– Ele adorava falsos deuses – disse Devan –, mas, fora isso, era um grande rei, e muito corajoso em batalha.
– Se era – concordou Edric Storm –, mas o meu pai era mais. O Jovem Dragão nunca venceu três batalhas num só dia.
A princesa olhou-o de olhos esbugalhados.
– O tio Robert venceu três batalhas num só dia?
O bastardo confirmou com a cabeça.
– Foi logo depois de retornar para casa, para convocar os vassalos. Os Lordes Grandison, Cafferen e Fell planejaram juntar forças em Solarestival e marchar sobre Ponta Tempestade, mas ele soube dos planos deles através de um informante e avançou imediatamente com todos os seus cavaleiros e escudeiros. Quando os conspiradores chegaram a Solarestival, um de cada vez, derrotou-os um por um antes de conseguirem juntar forças com os outros. Matou Lorde Fell em combate singular e capturou seu filho, o Machado de Prata.
Devan olhou para Pylos.
– Foi assim que as coisas se passaram?
– Foi o que eu disse, não foi? – disse Edric Storm antes de o meistre ter tempo de responder. – Esmagou os três, e lutou com tanta bravura que Lorde Grandison e Lorde Cafferen se tornaram seus homens, e o Machado de Prata também. Nunca ninguém venceu meu pai.
– Edric, não devia se vangloriar – disse Meistre Pylos. – O Rei Robert sofreu derrotas, como qualquer outro homem. Lorde Tyrell venceu-o em Vaufreixo, e Robert também perdeu muitas justas em torneios.
– Mas ganhou mais do que perdeu. E matou o Príncipe Rhaegar no Tridente.
– Isso é verdade – concordou o meistre. – Mas agora tenho de dar a minha atenção ao Lorde Davos, que espera com tanta paciência. Amanhã leremos mais da Conquista de Dorne do Rei Daeron.
A Princesa Shireen e os garotos despediram-se com cortesia. Depois de se retirarem, Meistre Pylos aproximou-se de Davos.
– Senhor, talvez quisesse experimentar um pouco da Conquista de Dorne também? – empurrou o estreito livro encadernado em couro para a sua frente. – O Rei Daeron escrevia com uma simplicidade elegante, e sua história é rica em sangue, batalhas e bravura. Seu filho está bastante cativado.
– Meu filho ainda não tem nem doze anos. Eu sou a Mão do Rei. Dê-me outra carta, por favor.
– Às suas ordens, senhor. – Meistre Pylos esquadrinhou a mesa, desenrolando e depois colocando de lado vários recortes de pergaminho. – Não há cartas novas. Talvez uma antiga...
Davos gostava tanto de uma boa história quanto qualquer homem, mas achava que Stannis não o tinha nomeado Mão para se divertir. Seu primeiro dever era ajudar o rei a governar, e para isso tinha de compreender as palavras que os corvos traziam. Descobrira que a melhor forma de aprender algo era fazendo; velas ou pergaminhos, não fazia diferença.
– Isto pode servir para o que queremos. – Pylos passou uma carta para a sua mão.
Davos esticou o pequeno quadrado de pergaminho enrugado e semicerrou os olhos para as letras, minúsculas e difíceis de decifrar. Ler era pesado para os olhos, pelo menos isso aprendera depressa. Às vezes se perguntava se a Cidadela ofereceria uma bolsa de campeão ao meistre que escrevesse numa letra menor. Pylos riu da ideia, mas...
– Aos... cinco reis – leu Davos, com uma breve hesitação em cinco, palavra que não via frequentemente escrita por extenso. – O rei... pa... o rei... para cá?
– Para lá – corrigiu o meistre.
Davos fez uma careta.
– O Rei-para-lá-da-Muralha vem... vem para o sul. Lidera uma... uma... basta...
– Vasta.
– ... uma vasta tropa de sel... selv... selvagens. Lorde M... Mmmor... Mormont enviou um... corvo da... flo... flo...
– Floresta. A floresta assombrada. – Pylos sublinhou as palavras com a ponta do dedo.
– ... a floresta assombrada. Está... sob a... ataque?
– Sim.
Satisfeito, continuou a abrir caminho através da mensagem.
