– O castelo não lhes serve para nada – tinha dito o armeiro à sua pequena guarnição. – Cozinhas, sala comum, estábulos, até as torres... que capturem tudo. Vamos esvaziar o arsenal, deslocar todos os abastecimentos que pudermos para o topo da Muralha e resistir em volta do portão.
E assim, Castelo Negro tinha finalmente uma espécie de muralha, uma barricada em forma de crescente, com três metros de altura, feita de material armazenado; barris de pregos e de carneiro salgado, caixotes, fardos de pano preto, troncos empilhados, tábuas, estacas endurecidas pelo fogo e sacos e mais sacos de cereais. O baluarte improvisado rodeava as duas coisas que mais valiam a pena defender: o portão para o norte e a base da grande escada de madeira em zigue-zague que arranhava e escalava a face da Muralha como um relâmpago bêbado, sustentada por traves de madeira grandes como troncos de árvore, profundamente enterradas no gelo.
Jon viu que o último punhado de toupeiras ainda fazia a longa subida, incentivado pelos irmãos. Grenn levava um garotinho nos braços, enquanto Pyp, dois lances abaixo, deixava que um velho se apoiasse em seu ombro. Na base da escada, os aldeões mais velhos esperavam que a gaiola acabasse de fazer o caminho de volta desde o topo da Muralha. Pousou os olhos numa mãe que puxava duas crianças, uma em cada mão, no momento em que um rapaz mais velho passava por eles, correndo pelos degraus. Sessenta metros mais acima, Su Azul-Celeste e a Senhora Meliana (que todos os amigos eram unânimes em dizer que não era senhora coisa nenhuma) estavam paradas num patamar, olhando para o sul. Tinham uma vista da fumaça melhor do que a dele, sem dúvida. Jon perguntou a si mesmo o que acontecera aos aldeões que tinham decidido não fugir. Havia sempre alguns teimosos, estúpidos ou corajosos demais para se refugiarem, alguns que preferiam lutar, esconder-se ou render-se. Os Thenns talvez os poupassem.
O que devíamos ter feito era levar o ataque até eles, pensou. Com cinquenta patrulheiros bem montados, podíamos desbaratá-los na estrada. Mas não tinham cinquenta patrulheiros, nem metade dos cavalos necessários. A guarnição não tinha retornado, e não havia como saber onde estava, ou mesmo se os correios que Noye enviara a tinham alcançado.
A guarnição somos nós, disse Jon a si mesmo, e olhe para nós. Os irmãos que Bowen Marsh deixou para trás eram velhos, aleijados e rapazes ainda verdes, tal como Donal Noye tinha avisado. Via alguns carregando barris pelos degraus acima, e outros na barricada; o velho e robusto Barricas, tão lento como sempre, o Bota Extra, saltitando vivamente sobre a sua perna de madeira esculpida, o meio louco do Calma, que se achava Florian, o Bobo, renascido, o Dilly Dornês, o Alyn Vermelho da Mata de Rosas, o Jovem Henly (bem para lá dos cinquenta anos), o Velho Henly (bem para lá dos setenta), o Hal Peludo, o Pate Malhado da Lagoa da Donzela. Alguns deles viram Jon olhando do topo da Torre do Rei e acenaram para ele. Outros afastaram o olhar. Ainda me julgam um vira-casaca. Isso era desagradável, mas Jon não podia censurá-los. Afinal, ele era um bastardo. Todos sabiam que os bastardos eram desonestos e traiçoeiros por natureza, por terem nascido da luxúria e do engano. E ele tinha feito tantos inimigos como amigos em Castelo Negro... Rast, para começar. Jon certa vez ameaçou ordenar a Fantasma para rasgar sua goela se não parasse de atormentar Samwell Tarly, e Rast não se esquecia de coisas desse tipo. Naquele momento, empilhava folhas secas sob as escadas, mas de vez em quando parava tempo suficiente para dirigir a Jon um olhar maldoso.
– Não – rugiu Donal Noye para três dos homens de Vila Toupeira, lá embaixo. – O piche vai para o guincho, o azeite para as escadas, dardos para bestas para o quarto, o quinto e o sexto patamares, lanças para o primeiro e o segundo. Enfiem a banha de porco debaixo das escadas, sim, aí, entre as tábuas. Os barris de carne são para a barricada. Já, seus empurradores de arado piolhentos, JÁ!
