Выбрать главу

Quando a convocatória do senhor seu pai chegou, foi a primeira vez, até onde Tyrion se lembrava, em que se sentiu contente por ver Sor Boros Blount. Fechou os livros-mestres com um sentimento de gratidão, apagou a candeia de azeite com um sopro, amarrou um manto em volta dos ombros e bamboleou através do castelo até a Torre da Mão. O vento era fresco, tal como prevenira Sansa, e havia cheiro de chuva no ar. Quando Lorde Tywin o dispensasse, talvez devesse ir ao bosque sagrado, para trazer Sansa para casa antes que ficasse encharcada.

Mas tudo isso foi varrido da sua cabeça quando entrou no aposento privado da Mão e deparou com Cersei, Sor Kevan e o Grande Meistre Pycelle reunidos em volta de Lorde Tywin e do rei. Joffrey estava quase aos saltos, e Cersei saboreava um sorrisinho cheio de si, embora Lorde Tywin parecesse tão sombrio como sempre. Pergunto-me se ele seria capaz de sorrir, mesmo se quisesse.

– O que aconteceu? – perguntou Tyrion.

O pai estendeu um rolo de pergaminho para ele. Alguém o alisara, mas ainda tentava se enrolar. “A Roslin pegou uma bela truta gorda”, dizia a mensagem. “Os irmãos ofereceram-lhe um par de pele de lobo como presente de casamento.” Tyrion virou o pergaminho para inspecionar o selo quebrado. A cera era cinza-prateada, e impressas nela encontravam-se as torres gêmeas da Casa Frey.

– O Senhor da Travessia imagina que está sendo poético? Ou será que isso pretende nos confundir? – Tyrion fungou. – A truta deve ser Edmure Tully, as peles...

– Ele está morto! – Joffrey soava tão orgulhoso e feliz que daria para achar que tinha sido ele quem esfolou Robb Stark em pessoa.

Primeiro o Greyjoy, e agora o Stark. Tyrion pensou na criança sua esposa, que naquele momento rezava no bosque sagrado. Rezando aos deuses do pai para que concedam ao irmão a vitória e mantenham a mãe a salvo, sem dúvida. Os deuses antigos não ligavam mais para as preces do que os novos, aparentemente. Talvez devesse sentir-se reconfortado por isso.

– Os reis estão caindo como folhas, neste outono – disse. – Aparentemente, nossa guerrinha está se ganhando sozinha.

– As guerras não se ganham sozinhas, Tyrion – disse Cersei com uma doçura venenosa. – O senhor nosso pai ganhou esta guerra.

– Nada está ganho enquanto tivermos inimigos em campo – preveniu-os Lorde Tywin.

– Os senhores do rio não são nada tolos – concordou a rainha. – Sem os nortenhos, não podem esperar resistir ao poderio combinado de Jardim de Cima, Rochedo Casterly e Dorne. Certamente preferirão a submissão à destruição.

– A maioria, sim – concordou Lorde Tywin. – Resta Correrrio, mas enquanto Walder Frey tiver Edmure Tully como refém, o Peixe Negro não se atreverá a constituir uma ameaça. Jason Mallister e Tytos Blackwood continuarão lutando em nome da honra, mas os Frey podem manter os Mallister encurralados em Guardamar, e com o incitamento certo, Jonos Bracken pode ser persuadido a mudar de fidelidade e atacar os Blackwood. No fim, dobrarão os joelhos, sim. Pretendo oferecer termos generosos. Qualquer castelo que se renda a nós será poupado, exceto um.

– Harrenhal? – disse Tyrion, que conhecia o pai.

– É melhor que o reino se livre desses Bravos Companheiros. Ordenei a Sor Gregor para passar o castelo na espada.

Gregor Clegane. Parecia que o pai pretendia minar a Montanha até a última pepita de minério antes de entregá-la à justiça de Dorne. Os Bravos Companheiros acabariam como cabeças montadas em espigões, e Mindinho entraria de passeio em Harrenhal, sem uma única mancha de sangue naquelas suas belas roupas. Perguntou a si mesmo se Petyr Baelish já teria chegado ao Vale. Se os deuses forem bons, enfrentou com uma tempestade no mar e afundou-se. Mas quando os deuses tinham sido razoavelmente bons?

