– Estava pensando, meistre. As minhas desculpas. – Onde está o mal em um rei selvagem qualquer conquistar o Norte? Afinal, Stannis sequer controlava o Norte. Sua Graça dificilmente podia ser acusada de não proteger pessoas que se recusavam a reconhecê-lo como rei. – Dê-me outra carta – disse abruptamente. – Esta é muito...
– ... difícil? – sugeriu Pylos.
Em breve chegará o frio, sussurrara Melisandre, e a noite que nunca termina.
– Perturbadora – disse Davos. – Muito... perturbadora. Outra carta, por favor.
Jon
Quando acordaram, viram a fumaça em Vila Toupeira, o lugar estava em chamas.
No topo da Torre do Rei, Jon Snow apoiou-se na muleta almofadada que Meistre Aemon lhe dera e observou a nuvem cinzenta subindo. Styr tinha perdido toda a esperança de pegar Castelo Negro desprevenido quando Jon escapou, mesmo assim não teria sido necessário avisar tão claramente que estava chegando. Pode nos matar, refletiu, mas ninguém será massacrado na sua cama. Pelo menos isso consegui.
Sua perna ainda doía como brasas quando se apoiava nela. Naquela manhã precisou que Clydas o ajudasse a vestir a roupa negra recém-lavada e a amarrar as botas, e, quando terminaram, desejou se afogar em leite de papoula. Em vez disso, contentou-se com meia taça de vinho dos sonhos, um pouco de casca de salgueiro para mascar e a muleta. O farol ardia no Espinhaço do Tempo, e a Patrulha da Noite necessitava de todos os homens.
– Posso lutar – tinha insistido quando tentaram impedi-lo.
– Sua perna está curada, é? – Noye fungou. – Então não vai se importar que lhe dê um pontapezinho?
– Preferia que não o fizesse. Está dura, mas posso coxear por aí suficientemente bem, e ficar em pé lutando, se precisar de mim.
– Preciso de todos os homens que saibam qual das extremidades de uma lança se espeta nos selvagens.
– A pontiaguda. – Jon recordou que um dia tinha dito à irmã mais nova qualquer coisa parecida.
Noye esfregou os pelos que tinha no queixo.
– Pode ser que sirva. Colocamos você numa torre com um arco, mas se cair é melhor que não venha choramingar para mim.
Via a estrada do rei abrindo seu caminho sinuoso para o sul, através de campos marrons pedregosos e por cima de colinas varridas pelo vento. O Magnar chegaria por aquela estrada antes de terminar o dia, com os seus Thenns marchando atrás dele com machados e lanças nas mãos, e seus escudos de bronze e couro nas costas. Grigg, o Bode, Quort, o Grande Furúnculo e os outros virão também. E Ygritte. Os selvagens nunca tinham sido seus amigos, ele não permitiu que fossem seus amigos, mas ela...
Sentia a dor latejar no local onde a flecha de Ygritte tinha atravessado carne e músculo de sua coxa. Lembrava-se também dos olhos do velho e do sangue negro correndo de sua garganta enquanto a tempestade rebentava no céu. Mas lembrava-se melhor da gruta, de como Ygritte era, nua, à luz do archote, do sabor de sua boca quando a abria sob a dele. Ygritte, fique longe. Vá para o sul e pilhe, vá se esconder numa dessas torres redondas de que tanto gostou. Aqui não encontrará nada a não ser a morte.
Do outro lado do pátio, um dos arqueiros no telhado das velhas Casernas de Sílex tinha desatado os calções e estava urinando por uma ameia. Mully. Jon reconheceu-o pelos cabelos oleosos e alaranjados. Viam-se também homens com manto negro em outros telhados e topos de torres, embora nove em dez fossem na verdade feitos de palha. Donal Noye chamava de “as sentinelas-espantalho”. Só que os corvos somos nós, refletiu Jon, e já estamos quase todos bem espantados.