Ele tem uma voz de senhor, pensou Jon. O pai sempre dizia que em batalha os pulmões de um comandante eram tão importantes quanto o braço com que empunhava a espada. “Se as suas ordens não puderem ser ouvidas, não importa quão corajoso ou brilhante um homem seja”, dizia Lorde Eddard aos filhos, e por isso Robb e Jon costumavam subir às torres de Winterfell para gritar um ao outro por cima do pátio. Donal Noye teria abafado a ambos. Os toupeiras andavam todos aterrorizados por ele, e com razão, pois o homem ficava o tempo todo ameaçando arrancar suas cabeças.
Três quartos da aldeia tinham levado a sério o aviso de Jon e vindo para Castelo Negro em busca de refúgio. Noye decretara que qualquer homem suficientemente vivo para pegar numa lança ou brandir um machado ajudaria a defender a barricada, caso contrário podiam perfeitamente voltar para casa e correr seus riscos com os Thenns. Tinha esvaziado o arsenal para pôr bom aço em suas mãos, grandes machados de lâmina dupla, punhais afiados como navalhas, espadas longas, clavas, maças de guerra com espigões. Vestidos com gibões de couro tachonado e pequenas camisas de cota de malha, com grevas nas pernas e gorjais para manter as cabeças sobre os ombros, alguns até pareciam soldados. Com pouca luz. Caso se olhe de viés.
Noye também tinha colocado mulheres e crianças para trabalhar. Aqueles que eram novos demais para lutar transportariam água e cuidariam das fogueiras, a parteira de Vila Toupeira ajudaria Clydas e Meistre Aemon com os feridos e o Hobb Três-Dedos de repente tinha tantos assadores, mexedores de panelas e cortadores de cebolas que não sabia o que fazer com eles. Duas das prostitutas tinham se oferecido para lutar e mostraram habilidade suficiente com a besta para lhes ser atribuído um lugar nos degraus a doze metros de altura.
– Está frio. – Cetim tinha enfiado as mãos nas axilas por baixo do manto. Suas bochechas estavam fortemente vermelhas.
Jon obrigou-se a sorrir.
– Nas Presas de Gelo está frio. Isto é um dia fresco de outono.
– Nesse caso, espero nunca ver as Presas de Gelo. Conheci uma garota em Vilavelha que gostava de gelar o vinho. Esse é o melhor lugar para o gelo, acho. No vinho. – Cetim deu um olhar de relance para o sul e franziu a testa. – Acha que as sentinelas-espantalho os assustaram, senhor?
– Podemos ter essa esperança. – Jon supunha que era possível... mas o mais certo era que os selvagens tivessem simplesmente feito uma pausa para se dedicarem a um pouco de estupro e saque em Vila Toupeira. Ou talvez Styr estivesse à espera do cair da noite, para se aproximar com a cobertura da escuridão.
O meio-dia chegou e partiu, ainda sem sinal de Thenns na estrada do rei. Mas Jon ouviu passos dentro da torre, e Owen Idiota saltou do alçapão, vermelho da subida. Trazia um cesto de bolos de leite com passas debaixo de um braço, uma rodela de queijo debaixo do outro, um saco de cebolas pendurado em uma mão.
– O Hobb disse para lhes dar de comer, para o caso de ficarem presos aqui algum tempo.
Ou isso, ou para a nossa última refeição.
– Agradeça ao Hobb por nós, Owen.
Dick Follard era surdo como uma pedra, mas o nariz funcionava bastante bem. Os bolos de leite ainda estavam quentes do forno quando ele enfiou a mão no cesto e tirou um. Encontrou também um pote de manteiga e, com o punhal, espalhou um pouco no bolo.
– Passas – anunciou em tom feliz. – E também frutas secas. – Tinha uma pronúncia carregada, mas era bastante fácil compreendê-lo depois de se habituar a ela.
– Pode ficar com os meus – disse Cetim. – Não tenho fome.
– Coma – disse-lhe Jon. – Não sabemos quando haverá outra oportunidade. – Escolheu dois bolos para si. As frutas secas eram pinhões e, além das passas, havia também pedaços de maçã.
– Os selvagens vêm hoje, Lorde Snow? – perguntou Owen.
– Se vierem, saberá – disse Jon. – Fique à escuta dos berrantes.