– Nove magos cruzaram o mar para chocar os ovos de Aegon Terceiro. Baelor, o Abençoado, rezou sobre o seu durante meio ano. Aegon, o Quarto, construiu dragões de madeira e ferro. Aerion Chamaviva bebeu fogovivo para se transformar. Os magos falharam, as preces do Rei Baelor não obtiveram resposta, os dragões de madeira queimaram, e o Príncipe Aerion morreu aos gritos.
A Rainha Selyse mostrou-se inflexível.
– Nenhum desses homens era o escolhido de R’hllor. Nenhum cometa vermelho ardeu nos céus para anunciar a sua chegada. Nenhum brandia a Luminífera, a espada vermelha dos heróis. E nenhum deles pagou o preço. A Senhora Melisandre dirá, senhor. Só a morte pode pagar pela vida.
– O garoto? – o rei quase cuspiu as palavras.
– O garoto – concordou a rainha.
– O garoto – ecoou Sor Axell.
– Já estava farto desse maldito garoto antes mesmo de ele nascer – protestou o rei. – Até o nome dele é um rugido aos meus ouvidos e uma nuvem negra que paira sobre a minha alma.
– Dê-me o garoto e nunca mais terá de ouvir pronunciar seu nome novamente – prometeu Melisandre.
Não, mas vai ouvi-lo gritar quando ela o queimar. Davos segurou a língua. Era mais sensato não falar até que o rei ordenasse.
– Dê-me o garoto para R’hllor – disse a mulher vermelha – e a antiga profecia será cumprida. O seu dragão acordará e estenderá suas asas de pedra. O reino será seu.
Sor Axell ajoelhou-se.
– Sobre um joelho dobrado lhe suplico, senhor. Acorde o dragão de pedra e faça os traidores tremerem. Tal como Aegon, começa como Senhor de Pedra do Dragão. Tal como Aegon, conquistará. Que os falsos e os inconstantes sintam as suas chamas.
– A sua própria esposa suplica também, senhor esposo. – A Rainha Selyse ajoelhou-se perante o rei, com as mãos unidas como que em prece. – Robert e Delena profanaram a nossa cama e fizeram cair uma maldição sobre a nossa união. Esse garoto é o sujo fruto de sua fornicação. Levante esta sombra de meu ventre, e eu lhe darei muitos filhos legítimos, eu sei que sim. – Envolveu as pernas dele com os braços. – Ele é apenas um garoto, nascido da luxúria de seu irmão e da vergonha da minha prima.
– Ele é do meu sangue. Pare de me agarrar, mulher. – Rei Stannis pôs uma mão no ombro dela, soltando-se desajeitadamente de seu abraço. – Robert talvez tenha amaldiçoado nosso leito nupcial. Jurou-me que nunca pretendeu me envergonhar, que estava bêbado e não chegou a saber de quem era o quarto em que entrou naquela noite. Mas será que importa? O garoto não tem culpa, seja qual for a verdade.
Melisandre pousou a mão no braço do rei.
– O Senhor da Luz aprecia os inocentes. Não há sacrifício mais precioso. Do seu sangue de rei e do seu fogo sem mácula nascerá um dragão.
Stannis não se afastou do toque de Melisandre como havia se afastado do da rainha. A mulher vermelha era tudo que Selyse não era; jovem, de corpo cheio, e estranhamente bela, com seu rosto em forma de coração, cabelos acobreados e olhos sobrenaturalmente vermelhos.
– Seria uma coisa maravilhosa ver a pedra ganhar vida – admitiu de má vontade. – E montar um dragão... lembro-me da primeira vez que o meu pai me levou à corte, Robert teve de ir de mãos dadas comigo. Eu não podia ter mais de quatro anos, o que significa que ele devia ter cinco ou seis. Depois concordamos que o rei tinha sido tão nobre como os dragões eram temíveis. – Stannis fungou. – Anos mais tarde, nosso pai disse-nos que Aerys tinha se cortado no trono naquela manhã, e por isso a sua Mão tomara o lugar dele. O homem que tanto nos impressionou foi Tywin Lannister. – Os dedos do rei tocaram a superfície da mesa, traçando levemente um caminho através dos montes envernizados. – Robert tirou os crânios das paredes quando colocou a coroa, mas não suportou a ideia de mandar destruí-los. Asas de dragão sobre Westeros... isso seria uma...