– Deviam ser todos passados na espada – declarou de repente Joffrey. – Os Mallister, os Blackwood e os Bracken... todos. São traidores. Quero-os mortos, avô. Não quero nenhum termo generoso. – O rei virou-se para o Grande Meistre Pycelle. – E também quero a cabeça de Robb Stark. Escreva ao Lorde Frey e diga-lhe. O rei ordena. Vou servi-la a Sansa em meu banquete de casamento.

– Senhor – disse Sor Kevan numa voz chocada –, a senhora é agora sua tia pelo casamento.

– Uma brincadeira. – Cersei sorriu. – Joff não falava a sério.

– Falava, sim – insistiu Joffrey. – Ele era um traidor, e quero a sua estúpida cabeça. Vou obrigar Sansa a beijá-la.

Não. – A voz de Tyrion estava enrouquecida. – Sansa já não é sua para atormentar. Veja se percebe isso, monstro.

Joffrey deu um sorriso zombeteiro.

– O monstro é você, tio.

– Ah, sou? – Tyrion inclinou a cabeça. – Então talvez devesse falar comigo mais de mansinho. Os monstros são animais perigosos, e agora os reis parecem andar morrendo como moscas.

– Podia cortar sua língua por dizer isso – disse o jovem rei, corando. – Sou o rei.

Cersei apoiou uma mão protetora no ombro do filho.

– Deixe o anão fazer todas as ameaças que quiser, Joff. Quero que o senhor meu pai e o meu tio vejam aquilo que ele é.

Lorde Tywin ignorou aquilo; foi a Joffrey que se dirigiu.

– Aerys também achava que tinha de lembrar aos homens que era o rei. E também era muito amigo de arrancar línguas. Pode interrogar Sor Ilyn Payne a esse respeito, embora não vá obter resposta.

– Sor Ilyn nunca se atreveu a provocar Aerys como o seu Duende provoca Joff – disse Cersei. – Ouviu Tyrion. “Monstro”, disse ele. À Graça Real. E ameaçou-o...

– Fique calada, Cersei. Joffrey, quando os seus inimigos o desafiarem, tem de lhes servir aço e fogo. Mas quando se ajoelham, tem de ajudá-los a se levantar. De outro modo, nunca ninguém dobrará o joelho. E qualquer homem que tenha de dizer “sou o rei” não é rei de verdade. Aerys nunca compreendeu isso, mas você compreenderá. Depois de ganhar a sua guerra, restauraremos a paz régia e a justiça real. Em vez de cabeças, preocupe-se é com o cabaço de Margaery Tyrell.

Joffrey ostentava aquela sua expressão carrancuda e amuada. Cersei tinha-o firmemente preso pelo ombro, mas talvez devesse tê-lo agarrado pela garganta. O rapaz surpreendeu a todos. Em vez de fugir e de ir se enfiar debaixo de uma pedra, Joff ergueu-se com um ar desafiador e disse:

– Fala de Aerys, avô, mas tinha medo dele.

Ora essa, e não é que isso ficou interessante?, pensou Tyrion.

Lorde Tywin estudou o neto em silêncio, com salpicos de ouro brilhando em seus olhos verde-claros.

– Joffrey, peça perdão ao seu avô – disse Cersei.

Ele libertou-se das mãos dela.

– Por que devo pedir perdão? Todo mundo sabe que é verdade. O meu pai ganhou todas as batalhas. Matou o Príncipe Rhaegar e capturou a coroa, enquanto o seu pai estava escondido por baixo de Rochedo Casterly. – O rapaz dirigiu ao avô um olhar de desafio. – Um rei forte age com ousadia, não se limita a conversar.

– Obrigado por essas palavras de sabedoria, Vossa Graça – disse Lorde Tywin, com uma cortesia tão fria que era capaz de fazer cair suas orelhas, congeladas. – Sor Kevan, vejo que o rei está cansado. Por favor, acompanhe-o em segurança de volta ao seu quarto. Pycelle, talvez uma poção suave para ajudar Sua Graça a ter um sono descansado?