– Vinho dos sonhos, senhor?
– Não quero vinho dos sonhos nenhum – insistiu Joffrey.
Lorde Tywin teria dado mais ouvidos a um rato guinchando no canto.
– Vinho dos sonhos servirá. Cersei, Tyrion, fiquem.
Sor Kevan pegou firmemente no braço de Joffrey e levou-o porta afora, atrás da qual dois homens da Guarda Real esperavam. O Grande Meistre Pycelle apressou-se a segui-los o mais depressa que as suas velhas pernas trêmulas conseguiam levá-lo. Tyrion ficou onde estava.
– Pai, lamento – disse Cersei quando a porta foi fechada. – Joff sempre foi teimoso, eu preveni...
– Há léguas e léguas de diferença entre teimoso e burro. “Um rei forte age com ousadia?” Quem lhe disse isso?
– Eu não, garanto – disse Cersei. – O mais provável é que tenha sido algo que ouviu Robert dizer...
– A parte sobre você se esconder por baixo do Rochedo Casterly realmente soa a Robert. – Tyrion não queria que Lorde Tywin se esquecesse dessa parte da conversa.
– Sim, agora me lembro – disse Cersei – Robert disse com frequência a Joff que um rei tem de ser ousado.
– E o que você anda lhe dizendo, se não se importa? Não travei uma guerra para pôr Robert Segundo no Trono de Ferro. Você me levou a crer que o rapaz não gostava nada do pai.
– E por que haveria de gostar? Robert ignorava-o. Teria espancado Joff, se eu tivesse permitido. Aquele bruto com quem me obrigou a casar bateu uma vez no rapaz com tanta força que lhe tirou dois dentes de leite, por causa de uma travessura qualquer com um gato. Eu disse-lhe que o mataria durante o sono se voltasse a fazer isso, e ele não fez, mas às vezes dizia coisas...
– Aparentemente, havia coisas que precisavam ser ditas. – Lorde Tywin acenou-lhe com dois dedos, uma brusca despedida. – Saia.
E ela saiu, fervendo.
– Não é Robert Segundo – disse Tyrion. – É Aerys Terceiro.
– O rapaz tem treze anos. Ainda há tempo. – Lorde Tywin dirigiu-se à janela. Não era característico dele, estava mais perturbado do que queria mostrar. – Precisa de uma boa lição.
Tyrion tinha recebido a sua boa lição aos treze anos. Quase sentiu pena do sobrinho. Por outro lado, ninguém a merecia mais do que ele.
– Basta de falar de Joffrey – disse. – As guerras são ganhas com penas e corvos, não foi o que disse? Tenho de lhe dar os parabéns. Há quanto tempo andava conspirando isso com Walder Frey?
– Essa palavra desagrada-me – disse Lorde Tywin rigidamente.
– E a mim desagrada ser deixado no escuro.
– Não havia motivo para lhe contar. Não tinha participação nenhuma no assunto.
– Cersei foi informada? – quis saber Tyrion.
– Ninguém foi informado, exceto aqueles que tinham um papel a desempenhar. E esses só foram informados daquilo que precisavam saber. Devia saber que não há outra maneira de manter um segredo... especialmente aqui. Meu objetivo era livrar-nos de um inimigo perigoso da forma menos dispendiosa possível, não satisfazer a sua curiosidade ou fazer com que a sua irmã se sentisse importante. – Fechou as venezianas, franzindo a testa. – Você tem certa astúcia, Tyrion, mas a verdade é que fala demais. Essa sua língua solta ainda será o seu fim.
– Devia ter deixado que Joffrey a arrancasse – sugeriu Tyrion.
– Faria bem em não me tentar – disse Lorde Tywin. – Não quero mais conversas sobre isso. Tenho refletido sobre como melhor apaziguar Oberyn Martell e sua comitiva.
– Oh? E é alguma coisa que sou autorizado a saber, ou será que devo deixá-lo sozinho para que possa discutir o assunto consigo?
O pai ignorou o gracejo.
– A presença do Príncipe Oberyn na cidade é um infortúnio. O irmão é um homem cauteloso, um homem racional, sutil, ponderado, até algo indolente. É um homem que pesa as consequências de cada palavra e de cada ato. Mas Oberyn sempre foi meio louco.
– É verdade que tentou mobilizar Dorne em favor de Viserys?