– Out... outras aves chegaram depois, sem notícias. Nós... tememos... que Mormont tenha sido morto com toda... com todas as suas... forcas... não, forças. Nós tememos que Mormont tenha sido morto com todas as suas forças... – De repente, Davos compreendeu o que estava lendo. Virou a carta e viu que a cera que a selara era negra. – Isto vem da Patrulha da Noite. Meistre, o Rei Stannis viu esta carta?
– Eu levei-a ao Lorde Alester quando ela chegou. Naquela época era ele a Mão. Creio que a discutiu com a rainha. Quando lhe perguntei se desejava enviar uma resposta, disse-me para não ser tolo. “Sua Graça não tem homens suficientes para travar suas próprias batalhas, também não os tem para desperdiçar em selvagens”, disse-me.
Aquilo era bem verdade. E essa conversa de cinco reis teria sem dúvida enfurecido Stannis.
– Só um homem esfomeado suplica pão a um pedinte – murmurou.
– Perdão, senhor?
– Uma coisa que a minha mulher disse um dia. – Davos tamborilou no tampo da mesa com os seus dedos encurtados.
A primeira vez em que viu a Muralha era mais novo do que Devan e servia a bordo do Gato da Calçada às ordens de Roro Uhoris, um tyroshi conhecido de cima a baixo do mar estreito como Bastardo Cego, embora nem fosse cego nem filho ilegítimo. Roro tinha passado por Skagos e entrado no Mar Tremente, visitando uma centena de pequenas angras que nunca antes tinham visto um navio mercante. Trouxe aço; espadas, machados, elmos, boas camisas de cota de malha, para trocar por peles, marfim, âmbar e obsidiana. Quando o Gato da Calçada voltou para o sul, trazia os porões repletos, mas na Baía das Focas surgiram três galés negras e pastorearam-no até Atalaialeste. Perderam a carga e o Bastardo perdeu a cabeça, pelo crime de vender armas aos selvagens.
Davos tinha comerciado em Atalaialeste nos seus dias de contrabandista. Os irmãos negros eram inimigos duros, mas bons clientes, para um navio com o tipo certo de carga. Mas apesar de ter aceitado o seu dinheiro, nunca esqueceu o modo como a cabeça do Bastardo Cego tinha rolado pelo convés do Gato da Calçada.
– Conheci alguns selvagens quando era garoto – disse ao Meistre Pylos. – Eram ladrões razoáveis, mas ruins na pechincha. Um deles desapareceu com a nossa garota de cabine. Tudo somado, pareceram-me homens como os outros, uns bons, outros maus.
– Homens são homens – concordou Meistre Pylos. – Voltamos à leitura, senhor Mão?
Sou a Mão do Rei, certo. Stannis podia ser o Rei de Westeros no nome, mas na realidade era o Rei da Mesa Pintada. Controlava Pedra do Dragão e Ponta Tempestade e tinha uma aliança cada vez mais incômoda com Salladhor Saan, mas era só. Como podia a Patrulha ter voltado os olhos para ele em busca de ajuda? Podem não saber como ele é fraco, como a sua causa está perdida.
– O Rei Stannis nunca viu esta carta, tem certeza absoluta? E Melisandre também não?
– Não. Deveria levá-la? Tão tarde?
– Não – disse Davos de imediato. – Cumpriu o seu dever quando a levou ao Lorde Alester. – Se Melisandre soubesse desta carta... O que foi que ela disse? Aquele cujo nome não pode ser proferido está reunindo o seu poder, Davos Seaworth. Em breve chegará o frio, e a noite que nunca termina... E Stannis teve uma visão nas chamas, um anel de archotes na neve, rodeados de terror.
– Senhor, está se sentindo mal? – perguntou Pylos.
Estou assustado, meistre, Davos podia ter respondido. Recordava-se de uma história que Salladhor Saan tinha lhe contado, sobre o modo como Azor Ahai temperara a Luminífera mergulhando-a no coração da mulher que amava. Ele matou a mulher para combater a escuridão. Se Stannis for Azor Ahai regressado, será que isso quer dizer que Edric Storm tem de desempenhar o papel de Nissa Nissa?