– Vossa Graça! – Davos inclinou-se para a frente. – Posso falar?
Stannis fechou a boca com tanta força que os dentes soltaram um estalido.
– Senhor da Mata de Chuva. Por que julga que fiz de você Mão, se não para falar? – o rei fez um gesto com a mão. – Diga o que quiser.
Guerreiro, dê-me coragem.
– Pouco sei de dragões e menos ainda de deuses... mas a rainha falou de maldições. Ninguém é tão amaldiçoado aos olhos dos deuses e dos homens como quem mata a família.
– Não há deuses além de R’hllor e do Outro, cujo nome não pode ser pronunciado. – A boca de Melisandre era uma linha dura e vermelha. – E os homens pequenos amaldiçoam aquilo que não são capazes de compreender.
– Eu sou um homem pequeno – admitiu Davos –, portanto, explique-me por que necessita desse garoto, Edric Storm, para acordar o seu grande dragão de pedra, senhora. – Estava determinado a proferir o nome do garoto tantas vezes quantas pudesse.
– Só a morte pode pagar pela vida, senhor. Uma grande dádiva requer um grande sacrifício.
– Onde está a grandeza numa criança ilegítima?
– Ele tem o sangue de um rei nas veias. Já viu o que até um pouco desse sangue pode fazer...
– Vi a senhora queimar algumas sanguessugas.
– E dois falsos reis estão mortos.
– Robb Stark foi assassinado por Lorde Walder da Travessia, e ouvimos dizer que Balon Greyjoy caiu de uma ponte. Quem foi que as suas sanguessugas mataram?
– Duvida do poder de R’hllor?
Não. Davos lembrava-se bem demais da sombra viva que saíra se contorcendo do ventre da mulher naquela noite sob Ponta Tempestade, das mãos negras empurrando as suas coxas. Aqui tenho de pisar com cuidado, senão uma sombra pode vir me procurar também.
– Até um contrabandista de cebolas sabe distinguir duas cebolas de três. Falta-lhe um rei, senhora.
Stannis resfolegou uma risada.
– Ele pegou-a, senhora. Dois não é igual a três.
– Com certeza, Vossa Graça. Um rei pode morrer por acaso, até dois... mas três? Se Joffrey morrer, no meio de todo o seu poder, rodeado por seus exércitos e sua Guarda Real, isso não mostraria o poder do Senhor em ação?
– Talvez mostre. – O rei falou como se se ressentisse de cada palavra.
– Ou talvez não. – Davos fez o melhor que pôde para esconder o medo.
– Joffrey morrerá – declarou a Rainha Selyse, serena em sua confiança.
– Até pode já estar morto – acrescentou Sor Axell.
Stannis olhou-os com um ar aborrecido.
– São corvos treinados, para crocitarem comigo um de cada vez? Basta.
– Esposo, escute-me... – rogou a rainha.
– Por quê? Dois é diferente de três. Os reis sabem contar tão bem quanto os contrabandistas. Podem ir. – Stannis virou as costas a eles.
Melisandre ajudou a rainha a se levantar. Selyse saiu do aposento, hirta, com a mulher vermelha atrás. Sor Axell deixou-se ficar tempo suficiente para lançar a Davos um último olhar. Um olhar feio num rosto feio, pensou o contrabandista ao encará-lo.
Depois de os outros saírem, Davos pigarreou. O rei ergueu os olhos.
– Ainda está aqui?
– Senhor, a propósito de Edric Storm...
Stannis fez um gesto brusco.
– Poupe-me.
Davos persistiu.
– A sua filha tem aulas com ele e brinca todos os dias em sua companhia no Jardim de Aegon.
– Eu sei disso.
– O coração dela iria se quebrar se algo de mal...
– Também sei disso.
– Se ao menos o visse...
– Já o vi. Parece-se com Robert. Sim, e venera o pai. Deverei falar-lhe da frequência com que o seu querido pai lhe dirigia um pensamento? Meu irmão gostava bastante do fabrico de crianças, mas depois do nascimento eram um aborrecimento.
– Ele pergunta pelo senhor todos os dias, ele...
– Está me irritando, Davos. Não quero ouvir falar mais desse bastardo.
– O nome dele é Edric Storm, senhor.