– Ninguém fala disso, mas sim. Voaram corvos e galoparam mensageiros, com mensagens secretas que eu nunca soube o que diziam. Jon Arryn velejou até Lançassolar para devolver os ossos do Príncipe Lewyn, sentou-se com o Príncipe Doran e pôs fim a todo o falatório sobre guerra. Mas, depois disso, Robert nunca foi a Dorne, e o Príncipe Oberyn raramente saiu de lá.
– Bem, agora está aqui, com metade da nobreza de Dorne atrás, e fica mais impaciente a cada dia – disse Tyrion. – Talvez eu devesse mostrar-lhe os bordéis de Porto Real, isso talvez o distraia. Uma ferramenta para cada tarefa, não é assim que as coisas são? A minha ferramenta é sua, pai. Que nunca se diga que a Casa Lannister fez soar as trombetas e eu não respondi.
A boca de Lorde Tywin comprimiu-se.
– Muito divertido. Deverei mandar fazer um traje quadriculado para você, e um chapeuzinho cheio de guizos?
– Se o usar, terei licença para dizer tudo que quiser a respeito de Sua Graça, o Rei Joffrey?
Lorde Tywin voltou a se sentar e disse:
– Fui obrigado a aguentar as loucuras de meu pai. Não aguentarei as suas. Basta.
– Muito bem, já que o pede de um modo tão simpático. Temo que o Víbora Vermelha não vá ser simpático... e tampouco se contente apenas com a cabeça de Sor Gregor.
– Mais um motivo para não dá-la.
– Não dá-la...? – Tyrion estava chocado. – Pensei que estávamos de acordo em que a floresta estava cheia de animais.
– Animais menores. – Os dedos de Lorde Tywin entrelaçaram-se sob o seu queixo. – Sor Gregor serviu-nos bem. Nenhum outro cavaleiro no reino inspira tanto terror em nossos inimigos.
– Oberyn sabe que foi Gregor quem...
– Ele não sabe nada. Ouviu histórias. Mexericos de estábulo e calúnias de cozinha. Não tem nem uma migalha de provas. Sor Gregor certamente não estará disposto a lhe fazer uma confissão. Pretendo mantê-lo bem afastado enquanto os dorneses estiverem em Porto Real.
– E quando Oberyn exigir a justiça que veio obter?
– Direi que foi Sor Amory Lorch quem matou Elia e os filhos – disse calmamente Lorde Tywin. – E você também, se ele perguntar.
– Sor Amory Lorch está morto – disse Tyrion numa voz sem expressão.
– Exatamente. Vargo Hoat ordenou que Sor Amory fosse desmembrado por um urso após a queda de Harrenhal. Isso deve ser suficientemente macabro para apaziguar até Oberyn Martell.
– Pode chamar isso de justiça...
– É justiça. Foi Sor Amory quem me trouxe o corpo da menina, já que tem de saber. Encontrou-a escondida debaixo da cama do pai, como se acreditasse que Rhaegar ainda podia protegê-la. A princesa Elia e o bebê estavam no quarto das crianças, no andar de baixo.
– Bem, é uma história, e não é provável que Sor Amory a negue. O que dirá a Oberyn quando ele perguntar quem deu a Lorch as suas ordens?
– Sor Amory agiu por conta própria, na esperança de conquistar o favor do novo rei. O ódio de Robert por Rhaegar não era nem um pouco secreto.
Pode servir, Tyrion teve de admitir, mas a serpente não ficará contente.
– Longe de mim questionar a sua astúcia, pai, mas em seu lugar creio que teria deixado Robert Baratheon ensanguentar as próprias mãos.
Lorde Tywin fitou-o como se ele tivesse perdido o juízo.
– Então merece aquele traje quadriculado. Tínhamos chegado tarde à causa de Robert. Era necessário demonstrar a nossa lealdade. Quando depus aqueles cadáveres perante o trono, ninguém pôde duvidar de que eu tinha abandonado para sempre a Casa Targaryen. E o alívio de Robert foi palpável. Por mais burro que fosse, até ele sabia que os filhos de Rhaegar tinham de morrer se quisesse que o trono alguma vez estivesse seguro. Mas via-se como um herói, e os heróis não matam crianças. – O pai de Tyrion encolheu os ombros. – Admito que houve brutalidade em excesso. Elia não precisava ter sido ferida de todo, isso foi pura loucura. Em si mesma nada era.