Fosse qual fosse o nome que lhes era dado, os soldados de palha tinham sido ideia de Meistre Aemon. A Patrulha possuía, nos armazéns, mais calções, gibões e túnicas do que homens para enchê-los, sendo assim, por que não rechear algumas dessas roupas com palha, envolver seus ombros com manto e colocá-los em todas as torres e em metade das janelas? Alguns dos espantalhos até seguravam lanças, ou tinham bestas enfiadas debaixo do braço. A esperança era que os Thenns os vissem de longe e decidissem que Castelo Negro se encontrava bem defendido demais para ser atacado.
Jon dividia o topo da Torre do Rei com seis espantalhos, além de dois irmãos de verdade, dos que respiravam. Dick Surdo Follard estava sentado numa ameia, limpando e oleando metodicamente o mecanismo de sua besta, assegurando-se de que a roda girava suavemente, enquanto o rapaz de Vilavelha vagueava impacientemente ao longo dos parapeitos, remexendo a roupa dos homens de palha. Ele talvez pense que lutarão melhor se estiverem na posição certa. Ou talvez a espera esteja mexendo com seus nervos, como está mexendo com os meus.
O rapaz dizia ter dezoito anos, mais do que Jon tinha, mas apesar disso era verde como a grama do verão. Chamavam-no de Cetim, mesmo vestido com a lã, a cota de malha e o couro fervido da Patrulha da Noite; era o nome que obtivera no bordel onde nascera e fora criado. Era bonito como uma menina, com olhos escuros, pele macia e caracóis negros como um corvo. Mas meio ano em Castelo Negro endurecera suas mãos, e Noye dizia que não era ruim com uma besta. Agora, se tinha ou não coragem para enfrentar o que vinha por aí...
Jon usou a muleta para atravessar o topo da torre coxeando. A Torre do Rei não era a mais alta do castelo; a Lança, alta, esguia e arruinada, detinha esse título, embora Othell Yarwyck tivesse declarado que poderia desabar a qualquer momento. A Torre do Rei tampouco era a mais forte das torres: a Torre dos Guardas, junto à estrada do rei, seria uma noz mais dura de quebrar. Mas era suficientemente alta, suficientemente forte, e bem colocada ao lado da Muralha, dominando o portão e a base da escada de madeira.
Na primeira vez que viu Castelo Negro com os próprios olhos, Jon perguntou a si mesmo por que alguém seria tão tolo a ponto de construir um castelo sem muralhas. Como poderia ser defendido?
– Não pode – tinha lhe dito o tio. – É exatamente essa a ideia. A Patrulha da Noite jura não participar nas disputas do reino. Mas, ao longo dos séculos, certos Senhores Comandantes, mais orgulhosos do que sensatos, esqueceram os votos e quase nos destruíram com suas ambições. O Senhor Comandante Runcel Hightower tentou deixar a patrulha como herança ao seu filho bastardo. O Senhor Comandante Rodrik Flint decidiu fazer de si mesmo Rei-para-lá-da-Muralha. Tristan Mudd, o Louco Marq Rankenfell, Robin Hill... sabia que há seiscentos anos os comandantes do Portão da Neve e de Fortenoite partiram para a guerra um contra o outro? E que quando o Senhor Comandante tentou impedi-los, juntaram forças para assassiná-lo? O Stark de Winterfell teve de dar uma mão... e cortar a cabeça deles. Coisa que fez com facilidade, porque os fortes deles não eram defensáveis. A Patrulha da Noite teve novecentos e noventa e seis Senhores Comandantes antes de Jeor Mormont, e em sua maioria foram homens de coragem e honra... mas também tivemos covardes e idiotas, os nossos tiranos e os nossos loucos. Sobrevivemos porque os senhores e reis dos Sete Reinos sabem que não constituímos ameaça para eles, independente de quem nos lidere. Os nossos únicos inimigos estão ao norte, e ao norte temos a Muralha.
Mas agora esses inimigos passaram pela Muralha e chegam do sul, refletiu Jon, e os senhores e reis dos Sete Reinos esqueceram-nos. Estamos encurralados entre o martelo e a bigorna. Sem uma muralha, Castelo Negro não podia ser mantido; Donal Noye sabia disso tão bem quanto todos os outros.