiros emergiam do castelo, uma coluna com a largura de quatro homens e que parecia sem fim, cavaleiros, escudeiros e cavaleiros livres, tochas e machados de cabo longo. E também havia barulho vindo de trás.
Quando Arya olhou em volta, viu que só restavam duas das enormes tendas para banquetes onde tinha havido três. A do meio caíra. Por um momento, não compreendeu o que estava vendo. Então, as chamas começaram a lamber a tenda caída, e agora as outras duas caíam também, com o pesado tecido oleado assentando-se sobre os homens que estavam por baixo. Um bando de flechas incendiárias rasgou o ar. A segunda tenda pegou fogo, e logo a terceira. Os gritos tornaram-se tão ruidosos que conseguia ouvir palavras através da música. Silhuetas escuras moviam-se diante das chamas, com o aço de suas armaduras brilhando em tons de laranja quando visto de longe.
Uma batalha, compreendeu Arya. É uma batalha. E os cavaleiros...
Então ficou sem tempo para observar as tendas. Com o rio invadindo as margens, as águas escuras e turbulentas na extremidade da ponte levadiça chegavam à barriga dos cavalos, mas os cavaleiros avançaram através delas mesmo assim, incentivados pela música. Por uma vez, a mesma canção vinha de ambos os castelos. Eu conheço esta canção, compreendeu Arya subitamente. Tom das Sete cantara-a, naquela noite chuvosa em que os fora da lei tinham se abrigado na cervejaria com os irmãos pardos. E quem é você, disse o altivo senhor, pra que a vênia seja profunda?
Os cavaleiros Frey atravessavam com dificuldade a lama e os juncos, mas alguns deles tinham visto a carroça. Arya viu três abandonarem a coluna principal, pisando forte ao longo dos baixios. Só um gato com um manto diferente, essa é a verdade fecunda.
Com um único golpe de espada, Clegane cortou a corda que prendia Estranho e saltou para o dorso do animal. O corcel sabia o que se queria dele. Levantou as orelhas e virou na direção dos corcéis de batalha em carga. Num manto de ouro ou num manto vermelho, suas garras um leão mantém. E as minhas são longas e afiadas, senhor, como o senhor as tem também. Arya rezara centenas e centenas de vezes para que Cão de Caça morresse, mas agora... havia uma pedra em sua mão, escorregadia de lama, e nem sequer se lembrava de tê-la pegado. Contra quem a atiro?
Saltou ao ouvir o estrondo do metal, quando Clegane afastou o primeiro machado. Enquanto lutava com o primeiro homem, o segundo deu a volta por trás dele e desferiu um golpe contra a parte baixa de suas costas. Estranho girava, e Cão de Caça foi atingido por não mais que um golpe de raspão, o bastante para fazer um grande rasgão em sua blusa larga de camponês e expor a cota de malha que tinha por baixo. É um contra três. Arya continuava agarrada à sua pedra. Vão matá-lo com certeza. Pensou em Mycah, no filho do açougueiro que tinha sido seu amigo durante tão pouco tempo.
Então viu o terceiro cavaleiro vindo em sua direção. Arya pôs-se atrás da carroça. O medo golpeia mais profundamente do que as espadas. Ouvia tambores, berrantes de guerra e flautas, garanhões berrando, o guincho do aço batendo em aço, mas todos os sons pareciam muito distantes. A única coisa que existia era o cavaleiro que se aproximava e o machado que ele tinha na mão. Usava um sobretudo sobre a armadura e ela viu as duas torres que o identificavam como um Frey. Não compreendeu. O tio ia se casar com uma filha de Lorde Frey, os Frey eram amigos de seu irmão.
– Não! – gritou enquanto ele rodeava a carroça, mas o homem não prestou atenção nela.
Quando ele avançou, Arya atirou a pedra, da mesma maneira que atirara uma maçã apodrecida em Gendry. Tinha acertado em Gendry bem no meio da testa, mas agora falhou a pontaria, e a pedra rolou, de lado, na têmpora do homem. Foi o suficiente para interromper a arremetida, mas apenas isso. Arya fugiu, correndo nas pontas dos pés pelo terreno lamacento, pondo a carroça de novo entre ambos. O cavaleiro seguiu-a a trote, só trevas por trás da fenda para os olhos. Nem sequer amassara seu elmo. Giraram uma, duas vezes, uma terceira. O cavaleiro amaldiçoou-a.